Sentei em uma das últimas fileiras, me inclinando pra frente e fazer uma prece silenciosa pra que Deus intercedesse por mim. Eu sabia que era um batalha e tanto a que eu tinha pela frente, precisava de forças e, principalmente, de misericórdia do Pai pra conseguir realizar o que tinha vindo fazer naquele lugar. Quando abri os olhos novamente, notei um senhorzinho de batina me encaram com um olhar doce.
— Bom dia, padre. — Murmurei, me levantando. — Desculpa atrapalhar, sei que o senhor deve estar ocupado arrumando tudo... é que eu precisava mesmo.
— As portas da casa de Deus estão sempre abertas pra quem precisa de socorro, filha. — Ele sorriu, se aproximando e fazendo um sinal em forma de cruz na minha testa. Beijei a mão dele.
— Obrigada. — Limpei o canto dos olhos.
— O Senhor está contigo, filha, ele nunca desampara aquele que precisa desesperadamente dele. Não se esqueça disso nunca.
— Não vou. — Concordei com a cabeça, me preparando para ir. Ele murmurou um "a bênção de Deus", ao qual respondi com um "amém" e tomei meu caminho de volta para a rua, onde eu devia seguir o meu rumo. Eu não sabia bem onde ir, nem o que fazer, mas eu tava ali e era o que importava.
Quando atravessei o portão da Igreja, eu notei finalmente que não tinha passado tão despercebida assim... Assim que eu coloquei o pé na rua e olhei pra sempre, eu vi ele. Minhas mãos ainda estavam no muro gradeado da igreja quando meus olhos encontraram os dele novamente. Eu paralisei e minha respiração ficou pesada. Senti vontade de chorar de novo e o meu coração palpitar no peito. Tristeza... muita tristeza, foi tudo o que eu consegui sentir. Procurei no rosto dele alguma coisa que me lembrasse o meu amor, que me dissesse que o meu marido ainda estava ali em algum lugar, mas não havia nada além de uma máscara de frieza cobrindo a sua face. Senti meu coração partir quando não consegui enxergar nada em seus olhos... Onde estava ele? O William de verdade? Talvez muito, muito escondido dentro do Barbás, num lugar que, talvez, eu nunca mais pudesse acessar.
Ficamos minutos nos encarando direto, sem dizer nada. Com intensidade, a gente se estudava, procurando o que tínhamos perdido um no outro. Nos olhamos perplexos com a nossa imagem, sentindo a força descomunal de um reencontro depois de tanto tempo afastados. Porra... Eu achei que fosse explodir de tão forte que o meu coração batia, chegava a conseguir sentir a pulsação ecoando pelo corpo todo. Um monte de sensações me atravessou, eu me arrepiei e desviei os olhos pra evitar me emocionar. Apesar dos apesares, ele ainda continuava muito ele...
Ao lado dele, estava o TK e mais um par de homens que eu não conhecia. Túlio me olhava com uma expressão neutra e ninguém disse nada. Eu fui a primeira a romper o silêncio.
— Bom, aqui tô eu. — Fiz um gesto amplo com as mãos, batendo elas contra as laterais do meu corpo. — Nas suas mãos, você não queria assim?
Ele sorriu de canto, vitorioso. Tinha conseguido exatamente o que desejava, talvez por muito tempo. Sabia o quanto ele podia ser vingativo quando queria, eu nem podia imaginar por quantos anos ele tinha pensado naquele exato momento.
— A gente pode conversar? — Perguntei, reunindo minha coragem e suspirando.
— Túlio, leva ela lá. — Pediu, ajeitando a bandoleira do fuzil, cruzando ele direito nas costas. — Eu tenho coisa pra fazer agora, quando der eu resolvo essa fita ai. — Ele deu um tapinha no ombro daquele eu sabia ser o melhor amigo dele, que veio na minha direção.
— Nós. — Respondeu, parando do meu lado e passando um rádio pra alguém. Eu olhei pra ele de canto, me sentindo muito desconfortável. Eu sinceramente esperava que ele fosse, sei lá, me bater e descontar toda a raiva acumulada em mim... mas não foi bem assim. Ele tava levando aquilo com indiferença, o que pareceu me doer muito mais, mesmo que eu soubesse que as coisas não eram bem como ele demonstrava. A frieza da sua expressão era só uma fachada, quando fossemos discutir realmente, ela ia cair e eu ver o que ele sentia de verdade... aí...
— Tratamento VIP pra madame do Paraguai, valeu? — Debochou, dedicando um último olhar pra mim, antes de chamar os outros seguranças pra seguir ele. Barbás subiu a rua até mais adiante, acendendo um cigarro e subindo em sua moto, arrancando com ela pra longe. Alguns segundos depois, um carro preto parou na minha frente e o Túlio pegou em meu braço, me incentivando a entrar.
Ele não me tratou com agressividade, eu também não resisti e entrei no banco de trás, me encolhendo minimamente no lugar. TK entrou do meu lado e o motorista tocou favela acima. Túlio não falou comigo e eu não me senti bem pra tentar falar com ele também... eu tava com medo dele ter raiva de mim, de me acusar, de gritar comigo e se mostrar puto como o chefe dele tava. Sabia que ele tinha sido o primeiro a achar que eu tinha traído eles, então, eu fiquei quieta na minha, apesar de querer muito conversar com ele. Porra, eu tinha muita consideração por ele... TK tinha sido o primeiro a me dar uma moral quando eu entrei pra boca onde ele trabalhava, o primeiro a me levar em conta e confiar que eu podia fazer um bom trabalho... eu não queria ter decepcionado ele.
O motorista subiu até a Rua 1, parando em frente ao escritório. Dali, eu já sabia bem pra onde eu tava indo. Não, não era subir as escadas pra sala do chefe, era descer pro porão onde ele colocavam quem vacilava e ele ainda não podiam matar, pra quem eles tinham que fazer falar antes de queimar no quadra de cima. Engoli em seco quando entrei naquele ambiente totalmente escuro e meio úmido, era medonho aquele lugar. Eu já tinha estado ali algumas vezes, mas nunca na condição de prisioneira... nunca como a errada, a inimiga, como era agora. Olhei ao redor, me mantendo firme, enquanto Túlio me conduzia escada abaixo. Parei no meio da sala, me sentindo horrível e só me virei quando ouvi a porta de metal de cima bater com força contra o trinco.
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Coração em Guerra
Romanceㅤㅤ"Sou a morte, o diabo, o capeta, a careta que te assombra quando fecha o olho. Sou seu colete à prova de balas, seu ouvido à prova de falas... Eu vou tomar nosso mundo de volta." Djonga ㅤㅤㅤHá 5 anos ela foi acusada de trair o homem a quem ela amav...
