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Passei a mão na testa, descobrindo que estava suando. Eu não sabia como eu ia fazer aquele homem escutar, depois de tanto tempo eu não sabia como me reconectar ele, pra que me entendesse. Meu coração palpitou dolorosamente no peito... Ele parecia magoado e saber que eu tinha sido responsável por isso, em algum grau, acabava comigo. Ele não merecia, mas porra, eu também não. Há 2 anos, quando soube que ele tinha sido libertado, eu poderia ter voltado e tentando conversar com ele, eu tomei a decisão de ficar e deixar pra lá. Eu tinha meus motivos, minha filha tava fazendo o primeiro tratamento contra a leucemia, mas mesmo assim, eu tomei essa decisão e agora sabia que a sua raiva era consequência desse ato também. Talvez agora fosse tarde demais.

Naquele momento, eu entendi que eu tinha errado com ele também. Por outro lado eu tinha que ser forte e lutar pela Maria, que precisava de mim... Nossa história estava manchada por erros graves de nós dois. Os outros eram culpas, mas nós éramos também.

— É isso? Você quer me matar? — Perguntei depois de um tempo, recuperando a força que eu tinha dentro de mim. Era um baque fortíssimo ver de perto o que o destino tinha feito com as nossas vidas... Aquele homem foi o amor da minha vida, eu sabia que não ia encontrar outro como ele.

Ele não respondeu, então eu continuei.

— Você vai se sentir melhor depois disso? — Continuei suspirando. — Sua vida vai ser melhor se eu não existir mais no seu mundo?

Ele continuou em silêncio.

— Lembranças não se apagam assim, Barbás. Pessoas não desaparecem da memória depois de morrerem. Não vai adiantar... — Suspirei profundamente.

— Amanhã. Cedo. Aqui. — Falou pausadamente. — Se você não vier, eu vou até você.

— Quero resolver numa boa. — Repeti debilmente.

— Vou esperar. — E desligou o celular. Eu ouvi o pi-pi-pi em seguida... Joguei o aparelho no tapete com raiva, chutando a mesinha com raiva. Eu tinha que resolver aquilo numa boa, eu tinha... se eu piorasse o que já tava horrível, eu não ia conseguir atingir o meu objetivo. Maria precisava do Barbás, então, eu ia precisar fazer o joguinho dele. Eu só tinha receio pelo que podia ser, pelo que ele podia fazer por mim... Se no final, eu conseguisse o inferno da medula dele, pra mim tava valendo.

Se eu ia ter que me dar como um cordeirinho pro Barbás, eu não ia ir despreparada. Eu tinha algumas armas com as quais lutar, não ia ser tão simples quando ele pensava... Eu era como uma cobra, ele podia pisar em mim, mas não ia escapar de uma picada muito dolorosa, talvez fatal.

Pelo restante do dia, eu comecei a correr atrás das cartas que eu tinha na manga. A primeira coisa que fiz foi ligar pro Rogier. Perguntei como estavam as coisas lá no meu sítio e quando descobri que tava indo tudo bem, comecei a planejar o meu "plano B".

— Escuta, só me escuta e não questiona. Sabe quem é o Homero? Ele é um dos nossos aliados ali. É um dos que me deve uma nota preto, por conta de uma ajuda firme que eu dei há uns anos, pra ele não quebrar depois de umas apreensões. — Começei. — Ele é o fornecedor da Rocinha. Sonda ai e descobri o dia que ele manda a carga pra cá, vê como ele faz e fica com isso pra tu. Se eu não te ligar em 3 dias, você vai nele e manda ele segurar a carga que vem pra cá, não liberar de jeito nenhum até que eu diga, ou que não dê mais pra manter. Se ele quiser dinheiro, eu tenho uma economia boa na conta conjunta que eu tenho com o tio Aramí. Vou colocar essa nota à tua disposição, usa se precisar. Se ele não aceitar numa boa, tu pega os nossos homens e sequestra a carga dele. De qualquer jeito, o importante é desabastecer a Rocinha.

— Tá bom, mas pra que isso?

— Pra me preservar. — Não entrei em detalhes. — Se eu ligar, falando que tá tudo bem e não disser a palavra "Nova Esperança", significa que não está tudo bem e não é pra liberar. Beleza? — Confirmei. A palavra chave era o nome do sítio que eu tinha comprado pra viver com a minha filha.

— Beleza.

Então eu tô contando contigo pra isso.

Terminei de acertar os detalhes com ele e desliguei. Corri atrás de colocar tudo no lugar e avisar ao Barnabé que eu ia ter que ficar uns dias fora, mas que era pra ele tocar as coisas em frente. Junto com ele, eu ia deixar minha mãe. Enquanto ele sabia bem como administrar as coisas, ela ia ser o rosto carismático enquanto eu tava fora. Sabia que ela não ia gostar nem um pouco, provavelmente não ia nem aceitar de cara a ideia de dar aquela força pro Barnabé nos assuntos da favela, mas todos nós íamos ter que fazer nossos sacrifícios.

Quando ela chegou, eu já soltei logo o verbo do que eu ia fazer e qual ia ser a parte dela. Como eu previa, ela não quis me deixar ir e nem aceitou o meu pedido. Fiquei o resto do dia pra dobrar ela e conseguir deixar minhas coisas ali com alguma estabilidade. O trabalho pesado eu já tinha feito, era só eles conseguirem manter que tudo ia ficar certo.

Depois, eu fui ficar a noite com a minha família. A gente sentou, viu um filminho, comeu pipoca e bebeu refrigerante, ficamos juntinhas por um tempão. Eu botei ela pra dormir e acabei cochilando com ela na cama. Eu sabia que ia ficar uns dias sem ver ela, no fim, eu não tive nem coragem de dizer que eu ia "viajar" como eu planejava inicialmente. Só dormi com minha bebê, abraçadinhas o noite toda e quando a manhã chegou, eu quase não consegui deixar ela ali. Sabia que a Maria ia sentir a minha falta, mas era tudo para o bem dela. Tudo o que eu fazia era por ela, sempre, sempre...

Coração em GuerraHistórias para pegar e não largar. Descubra agora