— Sim, sim, eu ouvi. É o que eu tava falando com a dona Cláudia, a imunidade dela acaba baixando mesmo por causa dos quimioterápicos, mas geralmente crianças em tratamento contra o câncer continuam frequentando a escola, por exemplo, com alguns cuidados, claro. Ela devia passear mesmo, é bom sair um pouco dessa coisa de hospital-casa, casa-hospital. — Falou.
— É pra uma favela, Guilherme. Pra Rocinha. — Claudia cruzou os braços. — Lá é meio complicado as coisas...
— Ela não vai sair com muita frequência de dentro de casa, nem receber muita visita. Só família. — Prometi.
— É... Acho que se deixar ela longe de pessoas que estejam doentes, assim, mesmo que só resfriadas, vai ficar tudo bem. Leva, ela vai gostar. — Ele incentivou. — A Dalila vai junto, né?! Ela vai saber identificar se ela tiver algum sintoma de infecção ou anemia. A Nina também...
— Ótimo! Esse final de semana agora, pode ser? — Perguntei, já me sentindo vencer aquela batalha.
— Não tá muito recente que ela fez os quimioterápicos? — Eu senti a aflição da vó dela. Eu nem podia julgar aquela mulher por ter um monte de restrição à Rocinha, na boa mesmo. A coitada tinha perdido um filho com um tiro no peito lá, bem na frente dela... Eu lembrava de como tinha sido na época. Se fosse eu, ia dar na cara de quem quisesse levar qualquer pessoa da minha família pra um lugar daqueles...
— Faz uns dois dias que ela tomou a segunda dose, não? Até o final da semana, os efeitos colaterais já vão ter passado. — Senti que ele tava dando uma força. Eu gostei daquilo. Dr. bonito, simpático e gente fina. Ia colocar uma notinha no meu celular pra ele.
— Tá tudo bem, dona Cláudia. Ela vai ficar bem, eu trago sua neta de volta na segunda, sã e salva. Quem sabe até a mãe dela também?! — Falei, olhando pra menininha. — Me comprometo com a segurança dela, 100%. — A mulher suspirou.
— Tá, tá bom. Esse final de semana agora? — Perguntou. Combinamos sexta, ela disse que ia arrumar uma mala pra Maria e eu fiquei bem satisfeita. Prometi que ia mandar a Nina ligar pra ela pra confirmar a história toda. A dona até me convidou pra ficar e tomar café, mas eu precisava voltar pra Rocinha. Tinha minhas coisas pra fazer, né?!
Ainda fiquei um pouco mais com a menina. Deixei ela me contar todas as coisas que ela achava legal no desenho que via, era o de uma loirinha que parecia retardada e de um urso??? Enfim, ela gostava e era bonitinho como ela falava com carinho sobre as coisas do desenho. Acabei notando, na fala dela, o quanto a Nina fazia falta. De tempos em tempos, ela falava que tava com saudade da mãe dela e o quanto ela queria ver desenho com ela de novo. Eu até me despedi dela, antes que eu ficasse comovida de verdade pelas coisas que ela dizia. Me deu até vontade de chorar... se a Maria falasse outra vez que sentia falta da mãe, eu ia acabar dopando o Barbás pra deixar a Marina voltar pra ela. Inferno de queda por crianças.
— É, eu tô indo. Um amigo tá vindo me buscar aqui, quer carona, Dalila? — Perguntei, já me levantando, depois de dar um beijo de despedida na bochecha da bonequinha que era a Maria.
— Eu... — Ela olhou no relógio, depois olhou ao redor. — Tá, é melhor eu ir cedo mesmo. — E se despediu da menina, depois da vó da menina. Eu dei um beijo educado no rosto da Cláudia e todos nós três, os visitantes, descemos de novo as escadas que dava pra rua.
— É, meu amigo tá meio atrasado. Bora parar naquele barzinho ali pra tomar um água enquanto isso. — Sugeri, assim que a gente chegou e eu não vi o carro que devia estar ali. Dei uns toques pra esse parceiro, mas ele não me atendeu.
— Tu vem, Gui? — Perguntou a Dalila pro médico, toda doce, toda dengosa.
— É, Gui... — Imitei a voz melosa dela. — Por minha conta.
— Não, não, eu tenho que ir pra casa. Tenho plantão daqui a pouco. Fica pra próxima. — Ele se despediu de nós duas e se foi tão rápido quando veio. Eu coloquei meus óculos escuros e fui andando na frente pra atravessar a rua, olhando as vezes pra trás pra ter certeza que a Dalila tava me seguindo.
— Porra, por que você perguntou se ele era meu namorado? — Reclamou quando a gente entrou no barzinho chique dali. Nos direcionaram pra uma mesa do lado de fora, onde eu podia ver a aproximação desses amigos. — Vacilo teu me constranger daquele jeito.
— Foi mal, querida, é que tu tava tão acesa pro lado dele que eu pensei que fosse mesmo seu namorado. — Brinquei, pedindo uma caipirinha pro garçom. Tava cedo pra beber, né?! Não que isso tivesse me parado alguma vez antes. — Tu não tá dando uns pegas nele ainda?
— Claro que não. — Ela cruzou os braços, emburrando o rosto e olhando pra rua. — Ele gosta da Nina.
— Jura? — Ri, aquilo ela informação nova. — Que dó, duvido que ela dê moral pro coitado. Você gosta dele... ele gosta dela... ela... talvez ainda goste do Barbás. — Lembrei do dia que eu tinha brotado lá na casa dele e a coitada tava doida atrás de uma pílula do dia seguinte. É, não é como se eu tivesse surpresa. Sabia que se botassem os dois juntos de novo, debaixo de uma mesmo teto, eles iam trepar. Era óbvio, o Barbás tinha é caçado chifre em cabeça de cavalo.
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Coração em Guerra
Romanceㅤㅤ"Sou a morte, o diabo, o capeta, a careta que te assombra quando fecha o olho. Sou seu colete à prova de balas, seu ouvido à prova de falas... Eu vou tomar nosso mundo de volta." Djonga ㅤㅤㅤHá 5 anos ela foi acusada de trair o homem a quem ela amav...
