— Fala. — Sua voz continuava baixa, tanto quanto a minha. Ele queria me pressionar pra dizer o que ele desejava ouvir, mas não era aquilo o que eu tinha pra falar.
— Não tem motivo, porque eu não fiz nada. Eu te amava... — Falei e ele se afastou como se tivesse tomado um tapa. — A maior verdade é essa, eu amava você... mais do que eu já amei qualquer outra pessoa. — No sentido romântico, ninguém tinha sido como ele na minha vida e isso era o pior de tudo. Tornava tudo confuso na minha mente. — E você sabia disso. Por que porras vocês acha que eu te traí, porra? Se eu era a pessoa mais leal à você que existia...
Ele se afastou e deu uma volta na área externa de trás. Ele podia fingir que não, mas sabia que Barbás gostava de andar pra desestressar, pra aliviar a tensão e pensar. Eu não ia dar paz pra ele, se não tava disposto a fazer o mesmo por mim. Nós dois éramos assim, nosso objetivo era nos enlouquecer mutuamente e perder o controle. Nossas vidas estavam entrelaçadas fortemente ainda hoje, consegui ver naquele momento... nós éramos a nossa própria autodestruição. Eu ia quebrar ele, e ele a mim.
— O que eu fiz pra você duvidar desse jeito de mim? Logo eu que fui a tua mulher, tua companheira, Barbás? — Perguntei, não deixando a minha voz fraquejar. — Eu nunca te dei motivo pra isso... então por quê?
— Por que você foi embora, caralho. — Ele gritou e me encarou com um olha errático. Pisquei, notando a pequena explosão que eu tinha acabado de presenciar. Barbás veio como um predador pra perto de mim, agarrando as barras da porta, onde eu me segurava antes. Me afastei alguns centímetros, sustentando o olhar dele. Eu tinha quebrado a apatia e a máscara de dissimulação dele e agora o que eu tinha, era um homem muito muito magoado, cujo o sentimento de traição tinha endurecido em rancor fervoroso, que o deixava completamente cego e surdo pra mim. Fora de alcance... Eu vi ali. Eu vi a tristeza, o sentimento que ele mais queria esconder de mim. Aquilo tinha o retorcido como uma árvore do deserto e naquele momento, eu finalmente entendi com o que eu tava lidando. Abri a boca pra tentar respirar, sentindo meus pulmões falharem na tarefa de respirar... uma lágrima solitária caiu dos meus olhos e eu me senti culpada por aquilo. Eu não sabia mais se eu conseguiria lidar com aquilo.
— Barbás, eu... — Tentei voltar pra posição onde eu tava antes, mas tudo o que eu via na expressão dele me assustava muito mais do que eu imaginei que fosse possível.
— Tu quer saber quando foi que eu deixei de acreditar que, talvez, tu tivesse só se envolvido numa das merdas do teu pai sem saber? — Perguntou entre dentes, seus pés estavam inquietos, assim como suas mãos. — Foi quando eu saí da cadeia. Por mais de 3 anos, eu me forcei a não perder a esperança de que não fosse tudo como parecia. Eu tinha todas as evidências, mas eu quis reservar em uma parte de mim a crença de que tudo não passava de um engano, apesar de saber que provavelmente eu tava sendo só otário. Eu tava puto contigo lá dentro, mas eu queria sair e ver qual era. Quando eu botei o pé na rua e você tava riscada do mapa, eu entendi muito bem.
— Eu sei que isso é culpa minha e não vai ter um só dia da minha vida que eu não vou me arrepender de não ter me esforçado mais pra te fazer entender antes... — Falei, sentindo o choro embargar minha voz. Ali, aquela era a minha ferida, o meu ponto sensível. — Mas Deus é testemunha do quanto eu quis voltar quando descobri que você tinha saído da cadeia, porque eu sabia que ali eu talvez tivesse uma chance de te explicar as coisas... Eu tava com tudo pronto... mas eu recebi o diagnóstico de câncer da minha filha. Com a Maria tendo um infecção atrás da outra, como eu ia largar minha filha pra trás? Eu não podia... Além disso, eu não podia me arriscar ir e você estar exatamente como você tá hoje, com o coração duro e cego pela sua raiva. Se você me matasse, a Maria ia ficar sozinha, doente, aos 2 anos, completamente desamparada... Eu tenho medo de você, desse teu sentimento ruim, Barbás... Eu tive desde que a informação que chegou pra mim por meses é que você tava com raiva de mim, eu só pude entender que você tinha acreditado em tudo e, porra, eu não te julguei por isso. — Senti toda a minha mágoa com aquela situação também se apoderar da minha voz. Ele tava puto, eu tava triste. Há muito tempo a raiva e a não-aceitação daquela situação tinham se resolvido dentro de mim. — Não por mim, talvez eu até mereça tudo o que você planejou pra mim por ter envolvido você com o canalha do meu pai... mas eu tenho uma filha que depende de mim. O medo e a insegurança que eu senti lá atrás ainda tá aqui, latente.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Coração em Guerra
Romanceㅤㅤ"Sou a morte, o diabo, o capeta, a careta que te assombra quando fecha o olho. Sou seu colete à prova de balas, seu ouvido à prova de falas... Eu vou tomar nosso mundo de volta." Djonga ㅤㅤㅤHá 5 anos ela foi acusada de trair o homem a quem ela amav...
