Inventei de querer ajudar a Madalena com o jantar pra passar o tempo. Botei a Maria sentada na ilha de mármore da cozinha e ela ficou amassando batatas numa bacia. Enquanto isso, eu cortei legumes, temperei carnes e coisas assim. Eu notei ela estranhamente calada nos primeiros 20 minutos, enquanto eu e a Maria conversávamos sobre um monte de coisas aleatórias. Em determinado momento, nós ficamos quieta e, assim que a minha menina se distraiu com alguma coisa e eu me aproximei de panela pra jogar os cubinhos de carne nela, a mais velha resolveu se pronunciar.
— Ô dona Nina, o menino da garagem vai tomar um tiro na mão por causa daquilo. — Ela falou de um jeito meio afobado, em um tom baixo, como se fosse um segredo. Minha mão que tava com a tábua de cortes, agora vazia, caiu ao lado do meu corpo, um gelo subiu pela minha espinha, causando um arrepio horroroso no meu corpo. Quê?!
— Tá falando sério, Madalena? — Perguntei, sentindo minha voz embargar na hora. Eu não devia ficar surpresa... Eu sabia que era assim que as coisas se faziam ali. Saber eu sabia, mas minha mente não conseguiu assimilar direito que por causa de mim alguém ia se foder daquele jeito. Era da minha personalidade ser impulsiva e emocional, mas poucas vezes os meus atos no calor do momento tinham desfechos tão perversos quanto aqueles. Eu me senti horrível.
— Tô, eles comentaram aqui na cozinha. — Disse, ela parecia realmente chateada. Eu bufei, me escorando no móvel das panelas e cruzando os braços. Eu não consegui aceitar aquilo de boa, não queria deixar que acontecesse, mas que moral eu tinha pra parar a punição do cara? Que moral eu ainda tinha naquela favela? Eu só não tava morta hoje porque eu tinha uma filha com o dono e a amizade de alguns dos caras mais considerados dessa favela. O que não significava que isso realmente fosse me salvar no final do dia. Como eu ia querer salvar os outros se nem a minha salvação eu podia garantir com 100% de certeza? É claro que eu dava meus pulos, mas mesmo assim...
Me senti meio egoísta. Eu era isso mesmo, na hora do sufoco eu só pensava em mim. Não dava pra mentir pra si mesmo, né?! Fiquei em silêncio uns minutos, olhando pro chão e vendo meu bom humor por rever minha filha escorrendo para o ralo. Olhei pra Maria Ísis de relance e me senti ainda pior. Pensei no garoto com a mão estendida, depois um rombo gigante no meio dela, junto com um rio de sangue escorrendo por entre os seus dedos. No seu pensamento, ele iria remoer a raiva da minha insensatez.
Soltei o ar dos pulmões, murchando. Que falta a paz do nosso sítio em Foz fazia... Lá, num bairrozinho rural no interior do país, de estradinhas de barro vermelho e plantações de soja por todo canto, estava o meu pedacinho de céu. Nem nos seus piores dias Foz conseguia ser pior do que o Rio de Janeiro nas suas boas épocas. Tinha que ser muito mulher pra aguentar tudo aquilo e ficar de pé. Meu coração já tava ficando pesado de culpas... Eu ficava me perguntando se ia chegar o dia que eu não ia mais conseguir caminhar por ai de cabeça erguida. Cheguei a rir com amargura por causa daquele pensamento. Como se eu já não tivesse feito coisas piores nessa vida... Não, eu não era nem um centímetro inocente e não era de mim ficar me vitimizando pelas merdas que aconteciam.
Mesmo assim... fiquei com o menino no meu pensamento. Eu era um monstro real oficial.
Larguei a tábua na pia com raiva e cruzei os braços, assumindo uma posição mais altiva.
— Não foi culpa dele. — Declarei, recebendo um olhar de canto da Madalena.
— Que foi, mamãe? — Perguntou, tirando as mãos da bacia de batata. Ela me olhou curiosa.
— Nada, minha filha, nada. — Respondi, me virando de costas pra ela não ficar procurando pelos meus sentimentos na minha cara. Ela gostava de fazer isso e tentar adivinhar se eu tava triste ou com raiva.
Olhei o relógio da hora, vi que eram seis e pouca da noite, a luz do dia estava começando a ir embora. Era cedo, mas sinceramente? Eu não queria mais esperar e ver a cara do Barbás hoje ainda. Foda-se que a culpa era minha, eu tava com raiva dele.
— Madalena, eu não vou ficar pra jantar não, vou deitar cedo com a Maria hoje. Esquenta água ai pra mim, por favor. E olha a Maria rapidinho. — Subi pro quarto pra vasculhar nas mochilas atrás da maleta de medicamento dela. Demorei um tempinho pra encontrar. Felizmente, quando a abri, já vi logo de cara o que procurava: os vidrinhos de extrato de camomila. Mais embaixo tava o composto lácteo que ela tomava pra tentar dar uma fortalecida no sistema imunológico e dar um ânimo a bichinha. Peguei um dos vidros e a lata do leite, o restante joguei tudo pra dentro da mochila de novo. Uma zona. Aproveitei pra descer a bagagem, junto com o tubo grande e metálico de oxigênio, e colocar embaixo da cama.
Desci pra cozinha e tirei as batatas da Maria Ísis, indo com ela até a pia pra lavar as mãos. Enquanto isso, esperei a água terminar de esquentar pra colocar num corpo pra ela beber. Misturei umas colheres do composto lácteo mais umas gotinhas do extrato de camomila.
Maria Ísis era agitada por natureza, então, quando ela tinha uns dois anos, eu implorei pro Guilherme alguma coisa pra acalmar ela a ponto de eu conseguir fazer ela dormir. O herbal surgiu como um milagre na minha vida. Não importava o quão maluca ela estivesse no dia, cinco gotinhas daquilo e ela ia dormir como um bebê a noite.
Entreguei o copo na mão dela, pedindo que tomasse cuidado pra que não derramasse, nem deixasse cair, já que era de vidro. Por mais grandinha que ela fosse, eu ainda tinha medo de dar qualquer coisa que pudesse quebrar na mão dela.
Fui até a sala e peguei um dos Whiskys caros que o Barbás tinha já aberto nas prateleiras. Voltei pra cozinha, pegando um copo qualquer e derramando o suficiente pra preencher uns dois dedos do fundo.
— Dona Nina... — Madalena se assustou com a minha cara de pau, quando viu a garrafa. Fazer o quê, né?!
— Ninguém vai saber, Madalena. — Já cortei ela. Não queria questionamentos, nem sermões, só um pouco de paz. O dia hoje tinha sido horrível. Como se não bastasse o inferno emocional que eu tinha passado por causa da minha família em risco, numa posição que eu simplesmente não podia ajudá-los, eu ainda tinha feito um coitado de um homem tomar um tiro por minha causa.
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Coração em Guerra
Romanceㅤㅤ"Sou a morte, o diabo, o capeta, a careta que te assombra quando fecha o olho. Sou seu colete à prova de balas, seu ouvido à prova de falas... Eu vou tomar nosso mundo de volta." Djonga ㅤㅤㅤHá 5 anos ela foi acusada de trair o homem a quem ela amav...
