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Me irritava como ela continuava exatamente igual, como em 5 anos, parecia que nada tinha mudado. Da aparência ao jeito dela de falar, era quase como a ilusão da minha mente, que aparecia pra me torturar durante a noite. Me irritava, tudo nela me irritava, aquelas merdas não estavam bem resolvidas em mim. O que aquela mulher tinha pra me tirar de mim do jeito que ela tirava, eu não sabia... Mas era um bagulho que só ela tinha. O jeito como ela tinha ido embora e levado minha paz com ela era um negócio surreal. Porra, era uma fraqueza minha, eu tinha plena noção disso. Ela era uma fraqueza.

Marina se remexeu, pulando no lugar quando olhou pra frente e me viu sentado na escada, encarando ela com um olhar relaxado no rosto. Certeza que ela se perguntou se aquilo era real ou não, só pelo tempo que ficou me vendo e revendo. Me apoiei nos joelhos, olhando pra ela de volta.

— William? — Chamou, passando a mão nos olhos.

— Barbás. — Corrigi, levantando e dando uma última olhada pra ela, antes de dar as costas e sair da sala.

Fechei no trinco e fiquei um tempo ali, parado em frente a porta, pensando que porras eu tava fazendo da minha vida. Ouvi duas batidas contra o metal e me afastei, imaginando que ela tivesse do outro lado. Eu não queria ficar perto dela, apesar de ter aquele impulso de ir lá e ficar olhando pra cara dela, me alimentando de alguma coisa que simplesmente não existia mais. Engoli em seco, tirando a mão no material frio e voltando pra casa, ainda mais perturbado do que quando tinha saído.


[...]


O calmante tinha dado um jeito de me fazer dormir um mínimo naquela noite. Comi e fui direto fazer as coisas que tinha pra fazer no dia, enquanto esperava da Larissa chegar com minha mercadoria. Era pra ela estar de volta 8h no máximo, mas já era 9 e tanta e nada dela. Quando liguei, ela disse que ainda tava esperando pelo motorista. Eles não costumavam a atrasar, então, eu já fiquei com o pé atrás, mas tentei não esquentar a cabeça. Já tinha tanta coisa pra me estressar, que eu quis relevar aquela. Erro meu, claro. Quando bateu 10h30 e ainda sem sinal das minhas vans, eu peguei meu celular pra cobrar aquela porra do Homero. Que porra é essa, irmão? O povo achava que isso aqui era um circo, só pode... Essa porra desse atraso ia enrolar o resto do dia todo.

— Que que houve, Homero? — Nem respondi ao alô dele. — Cadê a porra da minha droga, irmão?

— Hermanito, a culpa não é minha. — Ele falou, com o sotaque espanhol carregado dele. — Eu tô tentando resolver nossa situação aqui e...

— Que situação? — Perguntei logo, prevendo a merda que tava dando. O caralho da minha carga não tava a caminho?

— Com os Lima e... — Começou a falar.

— Que Lima, porra? Vai direto ao ponto, cadê a porra da minha droga?

— É o que eu estou tentando descobrir aqui também. — Falou do outro lado da linha, com a voz ofegante. Passei a mão no rosto, tentando entender o que eu tinha feito pra merecer uma porra dessas. Respirei fundo, buscando na mente a solução pra um próximo passo.

— Tu não tem mais nada pra me mandar? — Perguntei de uma vez.

— Final de semana é dia do fornecedor vim na cidade com produto. — Começou ele, com o português enrolado pra cacete.

— Eu não tenho como esperar até final de semana, mais a viagem do produto até aqui. — Falei. — Tu tem o compromisso de me entregar a porra da minha droga hoje aqui, se vira, irmão. — Ele ia ter que arranjar alguma solução pra aquela merda, ou eu ia pessoalmente acabar com a vida dele. Ficar sem a carga da próxima semana ia ser uma merda, porque o que eu tinha no estoque ia acabar até lá. Sem a porra da droga, não tem o que traficar.

— Não é assim, amigo. — Ele tentou desconversar.

— É assim sim, porra. Tu arranja problema com os outros ai e quem se fode sou eu?

— Eu arrumo problema? Como assim eu arrumo problema? — Ele questionou. — Eu tô devendo uns favores pra eles sim, mas o problema quem arranjou foi você, ué.

— Eu?! — Até gesticulei sozinho no meu escritório Como assim, porra? Como eu podia ter arrumado um problema lá onde Judas perdeu as botas?

— É, hermanito. Você. É isso o que falaram pra mim, quando eu percebi que meus carros não tavam mais na estrada. — Explicou. — Explicou. — Os desgraçados não me falaram exatamente o que era, mas eles sequestraram só os seus carros. O problema é só contigo...

— É impossível, porra. Eu não tenho picuinha com fornecedor nenhum. — Que comigo o que, porra? Esse filho da puta devia ter cheirado a porra toda pra estar noiado desse jeito.

— Conhece 'La índia'? — Perguntou e eu franzi a testa. Irmão? — Falaram que era cortesia dela e que se quisesse resolver, era pra ligar pra ela.

— Não faço a menor idéia... — Óbvio que passou pela minha mente, mas como? Minha primeira reação foi negar, até porque puta que pariu, né? Depois, eu tive que explorar a possibilidade, mesmo que eu achasse absurda. — Ou se pá eu faça. Pra onde esse pessoal ai entrega? Tu sabe?

— Pra um monte de lugar ai do Rio. — Contou. — Zona... Zona Norte... e...

— Alguma parte da Zona Sul que tu não entregue por causa deles?

— Tem, tem...

— Tá, segura ai que depois eu te ligo. — Desliguei o celular, levantando e descendo reto pro porão. Eu ainda tava meio descrente do que passou pela minha cabeça, mas 2 + 2 ainda é 4. Ela tinha ido pro Paraguai, 'La Índia'... Bico de pato, pena de pato... Porra, eu tinha que começar a pensar que, talvez, eu tivesse me enganado em relação à mulher que tava lá embaixo.

Coração em GuerraHistórias para pegar e não largar. Descubra agora