— É... Então. É a nossa chance dourada de fazer as coisas do jeito certo, né?! Antes das coisas acontecerem. — Olhei pra ele com confiança e passividade, concordando com a cabeça e sorrindo com os lábios fechados. Era um sorriso de melancolia.
— É... — Concordou, suspirando pesado e olhando as vezes pra cima.
— Então, por ela, vamo dar uma trégua? Tu sabe melhor que eu que pode ser que as coisas saiam muito ruins, aliás, eu tenho certeza que tu até espera isso. É um lance entre eu e a Rocinha que eu tenho que resolver, não tô questionando isso, mas po... Pode ser que eu esteja vivendo minhas últimas semanas de vida, né?! — Eu não queria colocar as coisas daquele jeito, me dava vontade de chorar. Só que eu tinha que ser mulher e encarar as coisas de frente agora. Se alguma coisa me acontecesse, eu ia deixar minha filha muito bem na fita, com a vida garantida e um exército de gente pra proteger ela. — Me dá uma moral. Eu não vou fugir, mas me dá uma chance pelo menos de correr atrás de gente que pode dar base pra minha história.
— Trégua? Tu quer sair? — Ele disse como se eu tivesse contado uma piada sem graça.
— É. Eu quero ver meus irmãos direito, conversar com gente que pode me ajudar no tribunal, rever minha minha favela... Na próxima semana as coisas vão estar encaminhada, né?! Então essa é minha última oportunidade. — Argumentei. — Assim, quando a Maria Ísis chegar, a gente vai estar de boa, ela não precisa ver nós dois desse jeito, po. Sei lá, é só que se pá nós nunca mais tenhamos essa chance? Me dá uma trégua.
Ele ficou em silêncio, desviou os olhos de mim e pareceu pensativo. Não respondeu imediatamente e a ansiedade foi me comendo de dentro pra fora. Minutos se passaram, tanto que eu até me apoiei na parede pra não me cansar de pé. Eu já ia desistir... se pá ele achasse que eu não era digna nem de resposta pra um pedido daqueles.
— Tá. — Ele respondeu com o que pareceu o peso de um mundo inteiro na voz. — Vou botar um segurança meu pra ir contigo onde quer que tu vá, tu pode circular pela favela na parte da tarde, mas tem que voltar antes de anoitecer. Corre atrás de quem vá te ajudar com alguma coisa, corre atrás de ver como vai ficar a situação da Maria, faz o que tu tiver que fazer. Tu tem um pouco mais de um semana pra dar seus pulos. — Eu simplesmente não acreditei que ele tinha cedido mesmo.
— Pera, sério? — Sorri.
— Tenho cara de quem tá brincando? — Perguntou.
— Não, po. Claro que não. — Tentei disfarçar minha felicidade, mas eu tava muito, muito feliz.
— Então é isso ai. — Ele levantou, pegando o rádio da cintura, que tava apitando fazia um tempinho já. — Tô colando ai, segura essa pra mim que eu tô descendo. — Falou pra alguém no aparelho, me dando as costas e saíndo.
— Barbás! — Chamei a distância. Ele parou e virou a cabeça pra mim. — Mais tarde, vamo ligar pra Ísis. — Convidei. — Quer ver ela?
Ele deu um sorrisinho de canto e voltou a andar. Suspirei, comemorando a minha pequena grande vitória. Voltei pra dentro no meu quarto e me fechei lá voluntariamente. Ali, inevitavelmente eu vislumbrei a noite passada. Eu quase ainda conseguia sentir aquele frenesi, aquele calor... a ardência do sexo... Sentei na cama, passando a mão nos lençóis bagunçados. Eu tinha estado cega e atordoada... ele também, eu sabia. Foi mais forte que a gente, mesmo que nós dois soubéssemos que, no fundo, não deveríamos ter ido tão longe. Eu ia ser julgada, ele podia ter que me matar no futuro, talvez ele realmente quisesse isso. Tinham coisas demais entre nós, mágoas demais, pontos de interrogação demais. Mesmo assim, eu senti aquela paixão avassaladora outra vez, me engolindo como se ela fosse inevitável pra mim... era como se aquele fogo tivesse tão dentro de mim que era impossível de tirá-lo de lá.
Levei o pano branco ao nariz, sentindo o cheiro do meu suor misturado com o dele. Suspirei, me jogando contra o colchão e fechando os olhos. Minha mente tava confusa, eu tava totalmente perdida e fora da caixinha. Quem diria que uma trepada ia me tirar tanto da zona de conforto e embaralhar os meus pensamentos daquela forma, hein?! Deitei direito na cama, querendo terminar de descansar as horas mal dormidas da noite passada.
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Coração em Guerra
Romanceㅤㅤ"Sou a morte, o diabo, o capeta, a careta que te assombra quando fecha o olho. Sou seu colete à prova de balas, seu ouvido à prova de falas... Eu vou tomar nosso mundo de volta." Djonga ㅤㅤㅤHá 5 anos ela foi acusada de trair o homem a quem ela amav...
