— Túlio. — A voz grave do Barbás ecoou pelo lugar e a discussão que começava a se acalorar ali cessou. — Fala pra gente exatamente o que que tu ouviu naquela noite.
TK me olhou e fez um final firme com a cabeça pra mim antes de se voltar pro Barbás.
— Foi o que eu já te falei, irmão, e o que eu falei pra todo mundo que tava com a gente na missão. Eu cheguei e ouvi o Mandarim e o Parma mandando a letra pro comandante da PM da Gávea. Ele deu tua localização e a do Russo, falando que já tava tudo no esquema e pá... Eles tava preocupados em tirar a Nina de lá, disseram que ela tinha que fazer um negócio pra não levarem ela pra delegacia, como se tivesse combinado um código deles, tá ligado? Eles falaram sobre ela e foi isso aí. Antes de eu sair, ele já tava dizendo que ia ligar pra ela e passar o esquema deles. — Explicou.
— Depois ele ligou pra Marina, eu tava do lado quando ele contou qual era esse código aí, o que ela seguiu. — Completou o Barbás. — Até porque até onde eu fiquei sabendo tu realmente não passou nem na delegacia. Confirma isso aí, Marina.
— Não passei, eu acordei no hospital porque me deu um branco e eu apaguei. — Respondi, passando as mãos no rosto. — E isso aí prova minha culpa? O Mandarim, na posição de meu pai, ter tirado meu corpo fora do esquema dele prova que eu sabia de alguma coisa?
— Não, mas tu seguiu o comando dele, né não? — Barbás seguiu. Nós nunca tínhamos conversado sobre aquele momento antes e, por mais que agora não fosse a melhor hora pra fazer isso, era exatamente o que tava rolando. Eu e ele botando o momento que fomos pegos em pratos limpos.
— Eu sei lá, eu nem me liguei na hora. Ele veio falando pra eu deitar no chão direto se alguma coisa acontecesse e eu achei aquilo banal demais. Achei que ele só tava preocupado comigo, foi o que eu te disse, né? — Virei pro homem que estivera lá comigo naquela noite. — Eu não entendi isso como um código, porra. É um bagulho que já tá na veia da gente, achei que ele tava dizendo que se rolasse tiro, alguma coisa, que era pra eu abaixar... As coisas só aconteceram. Eu deitei no chão porque eu não queria tomar um tiro, eu já falei um milhão de vezes o motivo. Inclusive, foi ali que eu falei pra você também, né?
— Foi. — Ele concordou, parecendo pensativo até demais.
— Coincidência demais, tá maluco... — Ouvi um dos presentes dizer nas minhas costas. Não virei pra ouvir novamente.
— Tu desconfiou de mim ali. Naquela hora, tu olhou pra mim e perguntou o que eu tinha feito. — Lembrei daquele primeiro olhar de desconfiança. As vezes tinha sido só um negócio de momento, porque ele tava nervoso, mas foi ali onde ele atirou a primeira pedra contra mim.
— O TK me ligou um tempinho antes só da polícia chegar, perguntando se seu pai tinha te ligado. Ele tinha, porra. Ele tinha te passado uma letra. Ele me explicou rapidão o que tinha escutado e tudo se encaixou na minha cabeça. Tu queria que eu tivesse pensado o que naquela hora, porra? Tudo aconteceu certinho demais, tudo apontou pra tu. Eu queria era ter metido bala naqueles caras pra tentar sair, mas eu me segurei por sua causa também. Por sua causa e pela criança. O cara te passa uma letra, tu segue pra se livrar da polícia, tu quer que eu pense o que também? — Ele rebateu, ela primeira vez transparecendo nervosismo. Agora o conflito era entre eu e ele.
— Queria que tu acreditasse em mim quando eu disse que não tinha feito nada, porra.
— E eu ia acreditar, porra. Na primeira visita que tu fizesse quando eu desci pro presídio, eu ia acreditar em qualquer merda que tu me falasse, porque eu te amava, caralho. — Puto. Eu vi ele puto. A compostura dele já tinha ido pro caralho, o que assustou algum dos presentes ali. Até mesmo as pessoas que conheciam ele há tempos não esperavam ver ele exaltado como tava. — Mas tu virou as costas pra mim quando eu caí na grade. Eu precisava da porra de uma visita tua, só isso, pra esclarecer a dúvida que eu tinha. Se tu só não tivesse me largado pra mofar naquela cela sozinho, como qualquer Judas de merda faria, eu teria acreditado em você.
Ele tinha talento pra me quebrar inteira com as palavras. Puta que pariu... Eu perdi o foco por uns segundos, perdi o rumo. A ferocidade que eu tinha anteriormente pra discutir, debater, me defender, se perdeu dentro de mim por uns segundos. Eu queria poder ter estado lá pra ele, Deus sabia o quanto eu queria.
— Você ficou sozinho lá na cela, Barbás. Aqui fora, eu fiquei sozinha com nosso bebê na barriga e sendo caçado pelos nossos antigos aliados. Eu tinha nojo demais do meu pai pra aceitar a proteção dele. Aí sim, se eu tivesse ficado debaixo da asa dele depois de tudo o que ele fez, eu aceitava sim ser chamada de Judas. Se eu tivesse ficado com o Mandarim depois de tudo, aí sim eu teria sido uma traíra de merda. — Falei, com o tom de voz mais baixo do que antes, mas não menos firme. — Sozinha. Grávida. Caçada. Como eu ia te acompanhar pelo sistema prisional. Como eu ia te visitar? Como eu ia conseguir te explicar tudo? Porra, eu posso ter pecado pelo medo sim, pela cautela com a Ísis, mas não foi por falta de vontade, isso eu te falo com toda certeza. — Parei porque as lágrimas ameaçaram embargar minha voz. Passei a mão no rosto rapidamente, escondendo minha fraqueza. — Se tem uma culpa que eu vou carregar pro meu túmulo é de não ter estado contigo no momento que tu mais precisava de mim, quando tu caiu pra tirar cadeia. É de não ter ficado juntando marmita, roupa, qualquer coisa que tu gostasse pra te mandar na cadeia, de não poder ter sido tua guerreira. Eu quis muito, muito... mas como eu ia fazer isso e proteger a Ísis, Barbás? Eu sou uma só, eu não consigo me partir em duas. Se fosse só eu, se a nossa filha não existisse, não teria nada que tivesse me impedido de ficar e me arriscar só pra te explicar a verdade. Nada.
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Coração em Guerra
Romanceㅤㅤ"Sou a morte, o diabo, o capeta, a careta que te assombra quando fecha o olho. Sou seu colete à prova de balas, seu ouvido à prova de falas... Eu vou tomar nosso mundo de volta." Djonga ㅤㅤㅤHá 5 anos ela foi acusada de trair o homem a quem ela amav...
