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— Eu tô comportando, mãe. — Falou e eu sorri vendo ela mudar o ângulo de câmara um milhão de vezes.

— Que bom, filha... Olha, a mamãe tá longe, mas tá contigo sempre, tá? Sempre e sempre, meu amor. Você tá nos meus pensamentos todos os dias, eu te sigo em coração. — Disse, controlando a distorção da minha voz pra não dar a impressão de que eu tava chorando pra ela.

— Eu também, mamãe. Aqui no coração. — Ela apontou pro próprio peito, pro lado direito ao invés do esquerdo como eu tinha ensinado pra ela anteriormente, o que fez a gente rir aqui no lado de cá. O que valia era a intenção...

— Te amo, Maria. Te liguei só pra te dizer isso... Eu te amo muito, muito, muito. Um montão, daquele jeito...

— Um montão... — Ela disse, empolgada e cortando minha fala pra simbolizar o 'montão', abrindo os dois braços.

— Nesse montão, filha. — Ri, achando aquilo extremamente fofo.

— Eu também te amo um montão, mamãe. — Ela disse, abrindo a boca em seguida. Ela tava com sono e eu não queria perturbar a paz dela... só que eu não sabia bem como me despedir, primeiramente porque eu não queria dizer 'tchau'.

— Filha, a mamãe tem que desligar... — Foi uma dor tremenda ter que finalizar a chamada. — Depois eu ligo de novo pra gente se falar e você contar o seu dia, tá bem?

— Tá bom. — Concordou, rindo e se aproximando da câmera do celular pra dar um beijo, bem como ela fazia pra se comunicar com a minha mãe e os meus irmãos quando estávamos no Paraguai. Fiz barulho de beijo pra ela também.

— Boa noite, pitchuquinha. Volta a mimir, viu? — Mandei.

— Boa noite, mamãe. — Dei uma última olhada pro seu rostinho, gravando bem na memória antes de apertar o vermelho. Me senti derrotada quando voltamos pro fundo verde no Whatsapp. Devolvi o aparelho pra Dalila, deixando que as minhas lágrimas escorressem livremente por uns minutos.

— Onde vai ser o tratamento dela? Eu posso ir ficar com ela durante parte do dia também, levar brinquedo, tentar deixar ela melhor... — Perguntou e eu expliquei a localização ali na Barra.

Wallace e ela vieram me fazer companhia, ficamos os três abraçados ali naquele sofá por um tempo... Os três mosqueteiros estavam oficialmente de volta, eu só não sabia bem por quanto tempo.

— Eu tenho que ir agora, antes que fique tarde e alguém acabe percebendo que eu não tô mais lá. Tenho que aproveitar a distração dos moleques pelo baile. — Disse, beijando eles dois na bochecha. Expliquei a localização da casa pro eles. Sobe até o salão da Paula, entra, vira a esquerda, vai até a escada. Na primeira ruazinha à direita.

Russo quis me acompanhar, mas eu convenci ele de que era mais seguro se eu fosse sozinha, afinal, assim ia ficar mais fácil de passar despercebida. Dalila chorou, como sempre e ficou na porta que nem minha viúva quando eu saí pra ir embora. Wallace colocou um boné na minha cabeça, pra disfarçar meu rosto melhor e lá fui eu, ali por dentro da Dioneia, caminhando aquele pedaçasso até o Paula Brito de novo. Com o boné na cabeça, olhando pro chão, eu fiz meu caminho por aquelas ruas vazias ao invés de me expôr na principal além do necessário.

Fui distraída, meu pensamento no meu bebê, na chamada que a gente tinha acabado de fazer. Ela tava tão linda, tão bem... Ela ia passar por aquele inferno bem, esperava que a minha falta não fizesse tão mal à ela. Sabia que minha mãe sabia criar filhos, ela tinha jeito com criança e saberia remediar aquilo numa boa. Mesmo assim, eu tava com meu coração apertado no peito...

Na hora de pegar a travessa que dava nos fundos da casa onde eu tava, eu vi uma movimentação esquisita de motos descendo a rua. Eram algumas e eu me escondi no escuro de uma viela ali, esperando eles passarem. Devia ser umas três da manhã, provavelmente era só uns moleques do movimento indo ou voltando do baile. Procurei não me estressar por causa disso. Esperei passarem e decidi atravessar. Quando botei o pé na rua e olhei pra figura solitária que vinha subindo ela meio cambaleante, eu me assustei na hora. Foi como se eu tivesse tomado um soco na cara... Pulei no lugar e voltei pra dentro do beco onde eu tava escondida. Me esgueirei pra fora pra ter certeza de que eu tinha visto exatamente o que eu vi...

— Barbás? — Sussurrei, não acreditando no que meus olhos tavam captando. Puta que pariu. Eu duvidei da imagem que tava se formando ali, bem diante de mim, até o último segundo, porque sinceramente... ele era a última pessoa que eu imaginava ver naquela situação. Descalço, sem nenhum arma grande à vista, subindo sozinho a rua, a pé. A impressão que eu tive de que ele tava meio cambaleante se provou real quando ele chegou mais perto. Caralho, ele parecia muito, muito bêbado... Como isso tinha acontecido? Minha memória não soube explicar aquilo, afinal, eu nunca tinho visto ele bêbado até aquele presente momento.

Coração em GuerraHistórias para pegar e não largar. Descubra agora