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Bufei, me movendo pra me afastar dele e da sua mão, que ficou pendendo no ar na mesma posição.

— Eu... — Passei as duas mãos no rosto, olhando-o com franqueza. — Deixa eu te ajudar?

Dentro de mim, alguma coisa falou mais alto que minha sanidade. Mais que meu senso de autopreservação ou autocontrole. Encurtei a distância entre nós em uma passada só e deslizei minhas mãos pela sua mandíbula áspera pela barba. Fiquei na ponta dos pés e lentamente aproximei minha boca da sua, dando espaço pra ele sair de perto de mim, me negar se ele quisesse. Ele podia me dizer não. Podia me afastar... Mas não fez. Essa era, talvez, a parte mais controversa da nossa história inteira.

Juntei os nossos lábios com força, com raiva, ele demorou só meio segundo pra agarrar meus cabelos pela raiz da nuca como sempre fazia e puxar minha cintura com a mão que estava livre, marcando-a com o aperto forte dos seus dedos. Só meio segundo pra dominar o meu corpo e a minha mente.

Minha língua invadiu a boca dele com ousadia e ganância, eu não sabia bem o que eu tava fazendo, minha mente deu pane e eu só segui o fluxo. Deixei meu corpo dominar os meus movimentos, sem pensar muito a respeito. Ele me responde com a mesma agressividade, com o mesmo desejo cego que o meu. Senti a sua língua explorando minha boca, ele sugando meu lábio inferior, puxando meus cabelos pela raiz, causando um arrepio delicioso que percorreu meu corpo de cima abaixo. Enfiei minhas unhas na sua nuca, descendo a ponta delas pelo seu ombro e marcando de leve a sua pele. Eu gostava daquele jogo de força, de provocação e domínio. Eu não sabia porque a gente dava tão certo, porque os nossos corpos tinham tanta sintonia.

Ele me empurrou com o próprio corpo pra primeira estrutura onde eu pudesse me chocar, que foi o seu guarda-roupas. Com o impacto do meu corpo, um dos fuzis que estava escorado na porta dele escorregou para o chão, fazendo um barulhão.

— Nina, Nina... — Ele falou, me segurando pelos ombros e se afastando alguns centímetros. Olhei pra arma, depois pra ele e pra arma de novo. Ofegante, William me encarou e bufou, passando uma das mão na cabeça e se afastando mais alguns passos. Rolei os olhos, agora sentindo a vergonha do descontrole me queimar. — Nina.

— Por que a gente faz isso? — Perguntei, mais pra mim que pra ele. Isso era algo que eu nunca ia entender no meu comportamento. — Tipo... porque que a gente gosta de se torturar desse jeito? Eu não entendo. — O significado era ambíguo. Pra mim, todos os lados daquela pergunta eram reais.

Ele negou com a cabeça, olhando pro teto do quarto com os braços cruzados no peito. Eu fiquei no mesmo lugar de olhos fechados, esperando que Deus me poupasse de ter que encarar ele de novo. Depois de um tempo, eu coloquei nossas alianças discretamente nos pequenos bolsos frontais do vestido que eu usava e me abaixei pra guardar tudo de volta nas caixas e colocar elas no lugar onde deveriam estar: dentro da cama do Barbás. Só uma coisa ficou de fora... a caixa larga de veludo preto e empoeirado com a inscrição HStern. Forcei meu corpo contra o colchão levantado, pra colocar ele no lugar.

Nesse momento, eu senti uma figura pairando nas minhas costas. Seu nariz nos meus ombros, sua respiração no meu pescoço. Sabia que ele estava perto, muito perto de mim, mas não chegava a me tocar. Enquanto isso, minhas mãos apertavam fortemente a caixa do meu colar e eu não soube como reagir. Puxei o ar para os meus pulmões com força.

— Vai dormir... — Pediu baixinho perto do meu ouvido. — Namoral mesmo, vai. Sai de perto de mim. — A conotação da sua voz entregou exatamente o que ele quis dizer com aquilo. Não tinha nenhuma agressividade ou raiva quando ele pediu que eu saísse de perto dele... Pelo contrário, eu quase consegui ver o seu autocontrole quase no limite, pedindo arrego e erguendo bandeirinha branca.

Concordei com a cabeça, sem me virar e correr o risco de recomeçar tudo de novo. Coloquei a caixa na cama, dando uma última olhada pra ela antes de dar alguns passos para o lado e andar para a porta do quarto. De lá, eu me virei para dar uma última olhada para William. Ele estava parado no exato ponto onde eu estivera antes, passando seus dedos pelo veludo empoeirado do objetivo que antes estava nas minhas mãos. Ele se apoiou no seu colchão e com as costas do dedo indicador, fez a caixa se abrir, revelando os brilhantes que tinham lá dentro.

Luz...

Um raio de luz que não tinha perdido sua força.

Não consegui continuar a assistir. Me virei e desci as escadas para o 2° andar, onde corri e me refugiei no quarto onde minha filha ainda dormia na mesma posição que deixei. Quando a segurança da escuridão daquele lugar me preencheu, o choro voltou a balançar meus ombros. As lágrimas voltaram a escorrer, dessa vez em um silêncio quase sepulcral.

Tirei as alianças do bolso e coloquei-as na mesinha de cabeceira, depois, escorreguei para a cama e observei Maria Ísis dormir até que o sono me levasse também.

Coração em GuerraHistórias para pegar e não largar. Descubra agora