Dei partida e saí pela estrada de terra até o final da minha propriedade. Minha cabeça tava a mil e, talvez o que eu mais temia, tinha acontecido. Bom, eu sabia que tinha possibilidade de rolar, mas a verdade é que a gente nunca quer pensar no pior até que ele realmente aconteça. Mandei uma mensagem pro Dr. Rizzo, um amigo que tinha cuidado da saúde da minha filha desde os 2 anos, quando acabamos descobrindo a doença que ela tinha... Esperava que fosse ele o médico de plantão naquela noite.
Corri pra lá, fodendo a suspensão do meu carro no processo. Acontece... ali era assim, se chovesse, era só uns buracos ridículos na pista. No caminho, fui rezando muito. A casa sinal, eu segurava o crucifixo que levava no peito, pedindo muito à Jesus que protegesse o meu bebê, que não deixasse que ela adoecesse de novo... Eu não queria mais passar pelo inferno de uma radioterapia com ela outra vez. Ela não merecia viver aquele sacrilégio de novo e nem eu. Aos 2 anos, a Maria tinha um monte de infecções, uma seguida da outra, e a gente não sabia bem o que ocasionava isso. Uma bateria de exames depois, descobrimos que ela tinha um tipo de leucemia comum entre crianças. Todos os médicos me garantiram que era perfeitamente curável, mas mesmo assim, não é fácil lidar com o diagnóstico daqueles. Inicialmente por radioterapias, por julgar menos agressivas que a químio, apesar de ter o dobro de tempo de duração. Em 4 meses, conseguimos pôr a doença em remissão e a Maria pareceu ficar bem... Mesmo assim, eu fui alertada que havia possibilidade de recidiva. Se houvesse, provavelmente ela precisaria entrar num tratamento mais incisivo e eu devia começar a correr atrás de um transplante de medula óssea pra ela.
Pus o carro no estacionamento, me curvando sobre o volante por alguns momentos antes de sair do automóvel. Câncer... Eu odiava como essa palavra andava orbitando a minha vida nos últimos meses. Carlos, meu pai biológico, tinha descobrido que estava com a doença em fase terminal, sem chance de recuperação por causa da metástase. Era entendível como alguém como ele tinha chegado nesse estado, já que um tratamento, onde se precisaria ir ao hospital todo santo dia, me parecia minimamente inviável pra alguém tão infame quanto ele. Traficante há mais de 20 anos, devendo até as calças pra justiça brasileira, com uma porrada de inimigo, ia ficar saindo da favela o tempo todo pra fazer exame? Das duas uma, ou ia ser preso, ou ia ser morto. Apesar de me entristecer com as notícias dele, eu sentia que simplesmente não era problema meu. Todos nós temos o que merecemos da vida, ele tava tendo o que era dele. Deus sabe que eu não queria ficar apontando o dedo pra ele, mas a verdade era essa... Dentro de mim, o ressentimento por ele ter ajudado a roubar de mim o meu final feliz não me deixava lamentar profundamente o seu estado.
Por outro lado, eu tinha a minha filha, que, tão novinha, já tinha que lutar contra aquela maldição do caralho. Ela não merecia, simplesmente não merecia. O que ela tinha feito pra ter aquela porra? Nada, cara. Simplesmente nada. Ela era um bebê, só um bebê. Depois de passar mais de um ano bem, agora tinha a possibilidade daquilo ter voltado nela. Por quê? Eu só conseguia perguntar isso pra Deus.
Entrei pelo hospital e fui direto para a enfermaria, onde eu soube que Rizzo já me esperava. Maria já parecia me esperar quando cheguei no cubículo onde ela e as babás dividiam o espaço. Sentada na cama, ela já parecia menos abatida do que eu esperava encontrar. Era um bom sinal, não era?
— O que deu, doutor? — Perguntei de uma vez, tava ansiosa e impaciente.
