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Não consegui dormir direito. Essa porra já tava virando rotina... mas também, porra, como eu ia conseguir descansar direito com a Nina dormindo no meu lado? O cheiro dela no ar, os cabelos pretos jogados no travesseiro branco e o rosto tranquilo como o de um bebê. A paz dela, o jeito como ela conseguia simplesmente apagar na cama depois de tudo, era um negócio que normalmente me deixava puto. Inveja da minha parte, eu tinha que admitir nessa porra. Só que dessa vez não era isso o que tava me tirando o sono. Não sabia bem o porque, mas quando eu acordei de madrugada depois de 3, 4 horas de sono, no máximo, eu me peguei olhando pra ela. Ver ela dormir... ver como o seu peito subia e descia na maior serenidade do mundo, parecia ser a melhor coisa que eu tinha pra fazer naquele momento. 

Sei lá quanto tempo eu passei ali, só olhando pra ela descansar enquanto a insônia me comia por dentro. E foi ai que eu percebi que alguma coisa dentro de mim tinha mudado. Pela primeira vez em muito, muito tempo, eu achei que a paz dela me trouxe alguma felicidade. Bufei, me sentindo irritado pela constatação. Eu não queria perdoar ela, mas eu já não sabia como ia seguir negando meu perdão pra Nina. Porra, eu tava sendo fraco. Ela tava me deixando fraco. 

Levantei da cama, peguei um charuto e fui pra varanda, precisando de um pouco de espaço. Puxei uma cadeira e fiquei ali, vendo o sol começar a nascer no horizonte, enquanto o gosto da nicotina ia se misturando aos pensamentos amargos que eu tinha. 

Me perguntei o que Deus queria de mim. O que os orixás queriam de mim? O que os meus guias vinham em Terra pra me dizer? Sentir amolecer, suavizar o meu coração me deixava puto comigo mesmo. Mesmo assim, era quase como lutar contra a maré tentar impedir que a Nina entrasse na minha vida de novo. Até porque, né? A Maria Ísis existia e era uma parte de mim agora. Eu amava aquela menina como se tivesse estado com ela desde o início... meu coração amava ela antes mesmo que tivesse visto o seu rosto. Porra, aquele pedacinho de gente era o meu mundo. 

E a mãe dela... Traguei o charuto com força, não sabendo nem como explicar pra mim mesmo a diferença de sentimentos que eu tinha pela Marina. Mas que se foda também... Ficar remoendo isso não ia mudar nada. Eu nunca tinha sido homem de tentar mastigar o mastigável. Pro que não tinha remédio, remediado já estava. A distância, olhei ela se mexer na cama e abraçar o meu travesseiro. Fechei os olhos e virei a cabeça pra outro lado, soltando a fumaça devagar. Por que ela era assim? 

Meu celular vibrou no bolso da calça de moletom que eu usava e eu me perguntei o que caralhos alguém queria comigo 5h da manhã. Já imaginei uma merda do tamanho no mundo quando peguei e vi o nome da Larissa na tela. 

— Que que deu? — Fui direto, passando a mão na testa. — Quem morreu? 

— Ninguém, eu acho. 

— Então tá me ligando a essa hora por quê? 

— Tô te ligando pra avisar que tô indo buscar nosso filho, ô cavalo. — A resposta dela me trouxe um alívio e uma felicidade que eu sentia poucas vezes nessa vida. Puta que pariu, que saudade eu tava do Pedro, mano. — Minha mãe já colocou ele no voo pra cá. Tô indo buscar ele no Galeão. 

— Colocou ele sozinho? Ele tá vindo sozinho? — Sempre tinha que ter alguma coisa pra já começar a azedar meu humor cedo. 

— É, po. É normal, eles vem com um tutor, paguei por isso. Relaxa ai que a gente já fez isso antes. — Se justificou, mas eu ainda fiquei com o pé atrás. — Ela vem depois, tá cuidando da venda da casa que eles moram lá. 

— E tu vai vender a casa deles em Espirito Santo? Por quê? — Quis saber. 

— Vou trazer eles pro Rio de novo... — Confessou em voz baixa. Eu não tava sabendo de nada, que filha da puta. Caralho, eu fiquei puto e feliz com aquela notícia. Pena que a preocupação começou a me comer por dentro ali mesmo e não me deixou aproveitar o fato de que eu ia ter meu filho perto de mim de novo. Eu nunca tinha esquecido do dia que o Pedro tinha tomado um tiro por minha causa... era um negócio que eu nunca tinha conseguido aceitar ou me perdoar por ter deixado acontecer.

— E tu ia me falar isso ai quando? 

— Quando eu tivesse certeza. — Eu quis xingar ela, a mãe e todo o resto do mundo por não terem em consultado sobre aquela decisão, mas sinceramente? Eu queria muito meu filho de volta. — Tu não tá feliz? 

— Claro que eu tô, caralho. É só que, sei lá, irmão... — Passei a mão no rosto, repensando sobre o que eu ia falar pra ela. — A gente vai dar um jeito. 

— É isso ai, porra. — Larica comemorou, parecendo aliviada pela minha reação. — Agora vou desligar aqui que eu tô dirigindo. Tchau. 

Joguei meu celular na mesinha onde eu tava apoiando o pé e me estiquei na cadeira. Estranhamente, eu tava feliz. Preocupado, mas feliz. Eu ia dar um jeito de proteger o meu filho, os meus filhos... Nem que eu tivesse que botar gente atrás deles 24h, comprar uma casa no meio do nada, enrolar plástico bolha neles e na casa toda. Ninguém ia encostar nas minhas crias, eu ia tomar conta disso pessoalmente. 

— Desde que horas tu tá aí? — Ouvi a voz da Nina e lentamente virei pra ver ela encostada na porta de correr da varanda, só com a camisa branca que eu usava antes no corpo. 

Coração em GuerraHistórias para pegar e não largar. Descubra agora