Teve um boteco ali na ladeira, que ficava num larguinho de moto táxi que tava vazio agora, já que todos tavam ocupados lá na concentração do baile e no pé da favela. O botequim por outro lado, tava cheio de veio jogando pôker e bebendo horrores. Além de uns casais dançando uns pagodes antigos também. Não sei porque, mas aquele clima atraiu a gente. Eu e ele demos mais uns shots de cachaça e fomos dançar o pagodinho.
Começamos de Só pra Contrariar e fomos pra Art Popular. Quando começou Sem Abuso, a gente só perdeu total a linha e a dignidade. Porra, eu e ele devíamos estar parecendo muito doidos, se eu tivesse sóbria eu estaria morrendo de vergonha... mas não tava, né?
— Sem abuso, sem abuso. — Eu cantava junto com o coro da terceira idade e dançava que nem eles com o Gui. Parecia o jeito que se dançava forró, sabe? Mão na mão e uma mão no ombro.
— E eu tô com você... — Ele deixou pra eu completar.
— ...NÃO SOU DE NINGUÉM, EU SOU O SEU BEM. — Continuei cantando muito feliz. Aquilo era muito divertido, porra. A gente rodopiando por aí sem ritmo nenhum.
Depois veio a frenesi pelo Deixa Acontecer, aquela que bagunça a mente de qualquer um. Todas as cachaças baratas começaram a fazer efeito a virar nossa cabeça de novo. Eu sinceramente não sabia como ainda estávamos de pé. Até paramos de beber e comemos um tira gosto da tia do boteco ali.
Tudo estaria as mil maravilhas se não tivesse começado a tocar Imaginassamba. Amaldiçoei a veia que tinha pedido pra colocar aquele grupo, porque logo na segunda música eu passei mal. Tocou Contratempo e o refrão me deprimiu de um jeito que eu cheguei a sentar no meio fio e chorar. Ainda bem que minha maquiagem era a prova d'água, se não eu ia estar que nem um panda. Dignidade no pé e eu soluçando ali, 3h da manhã ouvindo pagode.
— Mas o que houve? — Guilherme caiu no meio da rua quando tentou sentar do meu lado.
— Sabe o que que é, Gui? É que eu acho que eu amo aquele merdinha ainda. — E só as lágrimas pesadas caindo. — Se eu amar ele ainda, eu vou ter que me matar.
— Que matar quem? — Ele tava sentou no meio da rua e cruzou as pernas.
— Matar eu mesma, sabe? E matar ele também. Aquele cuzão... e aquelas putas, todas aquelas vagabundas. A culpa não é dela, que porra... cadê meu empoderamento feminino? — E voltei a chorar horrores. Todos os livros de auto ajuda que eu tinha lido até ali, que falavam sobre comunidade e sororidade feminina teriam vergonha de mim.
— Cadê, né? — Ele só tava concordando comigo e soluçando.
— TU NÃO TÁ ME AJUDANDO! — Gritei com ele e o empurrei de volta pra cair no chão. Voltei a chorar de soluçar. — Eu não quero amar ele não. Tu não é psiquiatra não, Gui?
— Eu cuido de criança só... e de criança com câncer. — Ele disse. As duas especialidades dele, pediatria e oncologia, não incluam nada de psiquiatria.
— Meu Deus, eu vou ter que cometer um crime de ódio. — Puxei ele pra perto pra confidenciar uma confabulação com ele. — Eu vou ter que matar o Barbás e depois eu vou ter que me matar se eu ainda amar ele. Aí eu vou aparecer no Cidade Alerta que nem uma maluca, meu Deus que vergonha. Tu tem que me ajudar, amigo.
— Mas você... — Ele soluçou. — Você ama ele ainda?
— Não sei, porra, tô falando, não sei. — Ele só fazia eu ter mais vontade de chorar. Eu tava desidratando de tanto que eu tava me acabando em lágrimas ali.
— Sabe sim, sabe as coisas do coração da gente... que tá aqui dentro, poxa. As coisas do sentimento do coração de todos nós, só a gente sabe. — Ele cutucou o meu peito esquerdo. Ou foi o direito... eu não sabia. A gente se entendia só na doideira daquele papo de bêbado mesmo.
— Eu dei pra ele. — Contei.
— TU DEU? — Ele ficou chocado como se tivesse ouvido uma fofocona quente. — Presa no negócio dele?
— Que? Que negócio dele? O pau? — Eu balancei a cabeça. — Dei umas três vezes, ou foi mais, sei lá. Ele é tão gostoso. — Levei as mãos ao rosto com vergonha.
— Se você ainda tá na... — Soluço. — ... na dúvida, e deu esse monte de vezes, deve amar. Deve amar. Certeza, deve amar. Ama com certeza.
Eu dei um gritão e empurrei ele de novo, me enrolando e abraçando meus joelhos e chorando muito.
— EU TE PEDI AJUDA. — Reclamei, limpando as lágrimas das bochechas. — Tu não tá me... AI, FODEU. — Vi um monte de motos passando correndo do nosso lado. — A gente tá fugindo, A GENTE TÁ FUGINDO, GUILHERME. PAGA E VAMO CORRER.
— Tá. — Ele respondeu gritando também e correu pra dentro do boteco pra passar o cartão.
Peguei ele pelo braço e a gente correu um cado por dentro de um monte de becos. Eu até me perdi no labirinto e a gente começou a rir que nem idiotas. Teve uma hora que eu simplesmente não sabia mais onde a gente tava. Em um momento muito aleatório daquela noite, depois da gente só ir andando sem saber pra onde tava indo, ele achou um moço com uma moto saindo.
— Moço, moço... A gente tá querendo ir lá praquela clareira da Vila Laborieux. Te damos 100zão pra levar nós dois lá. Por favor... Não tamo achando motoboy. — Dei uma desenrolada com o tiozão. — Mototáxi...
Óbvio que ele não ia recusar. 100zinho em nota que eu tinha pegado do bolso do Guilherme? Bom demais pra começar o dia do homem. Ele fez duas viagens. A primeira com o Guilherme e depois voltou pra me buscar. Chegamos lá na clareira, os dois, devia já ser quase 5h da manhã. Sentamos no chão ali, vendo a vista da mata e da favela e voltamos pro nosso papo alucinado.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Coração em Guerra
Romanceㅤㅤ"Sou a morte, o diabo, o capeta, a careta que te assombra quando fecha o olho. Sou seu colete à prova de balas, seu ouvido à prova de falas... Eu vou tomar nosso mundo de volta." Djonga ㅤㅤㅤHá 5 anos ela foi acusada de trair o homem a quem ela amav...
