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O sorriso no seu rosto se perdeu na mesma hora e ela me olhou com empatia. Bufando, ela sentou em uma dos bancos e me olhou, retorcendo a boca num gesto preocupado. Eu sabia do que eu tava falando e ela também...

— É complicado a coisa toda, Nina. Te falo como quem acompanhou 100% do bagulho, não é um negócio simples. É principalmente sobre o Barbás, porque foi ele quem foi pego na tróia, mas quando ele caiu, levou muita gente com ele. Todos nós, que éramos claramente aliados dele, fugimos da Rocinha pro Parma não passar fogo na gente. — Contou e eu concordei com a cabeça, baixando o olhar pras minhas próprias mãos. Aquele tempo era um rasgo no meu coração. Ouvir dela o que realmente tinha acontecido do lado de cá me enchia de melancolia e tristeza. — Se tu quer saber, eu não acho que tenha sido tu não, tá? Mesmo que a gente não se bata tanto assim, a gente se parece. Eu não entregaria o cara que eu amava, pai do filho que eu carregava na barriga e base da minha casa por um pai que eu tinha conhecido há meses. Ninguém faria isso, principalmente sabendo que ia ser mãe do filho do cara, po. Eu já me convenci da tua inocência, mas não tenho prova nenhuma dela. — Deu de ombros. — É só boa fé da minha parte.

— Eu gosto de você, mesmo que tu não goste de mim. — Dei de ombros, dando um sorrisinho de lado pra ela. — Obrigada por acreditar em mim.

— Eu só falo o que eu vejo e pode parar de sentimentalismo. Não vou falar que eu gosto de você também. — Olhei pra ela com escárnio. Pelas coisas que ela tinha feito por mim, eu sabia que era recíproco. — A questão é que tua conta com o nosso pessoal não tá fechada. Eu não sei o que tu fez pra ele te dar a oportunidade de viver e se explicar, mas se agarra nisso e prova tua inocência, Nina. Do contrário o bagulho vai ficar ruim pra tu e eu não sei como vai ser.

— Eles querem que eu passe por um tribunal, sabia? Há quantos anos a gente não ouve falar dos tribunais do tráfico?! Porra, eu sempre achei que isso era lenda urbana da minha adolescência.

— Tu não ouve,mas nesses últimos anos, o que eu tenho é ouvido falar dos tribunal, po. É o justo, é o que o estatuto manda. — Ela deu de ombros. — E se ele te decretou assim, então ele tá te dando uma chance e fazendo o certo, não agindo só pela cabeça dele. É a tua chance de ouro de provar tua inocência, ué. Se tudo der errado...

— Se tudo der errado, eu já disse que vou aceitar meu destino tranquila. — Suspirei. — Pro que não tem remédio, remediado tá, né?! Eu tô de boa com isso, vou pensar direito em como vou me defender.

Ela ia falar alguma coisa, mas eu desviei meus olhos pro portal, onde o Barbás despontou com uma sacola de farmácia nas mãos. Desviei o olhar meio constrangida e me preparei pra bronca. É, eu tava ficando folgada naquela casa mesmo...

— Vou dar um rolé e ir ver como tá os negócios lá em cima. — Falou a Larissa, batendo a mão no balcão.

— Se for lá no bagulho, leva o TK contigo. — Mandou pra Larica, que fez um joinha com o polegar e saiu. Engoli em seco, sentindo o clima péssimo. Eu tava igualzinho uma criança que faz merda e tem medo de apanhar da mãe.

Ele jogou a sacola na ilha da cozinha, onde eu tava sentada, sem falar nada. Peguei e despejei o conteúdo no balcão, notando a caixa de Postinor ali. Olhei o princípio ativo e vi que era mesmo uma pílula do dia seguinte.

— Puta que pariu, amém. — Xinguei, indo pegar um colo e encher de água. — Perdão, Senhor. — Me retratei pela frase anterior. O peso que eu sentia nos ombros sumiu e eu pude respirar aliviada. Tirei os dois comprimidos juntos e tomei de uma vez só. Suspirando muito mais tranquila depois. Enquanto isso, Barbás tava do outro lado da cozinha, de braços cruzados, me observando.

Uns segundos depois, eu tive coragem de desviar o olhar pra ele, pra tentar pegar alguma coisa na expressão do seu rosto. Ele parecia só apatico como sempre.

— Tu quase quebrou o dedo da Marcela... — Ele começou e eu nem deixei terminar.

— Eu sei, eu tava nervosa e foi sem querer... e isso tudo é culpa sua, só pra começar. — Dei de ombros com a cara mais inocente que eu tinha. Naquele momento, eu vi um lampejo de culpa passar pelo seu rosto, levando ele a bufar e mudar de posição desconfortavelmente.

— É culpa sua também, porra.

— Minha?! — Fiquei indignada pela declaração. — Não sou eu quem tenho pau aqui não, eu não gozei dentro de ninguém. Aliás, eu não podia fazer nada, ou podia? — Levantei os pulsos e balancei, antes de deixar meus braços caírem de volta pra próximo do corpo.

Ele fez um 'tsc' com a língua e olhou pro outro lado, negado com a cabeça. Percebi que ele queria dizer alguma coisa, mas não sabia o que, ou como falar. Era mesmo uma situação meio merda pra nós dois.

— Aquilo foi erro nosso. — Engoliu em seco e voltou os olhos pra mim depois de dizer.

Coração em GuerraHistórias para pegar e não largar. Descubra agora