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[...]


Acordei no dia seguinte com a mina agarrada em mim. Olhei no relógio do celular... era 7h ainda. Tava cedo ainda, mas eu tava meio inquieto. Parecia que eu tava gripado, meu peito tava meio pesado e ficar deitado tava me incomodando. Me mexi e levantei, acordando a Jéssica no processo.

— Que horas são? — Ela perguntou, se espreguiçando.

— Cedo. Fica dormindo ai que eu vou fazer café da manhã. — Falei, dando um tapa na coxa dela quando passei perto dela. Tomei meu banho e me vesti. Botei até uma blusa de manga, porque tava frio pra cacete o dia. Assim que eu desci as escadas, eu ouvi o toque do meu 2° celular, que tinha ficado em cima do bar.

Fui até lá e percebi as 10 ligações perdidas que tinha, todas da Dalila. Estranhei...

— Alô? Morreu alguém, irmão? — Quis logo saber. Não era normal ela me ligar daquele jeito.

Mariazinha da Beira da Praia quer falar com você. Ela tá te chamando desde ontem, vem logo aqui pelo amor de Deus. — Ela parecia cansada, a voz ofegante e rouca me preocupou na hora.

— Tá na sua casa? — Perguntei, sabendo que eu ia ter que ir lá. Não dava pra simplesmente ignorar um chamado daqueles, não se eu não quisesse ser cobrado depois. — Que que houve?

— Eu não consigo dormir. — Ela choramingou. — Eu sonhei com ela dizendo o seu nome e acordei passando mal, eu tô sentindo ela, mas ela tá te esperando. Vem cá.

— Tá, tá, tô indo. Segura ai. — Falei, tentando tranquilizar ela. Peguei só a chave da moto e puxei minha guia pra fora da camisa que eu usava, indo pra garagem e saindo com a Honda, que foi a primeira chave que eu tinha encontrado pelo caminho.

Cheguei bem rápido na casa onde ela morava com o irmão dela. O Russo vivia na casa de cima, ela na de baixo, e eles dividiam o mesmo terreno. Eu tava esperando muito sério a hora que ela ia se mudar dali, já que a quantidade de mulher que ele vivia trazendo pra casa acabava incomodando ela. Dalila era meio do tipo 'moça recatada', que não se envolvia com nada de ilegal ou imoral por causa de um monte de valores morais que eu considerava hipócritas. Era fácil pra ela não querer se envolver no tráfico, enquanto o irmão dela bancava a faculdade, o material, o estágio e a porra toda pra ela se formar enfermeira. O mais perto que ela já tinha chegado de algo daquilo era na endola, quando o Russo precisava de gente pra embalar a droga e não tinha disponível, ela ia quebrar um galho.

O portão da frente do quintal dos dois já tava aberto, então entrei e já encontrei um ponto de luz pro meu orixá. Ela já parecia ter arrumado tudo...

Antes que eu desse mais um passo só, Dalila, toda sorridente e empolgada apareceu na porta dela, e veio correndo me dar a mão. Só pelo seu olhar dela, eu já entendi que não era bem a Dalila... A agitação e o andar saltitante não parecia nada com a personalidade dela, pelo menos não depois da voz cansada que eu escutei no telefone. A incorporação era isso, afinal. Ali, agora, estava a energia da entidade.

— Oi, tio! — Ela disse, com a voz muito mais fina do que era normal. Aquela era Mariazinha, da linha dos erês. Essa linha era de espíritos de criança, que costumavam trabalhar mais reconhecidamente perto da data de São Cosme e São Damião. Porra, eles adoravam um monte de coisas de criança, tinha que ter brinquedo, doce, uma pá de coisa. Geralmente se faziam festas infantis pra eles, ou pelo menos preparava uma quantidade legal de coisas pra os entreter nas giras... até porque, né? Eles se expressavam daquele jeito, era o jeito deles de trabalhar.

Ela me puxou pela mão até lá dentro e pulou ao me redor por um tempo, antes de sentar no chão com a respiração ofegante, juntando os pés e mexendo as pernas como se fosse uma bailarina, me olhando com expectativa. Sabia bem que tinha nada ali naquela casa pra ela, e porra... certeza que ia pedir. Ai que morava a merda, nem a Dalila e nem o Russo tinham absolutamente nada de criança. As coisas do Pedro já deviam estar há muito tempo nas mãos de outras crianças, além se serem de menino, né?! Abaixei na frente dela, que sorriu, batendo as mãos no chão e fazendo sons ritmados com os tapas.

— Oi, Mariazinha. — Eu costumava falar com erês como falava com meu filho quando ele era pequeno, sabia que eram sensíveis... Era foda ficar medindo as palavras, principalmente com a minha personalidade. Não dava pra esquecer que eram como crianças também.

— Tio... — Ela olhou ao redor, focando a atenção nos pelinhos do tapete da sala. — Eu tô com fome.

— Pera ai que o tio vai te arranjar alguma coisa. — Fui até a geladeira, torcendo pra Dalila ter pelo menos um refrigerante ali. E tinha... Enquanto eu procurava um copo de plástico pra colocar a bebia, peguei o celular no bolso e liguei pra um dos seguranças que fazia a guarda da Rua 1 agora. — Ai, irmão, bom dia. Me faz um favor, passa naquela Casa do Biscoito ali da principal e compra bastante doce pra mim. Pode comprar bala, pirulito, essas coisas. Passa em algum armarinho e trás umas bonecas pra mim também, qualquer coisa de pelúcia que tu achar. Tem que ser agora. — Pedi, ouvindo um 'é pra já' do amigo do outro lado. Passei o endereço da casa do Russo e desliguei, pegando o copo e voltando pra sala, onde a menina rodava de uma lado pro outro, dando cambalhota no chão.

Coração em GuerraHistórias para pegar e não largar. Descubra agora