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— Nada. — Neguei com a cabeça e virei ela, pra colocar ela em cima do balcão do bar. Desci minha boca pro seu pescoço, levando a mão livre da nuca para a raiz dos seus cabelos. Eu poderia ter continuado tranquilamente, mas a irritante sensação de que tinha mais alguém ali me tirou completamente o foco. Bufei, me afastando uns centímetro e olhando pra cozinha de novo, com desconfiança. Não parecia ter nada lá, só o breu...

— Que que foi, hein?! — Insistiu.

— Faz o seguinte... Sobe. — Mandei, apertando o joelho dela, que franziu a testa.

— Pro seu quarto? — Perguntou com uma segunda intenção na voz.

— Não, pro de hóspedes do segundo andar. — O de sempre. — E leva minha garrafa.

Ela fez um 'hm' e desceu do bar, pegando o Ballantine's e o meu copo e subindo as escadas. Observei ela ir e, enquanto isso, fui quieto pro interruptor da sala e apaguei todas as luzes. No mesmo silêncio, eu caminhei todo o corredor até a cozinha e, lá, acendi as luzes, indo de uma vez só pro vão que dava pra parte de trás e o banheiro dali.

Marina pulou no lugar, levando uma das mãos ao peito e dando um gritinho abafado. Estreitei os olhos pra ela, cruzando os braços no peito. Vi ela ficar vermelha e não focar os seus olhos em mim a primeira vista. Chegava a ser engraçado ver o quão constrangida ela tinha ficado.
Ali, eu descobri que eu realmente não tava maluco. Se não tivesse ninguém, eu ia assumir que era hora de começar com o Rivotril.

— Quê? Eu só tava com sede. — Ela me olhou, devolvendo o olhar acusador. — E tava tomando banho pra tentar ir dormir.

— Tava gostando? — Perguntei e ela ficou ainda mais vermelha. Desviou seu olhar de mim pra os rolar e imitar minha posição.

— Eu não sei do que você tá falando, tá bom? — Começou e eu não disse nada. Dois segundos depois ela bateu o pé no chão. — Não posso fazer nada se você chega fazendo algazarra, a culpa não foi minha de ter percebido. Nem era minha intenção bisbilhotar, se tu quer saber. Não tô nem ai pra quem tu...

— Tá defensiva assim por quê? — Interrompi ela, que me olhou meio chocada. Era muito bom devolver todas as provocações silenciosas que ela fazia a mim. Ver ela perder o controle das próprias emoções era impagável. O veneno não era tão doce quando era você quem provava. — Você sabe que tava olhando, eu percebi. — Confrontei ela. O meu verdadeiro prazer era ver ela se confundir na própria mente. — Quer um convite pra se juntar?

Ela soltou o ar dos pulmões e parecia tão indignada que eu imaginei que fosse vir pra cima de mim me socar. Se ela fizesse isso... Então, ela respirou profundamente de novo e voltou o olhar pra mim. Dessa vez era diferente, eu vi ferocidade neles.

— É, e se eu aceitasse? — Perguntou, dando de ombros e piscando os olhos, insinuativa. Ela tava me testando e eu sabia bem. Eu só não pude evitar a surpresa com a atitude dela. Levantei as sobrancelhas, ainda tentando entender se ela tava falando sério. O riso ficou preso na minha garganta e logo transpareceu no meu rosto.

— Não, eu tô só brincando. Nem se eu tivesse achado esse corpinho aqui no lixo. — Ela passou por mim pra colocar o copo de água dela na pia e passar de novo, pra mexer na fechadura da porta. Eu ainda tava meio surpreso por ela ter ensaiado uma aceitação. A expressão corporal dela era inteiramente irritadiça. Sorri de canto.

— É isso aqui que tu tá procurando? — Balancei as chaves que tavam em cima da ilha da cozinha. Enquanto ela surtava anteriormente, eu discretamente tinha tirado elas da trinca da porta. Ela olhou pro objeto prateado na minha mão e sua boca formou um 'O' perfeito, pra depois, me olhar com raiva e vergonha.

— Tá, me dá ai. — Pediu, indo na minha direção.

— Tava fazendo o que aqui a essa hora? Tá achando que aqui é a casa da tua mãe? — Briguei, mesmo que eu tivesse me divertindo pra caralho as custas dela. Já era tarde pra porra pra ela ficar zanzando ali fora, a Marina tava começando a ficar abusada demais. Ter deixado ela sair tinha sido um erro, mas eu também não ia perder meu tempo ali pra socar ela dentro da porra do quarto de novo. Não agora. Ela ia ir pelas próprias pernas.

— Eu disse, eu tava bebendo água e... Arrrrrg! — Ela grunhiu pra mim, querendo tomar as chaves. Afastei ela com uma das mãos, propositalmente na cintura dela, pra ir até a porta de trás e abrir. Ela bateu a mão na minha, cortando o contato, enquanto me olhava com os mesmos olhos semicerrados com os quais eu normalmente olhava pra ela.

— Mão de buceta alheia. — Ela rebateu, saindo pela porta, enrolando a própria toalha nos ombros. Percebi os braços dela se arrepiarem com o brisa gelada da madrugada quando ela parou do lado de fora.

— Isso é ciúmes, porra? — Provoquei só pra ver ela ficar mais constrangida. Marina girou o corpo inteiro pra me olhar ainda mais irritada.

— Quê? — Perguntou, 10x mais indignada. Eu não precisei nem dizer nada, ela só se virou e bateu a mão no ar, como se dissesse 'deixa pra lá'. Caminhou de volta pro quarto de trás, do lado do que ficava a Madalena sem dizer mais nada. Só por ver ela vermelha igual a um pimentão minha noite já tinha valido pra caralho.

— Se liga, hein?! Se eu tiver que passar a chave na tua porta vai ser pior. — Avisei, bem humorado demais pra uma ameaça. Fechei a porta.

Coração em GuerraHistórias para pegar e não largar. Descubra agora