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[...]


Mais tarde naquele dia, Túlio veio trazer coisa pra encher o armário. Claro que ele não ia ficar comprando quentinha pra mim todo dia, então, eu ia ter que me virar ali. Fiquei impressionada que eles tinham deixado um botijão de gás na minha posse, pra eu cozinhar, porque faca não tinha nenhuma na casa.

— Vem cá, vocês não tem medo de eu explodir tudo com gás e fogo não? — Brinquei, enquanto ele ia checando tudo.

— Força não, Nina. — Ele disse com um sorrisinho no rosto.

— Longe de mim. — Ergui as mãos em um gesto de defesa. — Ouvi um dos meninos comentando que tu teve um filho. Menino ou menina?

Ele me olhou meio esquisito, depois pros meninos da porta. Talvez eu tivesse colocado eles numa furada... é...

— Menino. — Respondeu, colocando uns negócios pra mim na geladeira.

— Ter filho muda a gente, né?! — Falei, sentindo falta da minha pitchulinha... Acho que eu nunca tinha ficado tanto tempo longe dela antes. Já faziam uns 4 ou 5 dias que não via ela. Esperava que a Maria tivesse se adaptando bem à minha ausência. — A gente tem que amadurecer tanto depois que o pinguinho de gente nasce... o mundo fica meio diferente na nossa visão.

— É... — Ele virou pra mim e eu vi o brilho orgulhoso nos seus olhos. — A gente faz tudo por eles, sempre.

— É mesmo... Inclusive entrar numa favela cheia de gente querendo sua cabeça. — Dei de ombros. — Isso é meio porque eu sou meio doida também, mas é mais pela minha filha mesmo.

— Tava me perguntando aqui o motivo real por tu ter vindo aqui. — Ele me olhou de canto. — Tu tem sorte, Nina. Muita sorte, tu parece que não vê isso e nem aproveita. Se tu tinha a oportunidade de ter metido o pé, devia ter aproveitado.

— Eu sei, de verdade. — Suspirei. — Mas não é tão fácil, sabe? Tem coisas que a gente tem que encarar de frente, principalmente quando é pro filho da gente. Não tem medo que vença o amor pela cria. Tu sabe disso. Por que eu voltaria sem motivos? Eu gosto de viver.

— Não sei. Tem um monte de coisa que tu faz que ninguém vê motivo... — Ele deu de ombros. — O que tem o teu filho pra te fazer querer se matar desse jeito? Quer registrar ela no nome do pai? — Perguntou meio desconfiado. Sabia que ele não acreditava muito na história da Maria.

— Minha filha? É que ela tá doente. — Contei, cruzando os braços. Ele virou pra mim na mesma hora. — Eu preciso de uma medula pra ela.

— Sérião?

— Juro, po. — Concordei com a cabeça.

— Porra, Nina. — Ele parou, passando a mão na nuca. — Ia ser mais fácil se tu conseguisse comprovar o que tu diz pro Barbás, principalmente sobre a sua filha.

— O Wallace e a Dalila podem comprovar o que eu digo, ué. — Dei de ombros. — Barbás vai achar a verdade se ele souber procurar direitinho. Eles dois são padrinhos dela, tavam lá quando eu descobri a gravidez.

— Ele tá de falar com a Dalila... — Disse. — Vou ver se o Russo quer ajudar.

— Faz isso, por favor. — Concordei com a cabeça.

Ele concordou com a cabeça e eu fiquei contando pra ele sobre a Maria, em troca, ele se sentiu confiante pra falar do menino dele também. Tinha 3 anos, se chamava Michel e a primeira palavra tinha sido 'papai'. Eu vi o quanto ele era apegado à aquele moleque e o quanto tava feliz com o filho... o Túlio merecia ser feliz mesmo. Eu me perguntei o quanto ele me achava culpada e se tinha acreditado pelo menos um pouco nas coisas que eu tinha dito antes... Eu sabia que as pessoas só confiariam em mim de novo o dia que eu pudesse provar que não tava mentindo, até lá, eu ia dando o meu jeitinho de chegar até eles de novo. De qualquer maneira, eu já ia plantando sementinhas que pudessem me ajudar a alcançar no meu objetivo...


[...]


O dia seguinte chegou muito depois do que eu gostaria. Confinada dentro de casa, eu tava ficando agoniada por não ter nada o que fazer, mas realmente... eu não quis reclamar. Já tava de bom tamanho, ali eu tinha algum conforto e isso era tudo. Sabia que era sábado de baile só pela reação dos meninos que guardavam a casa ali, todo mundo ficava no pique. Fiquei com aquilo na cabeça a manhã e a tarde toda, pensando no que eu faria em seguida. Remoí o dia todo a vontade de ir lá e convencer os meninos a me deixarem sair, mesmo que eu soubesse que isso seria altamente improvável. Quando tava anoitecendo e eu vi eles todo emocionados no posto, comecei a pensar em como eu ia fazer pra tentar contato com o mundo exterior. Aquilo era uma oportunidade de ouro.

— Tem baile hoje? — Perguntei pra um deles, que confirmou com a cabeça. — Os bailes daqui são demais, cacete... Cês vão?

— Só depois que acabar aqui, dona. Lá pra meia noite a gente troca de com os irmão da madrugada e vai pro baile. — Contou.

— Saquei. — Murmurei, observando as expressões deles. Então era lá por meia noite que eu ia fazer meus trambiques. — Curtam por mim então.

Discretamente olhei o quintal inteiro, tentando achar um jeito de pular pra fora daquela casa, de maneiras que eles não conseguissem me ver. Depois, entrei e em todas as janelas. A janela da cozinha, dava num vão entre uma casa e outra que era absolutamente minúsculo. Tipo, era muito estreito mesmo, mas se pá desse pra passar se eu fosse discreta. Se eu desse sorte, aquilo daria no beco de trás e eu ia conseguir sair dali nem ninguém me ver. E ia ter que ser quando eles tivessem trocando de turno, que aí eu não ia chamar a atenção. Sabia que às vezes entravam em casa pra ver o que eu tava fazendo, então, a ideia é que achassem que eu tava dormindo.

Fiquei ansiosa o resto do tempo todo, esperando a hora chegar. Não dava muito bem pra calcular o tempo, mas eu me orientei pelo som das caixas de som e das pessoas, que eu via da janela que dava pra rua (e que era gradeada, infelizmente). Soube que era umas 11h e pouca, quando a música começou de verdade, dava pra sentir o grave dali, e o fluxo de gente na rua aumentou. Um tempo depois, quando os meninos estavam meio agitados, meio afoitos, eu sabia que o turno deles tava no final.

Coração em GuerraHistórias para pegar e não largar. Descubra agora