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Olhei pro chão, achando que ia desmaiar. O ar que entrou pelos meus pulmões pareceram percorrer até a minha alma, trazendo o calor de um conforto e a brisa da liberdade. Eu quis abraçar o Will, me agarrar no seu pescoço e sentir o seu cheiro, a sua pele sob a minhas unhas. Meu Deus, eu tava tão feliz, tão... tão... Que eu podia explodir. Só que eu não podia. Só pela reação dos presentes, eu já senti uma onda de hostilidade tomando o ar. Ele tinha sido esperto, dado um jeito de dar uma volta nos parceiros dele e virar o jogo a meu favor. Se eu abertamente fizesse o que eu queria fazer, eu ia acabar comprometendo ele. Então, eu só olhei pra ele, profundamente emocionada. 

Russo veio correndo me abraçar, me levantando do chão com seu abraço de urso. Algumas pessoas foram cumprimentar o Barbás e eu ouvi alguns dizerem que era o justo, que ele era quem tinha o direito de tomar aquela decisão final, com o aval dos irmãos. Alguns só saíram sem falar nada, talvez não muito contentes com o que tinha rolado... mas houve 1 que teve mais coragem que os outros. 

— Que justiça é essa ai, parceiro? A mulher faz o que faz e vocês absolvem nessa porra, namoral.— Virei pra trás, vendo como ele tinha se levantado com uma expressão corporal de quem tava muito puto. 

— Tá feito, meu irmão. Teve a porra de uma votação aqui e o bagulho já tá decidido. Toma teu rumo aí, Amaro, o assunto já morreu. — Barbás respondeu, sentando na cadeira dele e começando a falar alguma coisa com o TK. 

— Votação meu piru, Barbás, tu só pode tá de sacanagem. Tu usou teu voto pra limpar a barra da tua puta que tá toda errada na história. Se fosse a minha aí no lugar dela, tu ia folgar também? Tá certo essa porra não, caralho. — Ele caminhou uns passos na nossa direção e o Barbás fez um sinal mínimo com o dedo para o Túlio. Eu já conhecia algumas partes da comunicação silenciosa deles. 

— Vou te dar a moral de deixar tu sair daqui sem te dar um tiro na cara pela falta de respeito comigo, por consideração. — Disse, parecendo um monge na expressão facial. Os seus olhos, porém, denunciavam o brilho obscuro dos seus olhos castanhos. Ele tava irritado. — Não vou falar de novo. Já foi votado, ela tá absolvida e foda-se. Foi resolvido pelo jeito justo, aceite tu a decisão ou não.

— Se tu tivesse consideração por nós, tu não tava fazendo essa putaria aí não. — Ele seguiu falando e avançando na nossa direção. — Na moral, que se foda, o certo é o certo. — Disse, metendo a mão na pistola e mirando na minha direção. O cara tava há uns 2 metros de mim, talvez um pouco mais... era muito pouco pra eu ter um tempo de reação, caso ele atirasse. Engoli em seco, paralisando no lugar. 

Túlio automaticamente levantou a submetralhadora que ele tinha na direção do cara. Quando o outro viu isso, a mira da sua arma foi automaticamente pro Barbás. Lentamente virei minha cabeça pra olhar pro Barbás, que o encarava com um sorriso de lado no rosto. Ele se ergueu da sua cadeira com muita tranquilidade, a última das reações de quem tinha uma arma apontada pra própria cara. 

— Vai fazer o que, irmão, vai atirar em mim? — Ele perguntou, estalando os dedos das mãos. Porra, ele era muito doido. O Túlio tava todo tenso, eu também, enquanto isso, Will parecia o homem mais relaxado do mundo.  — Tu tem cu pra aguentar as consequências disso? Se tu tiver, vai em frente. 

— Barbás... — Murmurei, com medo de dar um só passo além do meu lugar e algum de nós acabar baleado. Alguém tinha que fazer alguma coisa. Pelo canto dos olhos, eu vi como os outros amigos, eu antes estavam aqui no meio do salão discutindo minha situação, agora se reuniam próximo da entrada, vendo a merda se desenrolar. Alguns tavam com a mão na arma, pra defender o Barbás, outros estavam simplesmente parados. 

Todo mundo sabia que se algo rolasse com o Will, seria uma lambança. Uma nova guerra de sucessão se formaria bem diante dos nossos olhos. Naquele salão só tinha gente que estivera na Rocinha tempo o suficiente pra passar por algumas dessas... algumas das mais sangrentas que essa favela já viu, pelo menos. Era consenso que ninguém queria se arriscar a aquilo novamente sem que fosse realmente necessário. 

— Teu problema é comigo, Amaro? — Murmurei. — Não confia no julgamento dos teus parceiros? No do homem que tu chama de chefe? — Quis distrair ele, mas vi como aquilo só o enfureceu mais. Seus traços ficaram mais rígidos e o cano da sua pistola voltou pra mim. 

No momento que ele virou a arma pro meu lado, Barbás colocou as mãos pra trás e num gesto rápido, ele puxou a glock da cintura, dando um tiro tão rápido no cara que eu nem consegui acompanhar direito o movimento. Ele sempre tivera uma sacada muito rápida mesmo... 

Soltei a respiração quando vi ele caindo no chão. O tiro do William tinha pegado na lateral do seu abdômen. TK correu pra perto dele, apontando a Uzi no seu rosto. Com a pistola nas mãos, Will caminhou até conseguir pisar na mão que segurava a arma dele. 

— É uma pena, irmão. Te considerava pra caralho. — Disse o Barbás, sem emoção nenhuma na voz. — Tu ameaçou minha vida, desobedeceu a minha ordem e todo mundo aqui foi testemunha. Aqui... — Ele abaixou na frente do Amaro. — ...o certo é o certo. Quer que eu mande falar alguma coisa pra tua família? Última oportunidade. 

Ele ficou em silêncio olhando o Barbás com ódio por uns segundos, antes que ele pudesse murmurar algum xingamento, Will se levantou e descarregou a pistola a queima roupa nele. 

— Isso aqui... — Apontou pro corpo ainda quente sob os seus pés com a pistola. — ... é bom pra vocês lembrarem qual a posição de vocês nessa porra. Eu sou amigo de todos vocês que tão aqui, tenho consideração por cada um, pelo tempo que a gente tá junto nesse caralho de favela, mas eu sou o chefe de vocês também e nessa porra quem manda sou eu. Se eu tô indo pelo justo, eu não vou aceitar essa merda aqui não. — Fez mais uma gesto com a arma em direção ao Amaro, cujo o sangue escorria pelo chão agora. — Que fique avisado. 

Nenhum dos que agora se aglomeravam próximos a porta falou nada, mas eu vi muitos concordarem com a cabeça. 

— Agora vaza todo mundo pro baile que eu tô ligado que é isso o que vocês tão afim de fazer. — Ouvi alguns salves do pessoal e lentamente o clima pesado se dissipou. Agora que as obrigações tinham terminado, tudo o que todo mundo queria era só descarregar os estresses da semana em lança, cachaça e putaria. — Bora que hoje é sábado de maldade. — Ele brincou, indo em direção à galerona que tava na entrada. 


Coração em GuerraHistórias para pegar e não largar. Descubra agora