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Barbás colocou ela no banco de trás e eu entrei em seguida. Ele foi com o Túlio na parte da frente.

Maria Ísis estava resplandecente do meu lado. Ela me chamou com a mão e sussurrou perto do meu ouvido não querendo ser ouvida pelo TK e o Barbás, que conversavam na nossa frente.

— Mamãe... o meu pai tem aquele negócio. — E fez o sinal de uma arma com os dedos.

Franzi o cenho com a constatação dela. É... ele tinha. E não fazia muita questão de esconder. Eu nem parei pra perceber que aquela era a primeira vez que ela via ele com o fuzil nas costas. Ela cresceu vendo armas algumas vezes no sítio, mas geralmente, nunca era eu a desfilar com uma de grosso calibre na frente ela. Maria ia ficar curiosa sobre o que era o pai dela... e eu não sabia bem como eu ia explicar. Comigo, eu tinha todo um trabalho de disfarçar o que eu fazia da vida pra ela, com ele estava tudo muito as claras.

— Ele tem, filha. O nosso amigo, que trouxe a gente aqui, tem também. — Dei de ombros.

— Ele é tipo aqueles tios que ficavam lá na frente do sítio. — Concluiu por si própria. Ela se lembrou dos jagunços que guardavam a porteira do nosso sítio. Eles eram as únicas pessoas portando armas que ela via a distância.

— Quase isso. — Ri, beijando o topo da cabeça dela. Barbás não era bem um jagunço... mas eu não queria contar isso pra ela ainda.

Ela me olhou tão contente que me passou seus sentimentos pelo toque. Fiquei feliz por ela, por eles... Ela deitou no meu colo e eu fui o caminho todo curtindo aquela sensação de conforto que eu sentia naquele momento. Sabia bem que ainda não podia me acomodar, mas pelo menos, ali, eu senti o gostinho da paz.


[...]


— Mãe, mãe, mãe, olha aqui. — Maria me chamou, enquanto eu virava a panqueca de chocolate que ela tava enchendo o meu saco pra fazer na frigideira. Eu já tinha ficado craque em cozinhar aquilo.

Num momento muito improvável do nosso dia, o William dispensou a Lena mais cedo, pra ir passar o resto do dia com a família dela, e quem ficou responsável pelo jantar foi eu e a Maria Ísis. A gente já adorava cozinhar juntas, então, foi puta legal. Como já era esperado, acabou que não saiu jantar nenhum e nós fizemos um monte de besteiras pra comer. Barbás saiu pra comprar chocolate e um monte de outros bagulhos pra gente inventar uma moda. No final a gente fez panqueca de todos os sabores e um fondue de chocolate, com mais uma porrada de combinações de coisas que podíamos colocar junto com ele.

Eu não via a Ísis tão feliz e empolgada em muito tempo. Pra mim foi um fôlego e tanto na rotina merda que eu vinha tendo até ali. Maria era realmente a estrela da minha vida, quando eu achava que queria desistir, ela sempre aparecia como uma luz brilhante que me levantava. Eu só esperava que ela pudesse ser essa estrela pro Barbás também... Ele também precisava de um farol pra sair da escuridão que tinha engolido a vida dele.

Enquanto nós duas estávamos imundas de chocolate, terminando de fazer as coisas pra comer, Barbás estava encostado no balcão próximo, com um copo de Gin na mão e comendo as lascas da barra de meio-amargo que a gente não tinha derretido. Ele tinha um olhar muito sereno no rosto, o que me surpreendeu demais. Nesse tempo que eu tinha estado aqui, ele sempre tinha uma expressão carregada, irritada, chateada com a vida. Alguma coisa nele tinha mudado e agora, eu conseguia perceber perfeitamente. Me peguei observando ele por um tempo longo demais e logo que ele me notou, eu ouvi a Maria me gritar.

— Tá queimando, tá queimando. — Ela bateu a mão no meu braço, falando afoita comigo.

— Calma, calma aí. — Falei, desligando a chama rápido e tirando a frigideira do fogão pra ver o resultado do desastre. Eu tinha queimado pra caralho o negócio, tipo, tava pretasso embaixo. — Cacete, hein?!

— Esqueceu de virar, mamãe. — Falou, descendo do banquinho que eu tinha posto pra ela conseguir ver o que eu tava fazendo.

— Esqueci, filha. — Dei de ombros. — Mas tá bom, essa era a última mesmo.

— Tu nunca levou jeito pra cozinha mesmo. — Barbás falou, com um risinho traiçoeiro brincando nos seus lábios. Ele tava me provocando, rindo de mim... que otário. Junto com ele, a Maria Ísis fez couro, dando uma gargalhadinha da minha pessoa. Aí, aí, viu?!

— Antes tu comia e não reclamava, nem vem. — Olhei raivosa, passando com a frigideira fervendo a centímetros dele numa ameaça velada. Joguei o conteúdo destroçado dela na lixeira. — Otário. — Falei baixo, quase num desabafo desaforado.

— Que foi que tu falou aí? — Perguntou, se inclinando com uma das mãos no ouvido. — Não ouvi direito, repete aí, po. — Me desafiou.

— Nada não. — Estreitei os olhos pra ele, me fazendo de sonsa todinha. Nisso eu era especialista. — Vamos comer, vem.

Ele se mexeu do seu lugar, largando o copo com a bebida dele de canto pra pegar a Maria Ísis e colocar ela sentada em cima da ilha da cozinha, onde estavam todas as coisas que a gente tinha feito pra comer. No seu rosto, o sorriso zombeteiro ainda estava lá pra me atazanar o juízo. Desgraçado.

— Espero que isso aqui não esteja queimado. — Ele provocou de novo, tirando mais uma onda com a minha cara. Ísis ria com ele... um complô contra mim. Fui trocada tão fácil pela minha filha.

— A mamãe já queimou o negócio. — Ela falou pro William, que concordou, pegando uma colher no chocolate derretido pra provar, meio suspeito.

— Queimado vai estar o seu rabo. — Respondi caindo 100% na dele. Sabia que deixar me afetar por aquilo ia ser bem pior que fingir ignorar, mas eu não aguentei com aquela traição da Ísis. — E você, Maria, saiba que eu vou chorar a noite por você me magoar dessa maneira. — Fiz um charminho pra ela.

— Vai ficar xingando na frente dela mesmo? — Ele ia tirando todos os trunfos que ele tinha contra mim pra jogar na minha cara, zombando de mim sem vergonha nenhuma.

— Como se você não fizesse isso. — Acusei.

Coração em GuerraHistórias para pegar e não largar. Descubra agora