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— Confusão, né?! — Ela ainda parecia meio constrangida. — Mas ele é, tipo, o homem ideal pra mim. Bonito, bem de vida, cabeça aberta, médico... — Ela suspirou. — E eu sou só eu, uma maluca que acabou a faculdade de enfermagem há um tempo e que toda a perspectiva profissional que tem é cuidar de bandido que tomou tiro. Literalmente, eu sou ninguém.

— Ué e qual o problema? Tu tá sendo paga pra isso, né?! — Perguntei.

— É, mas... — Ela apoiou o cotovelo na mesa e descansou seu queixo na mão. — Sei lá, eu queria ser enfermeira de verdade, além do tráfico, além da Rocinha. Trabalhar em hospital, ter um marido que não fosse enrolado até o pescoço pra variar.

— Ah, que ingratidão. Não foi com dinheiro de droga que teu irmão pagou tua faculdade? Agora tu quer pagar de burguesinha? Pelo amor, né?! — Rebati, me irritando com a atitude dela. Eu odiava gente moralista que era financiada com o dinheiro sujo.

— Não, cara. Você não entende. — Ela se remexeu desconfortável, me olhando intensamente com seus olhos de céu noturno, tão intensos que me deu até me deu aperto interno. — Eu não tô falando nada contra o movimento, poxa. Pelo contrário, é por causa dele que hoje eu tenho a oportunidade de viver bem. Eu e meu irmão não tínhamos nada antes de entrar pro tráfico. — Contou num desabafo intimo. — Mas quem escolheu entrar foi ele. Você escolheu também. A Nina, o Barbás... todos vocês escolheram se envolver. Eu não. Eu me sinto na obrigação de ajudar os amigos que são baleados, não tem a ver só com dinheiro, tem gratidão nesse meio também... mas mesmo assim, eu não sei se quero isso pra minha vida pra sempre.

— Sei, sei. — Minha caipirinha chegou bem na hora, junto com o refrigerante que ela pediu pra ela. — Mas isso por quê? Tu quer se desvincular pra caber no molde do doutorzinho? Porra...

— Não é só sobre ele, cacete. Porra, o tráfico me consome. Ele rouba minhas oportunidades, minha personalidade, minhas noites, minhas perspectivas de futuro... Ele me rouba o tempo todo, justamente por eu nunca ter escolhido viver do jeito que vocês vivem e mesmo assim estar no rolo junto com todo mundo. — Ela deu um gole na sua bebida, eu também. — Eu respeito a sua escolha, podia respeitar a minha também, né?!

— E respeito, po. — Dei de ombros. — Mas pra mim você ainda tá fazendo isso agora pra caber na vida que tu idealiza com o macho playboy que a Nina trouxe. É muito baixo pra você... — Falei com sinceridade, me inclinando sobre a mesa pra devolver o olhar compenetrante. Ela ia retrucar, mas eu comecei primeiro. — Você é bonita e inteligente demais pra isso. Você é quem você é, Dalila, essa é sua história, porra. Tu quer passar uma borracha em tudo e ser outra pessoa, isso por si só já é idiota, mas fazer essa bosta pelos motivos errados... é 2x pior. — Neguei com a cabeça. — Você já é demais, não precisa disso.

— Você realmente me acha demais? — Ela sorriu e eu voltei a minha posição. Ela era, sim, demais. Talvez ela não conseguisse enxergar isso, mas era. Eu conhecia Dalila há muitos e muitos anos, ela sempre teve uma auto estima baixa, desde novinha. Eu lembrava do Wallace indo buscar ela na escola, logo no começo, porque ela saia de lá chorando, se achando menos do que era de verdade. Tá que ela tinha passado pela adolescência de um jeito péssimo, demorando pra descobrir a própria noção de vaidade, o que lhe rendeu muita maldade de jovens remelentos desgraçados, mas agora... porra, ela era uma adulta maravilhosa. O corpo de sereia, o rosto lindo, de expressões marcantes, olhos brilhantes e um monte de sardas que era muito, muito delas. Eu não entendia como ela não via a mulher linda que era. Me irritava o jeito que ela pensava sobre si mesma, com tão pouco valor.

— Acho. Você é linda, de verdade. E mais inteligente que quase todo mundo que eu conheço. — Dei de ombros. Ela sorriu de novo. Dalila tinha, definitivamente, um sorriso muito bonito.

Retribui com um gracejo, um sorriso com os lábios fechados. Tudo teria ficado as mil maravilhas, se não fosse por uma mensagem que eu recebi no celular. "Não vou poder ir te dar uma moral ai não, Lala, parece que vai dar merda aqui pra cima." Escreveu o meu brother do Tabajara, que ia descer pra me dar aquela força em forma de carona. Perguntei o que tava havendo lá, já me sentindo meio preocupada. A Ladeira geralmente era bem tranquila, alguma coisa tinha.

Comecei a reparar no vai e vem de motos que tava na rua. Logo ali... naquela rua, que não parecia nem de longe movimentada. Quando chegamos ali, mais cedo, quase não passou carro algum. Algumas passavam fazendo barulho no escapamento. Esquisito. Eu não tinha notado antes, mas alguma coisa não tava dentro da normalidade ali. Do nada, uma agitação parecia se formar bem diante dos nossos olhos.

— Aqui costuma a ser assim? Movimentado? — Perguntei. A Dalila, que também tava focada na conversa e em se explicar pra mim, finalmente olhou pra rua.

— Movimentado? Não, não, aqui quase não passa carro nenhum. — Disse.

— Foi o que eu pensei. — Engoli em seco, pegando o celular pra ligar pra esse contato meu.

— Esquisito. Será que tá tendo algum evento de motoqueiro? Por aqui as vezes tem. — Ela tentou botar uns panos quentes, mas eu notei que ela ficou meio nervosa. Eu não tinha mostrado a mensagem pra ela ainda.

— Tu tá vendo alguém de Harley Davidson? — Perguntei, meio impaciente. — Claro que não é gente daqui. Tu sabe reconhecer, Dalila.

Coração em GuerraHistórias para pegar e não largar. Descubra agora