— Vamos lá na cafeteria. Eu te pago um café e a gente conversa. Pode ser? — Perguntou, olhando para a menina com canto dos olhos. Ele não queria falar na frente dela... Isso definitivamente não era um bom sinal. Me aproximei e dei um beijo na testa dela e a deixei com as duas mulheres que tomavam conta dela durante todo o tempo que eu ficava fora, saindo dali com o pediatra.
Eu e ele caminhamos até o centro do hospital, onde havia uma lanchonete elegante, que tinha bebidas quentes como especialidade. Como de costume, ele pediu nossos cafés e se sentou na minha frente.
— Fala de uma vez, Guilherme. — Mandei, usando da intimidade que eu já tinha com ele. — Ela já tem apresentando alguns sintomas de novo, é o que eu acho que é?
— Quase certeza que sim. — Ele mesmo pareceu cansado ao me dar aquela notícia. — Já comecei a correr os exames mais detalhados, mas o hemograma já acusou alteração nos glóbulos brancos e todo o resto parece estar seguindo num caminho semelhante.
Suspirei, enfiando a cabeça nas minhas mãos, onde os dedos se fecharam ao redor do meu cabelo, puxando com força. Agora sim eu tava arrasada... Lutei pra conter todos aqueles sentimentos de tristeza a indignação dentro de mim.
— Sinto muito, Nina. — Ele começou falando.
— Não sinta, me ajuda a curar ela. É isso o que eu quero. — Disse, sabendo que eu precisava me manter forte e firme frente ao problema. — O que eu faço agora?
— Olha... — Ele deu de ombros. — É o que eu já tinha te falado antes, se isso voltasse, o certo é a gente entrar num tratamento com quimioterápicos e você... seria bom começar a pensar seriamente em procurar o doador haploidêntico dela. — Ele falou e eu sabia bem o que ele estava querendo insinuar que eu fizesse. Além de meu amigo, Rizzo e eu tínhamos nos envolvido romanticamente algumas vezes durantes os últimos dois anos, não era nada realmente sério, mas a gente acabava se divertindo junto. Assim, ele sabia bem por alto o porque eu não podia seguir o que ele tava me falando. Doador haploidêntico identificava quem tinha 50% de compatibilidade de medula garantida, ou seja, pai e mãe. Eu simplesmente não podia ser eu mesma a doadora por causa da condição auto-imune que eu tinha, o que só deixava uma outra opção... o pai.
— Isso é impossível, Rizzo. Eu já te disse que não dá, faz anos que eu não vejo o pai dela e eu tenho quase certeza que ele me odeia agora. Os meus irmãos, que têm contato com ele, me dizem isso o tempo todo. — Dei de ombros.
— Que tipo de homem negaria um transplante que pode salvar a vida da filha dele?
— Ele não conhece ela. — Neguei com a cabeça. — E me odeia. Tem motivos pra isso.
— E você tem medo dele? — Me confrontou.
— Não é medo. — Respondi na mesma hora. — Não dele, mas da situação. Como eu chego lá e digo: oi, tudo bem? Essa é nossa filha e ela precisa da sua medula óssea. Eu não fiz isso em todos esses anos, vou fazer agora como?
— Hora de rever suas prioridades, então. Você pode ficar aqui e gente vai tentar outra abordagem à doença, mas essa com muito menos garantias do que uma nova medula. Só não esquece que a cada recidiva, o tratamento fica mais agressivo e a Maria fica mais vulnerável. Pode ser que você tenha que assistir sua filha definhar se quiser pagar pra ver e...
— Para. — Pedi, erguendo uma mão na frente do meu rosto. Entre a cruz e a espada, era assim que eu tava. Um sentimento amargo de ansiedade e desespero me amarrou o estômago, senti meus olhos se encherem de água.
— Desculpa, Nina, mas você precisa escutar isso. Eu sei que você tem os seus motivos pra ter afastado sua filha do pai, mas agora é a hora de você repensar isso. Pode ser que no final do dia, você nem precise dessa medula e ela responda bem aos quimioterápicos. Só que pode ser também que o transplante seja a última opção dela e se chegar nesse ponto, você não vai ter tempo de correr atrás, não sem antes minar a saúde dela completamente. Leucemia é um tipo de câncer muito imprevisível, sabe? Não dá pra saber pra onde ele vai, por isso, você tem que se precaver e garantir esse doador, que é o único que você tem. — Ele parou por um momento e eu dei um gole no meu café, assumindo uma expressão corporal completamente derrotada. — É o que eu acho, pensando só na Maria, claro.
— Eu já entendi. — Concordei com a cabeça, sentindo meu lábio inferior tremer pela tensão.
— Não quero te pressionar a isso, Nina. Só quero que você pense a respeito e coloque tudo numa balança. Uma conversa sincera com o pai dela vai te doer tanto assim?
— Tu não entende. — Neguei com a cabeça, cruzando os braços. — Se você já me acha muito fora da lei por passar entorpecente pela fronteira, tem que ver o pai dela. Ele é traficante, no sentido estrito da palavra. Como tu imagina que eu vou fazer isso?
— Bom... — Ele negou a cabeça e se calou. Agora ele conseguia compreender um pouquinho melhor o motivo da minha hesitação. — Não sei.
— Nem eu. — Bufei, descansando minha testa na mão, que era sustentava pelo cotovelo apoiado na mesa. — Mas eu vou dar um jeito.
— Eu sei que você vai. — Ele terminou o café dele e eu o meu.
— Minha filha já tá de alta? — Quis saber, me levantando e acompanhando ele, que foi pagar a conta.
— Já, até assinei o prontuário dela. De verdade, Nina, pensa com carinho sobre isso... Não faz nada que vá arriscar sua vida, mas pensa na sua filha.
— Eu vou pensar. — Prometi, saindo dali com ele e caminhando de volta para a enfermaria. — E você? Já pensou em sair desse fim de mundo? Tenho certeza que o Rio de Janeiro é muito melhor profissionalmente pra você, se eu resolver voltar pra minha terrinha, porque tu não vem comigo? — Eu e ele já tínhamos conversado algumas vezes sobre isso. Sabia que ele queria oportunidades em cidades maiores, se ele topasse ir pro Rio, caso eu fosse, seria ótimo já que ele ia poder continuar a acompanhar o caso da Maria.
— Tá me pedindo em casamento? — Brincou dentro do que a nossa situação permitia.
— Não, seu idiota. Tu sabe que eu e você nunca daríamos certo. — Dei de ombros.
— Sei bem, você não gosta de caras decentes como eu. — Havia humor oculto em cada uma das palavras dele. — E eu não gosto de bandidas como você.
— Idiota. — Eu ensaiei um sorriso, infelizmente eu tava muito abalada pela notícia que tinha acabado de receber pra conseguir me divertir com as provocações. Aquela era a mais pura verdade. Nós dois éramos grandes amigos, mas como casal... não ia durar 3 meses e no fim a gente ia se odiar. Além disso, eu não gostava dele com meu namorado e tinha certeza que ele se sentia da mesma forma. Do contrário, nós dois já iríamos estar em um relacionamento.
— Valeu, Gui. — Agradeci, me separando dele pra ir buscar minha filha. Ele tinha que continuar o plantão e eu tinha que ir pra casa colocar ela pra pensar e tomar uma atitude.
Peguei a Maria no colo, que parecia bem sonolenta, não sabia se pelos remédios ou pela hora. Eu e as babás voltamos pra carro e eu voltei pra casa, sabendo o quão grande seria aquela noite. Depois de colocar ela pra dormir, eu sabia que teria um mundo de coisas a pensar...
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Coração em Guerra
Romanceㅤㅤ"Sou a morte, o diabo, o capeta, a careta que te assombra quando fecha o olho. Sou seu colete à prova de balas, seu ouvido à prova de falas... Eu vou tomar nosso mundo de volta." Djonga ㅤㅤㅤHá 5 anos ela foi acusada de trair o homem a quem ela amav...
