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O tiro levantou uma comoção do caralho. Um tiro na Rua 1 nunca era coisa boa, ainda mais na porta da sala do Barbás. Todos os seguranças, espalhados ao lado da rua vieram correndo, alguns já falando no rápido, perguntando o que tava pegando e até já querendo mobilizar o resto das forças da favela. Os que tavam dentro do escritório, saíram pra fora com o olho arregalado e o fuzil na mão. 

— Gente, pra que isso? A arma só disparou quando eu fui meter o pente. Cruzes, escaldação do caralho. — Me fiz como eu sempre fazia, com um sorrisinho divertido no rosto. — O William tá por aí? — Perguntei, fuxicando as pessoas que vieram descendo e saindo pra fora do portão. 

— O que que você quer, Marina? — Ele deu o sinal de vida depois de uns segundos, parando bem na porta. Seu semblante denunciava seu cansaço. — Eu tô ocupado. 

— Eu sei, mas vai te matar se tu me dar 5 minutos da sua atenção? — Perguntei, não querendo abrir margem pra ele me expulsar dali. — Não vou aceitar um não, motoboy até aqui tá caro pra caralho. 

— Caro como se não é tu que vai pagar? Tu tá botando a porra toda na minha conta que eu já tô ligado. — Ele rebateu, mas fez um sinal com a mão pra me deixarem subir. 

— E a culpa de eu estar quebrada é toda sua, mas eu vou dar um jeito de resolver isso. — Falei, enquanto subia as escadas. — Agora eu queria mesmo era falar contigo. 

— Só falar. — Respondeu com seu jeito apático, entrando atrás de mim na sua sala. 

— Fecha a porta, né? — Pedi, vendo como ele tinha parado bem no meio dela. 

— Olha, Nina... — Ele hesitou e passou a mão no rosto. Uns segundos depois, ele se virou pra fechar a porta, muito a contragosto. — ... eu preciso de um tempo, tá ligado? Quero ficar... — Ele começou a falar e eu corri pra abraçar ele por trás, no puro impulso. Passei meus braços pelo seu abdômen, apertando ele contra mim. — ... sozinho. — Ele completou a frase com a voz em um mero sussurro. 

— Eu sei e eu não tô afim de deixar. Você sumiu o dia todo, teve tempo pra porra pra ficar sozinho. — Argumentei contra ele.

— Sou eu quem sei de quanto tempo eu preciso sozinho. — Ele rebateu como o cavalo que era. 

— Não sabe não, você só tá... — Eu ia dizer fugindo, mas eu sabia que ele ia ficar puto com a verdade sendo jogada bem na cara dele. Era um momento delicado, eu tinha que ir com jeitinho se eu não quisesse que ele me rejeitasse de um jeito dolorido pra mim. 

— Eu tô o quê? — Ele se desvencilhou dos meus braços e se afastou uns metros pra se encostar na sua mesa, parando com os braços cruzados. Will me desafiou a dizer as coisas que ficaram no subentendido. Aí sim, ele ia ter motivos pra surtar a brigar comigo. Era exatamente o que ele queria... — Anda, fala. 

— Tu tá esquisito, todo passivo-agressivo. — Disse. 

— Você tá invadindo a porra do meu espaço. 

— Eu... — Mais uma vez, eu precisei pensar duas vezes antes de falar. Aquilo era difícil pra mim, porque eu era uma mulher de impulsos. — Eu amo você, William. 

— Quê? — Will não tava esperando por aquilo, porque foi como se eu tivesse socado a cara dele. Sem palavras, ele me olhou com a testa franzida. 

— Eu disse que amo você. — Repeti, me aproximando um passo só. — E eu entendo como tu tá se sentindo. Não vou te julgar por isso, nem ficar bolada. Você vai fazer o seu sacrifício e... lidar com essa dúvida que tá espetando você por dentro faz parte do meu sacrifício. Tu não tem certeza sobre colocar a sua vida nas minhas mãos e, por mais que isso me doa também, eu tenho que entender você. — Engasguei, sentindo minha garganta ficar seca. — Na verdade, eu... a gente... a gente precisava de tempo pra curar as feridas que nós finalmente conseguimos fechar. Esse tempo... a gente não teve o luxo de ter ele.

Ele não disse nada e, em determinado momento, parou de me encarar. Seus olhos estavam na janela, olhando o lado de fora da favela. Um ponto escuro cheio de luzes que brilhavam como estrelas no céu noturno.

— Mas eu queria que você soubesse que eu te amo. Eu sei que eu já disse isso, mas eu quero falar de novo pra ver se entra nessa sua cabeça dura. Eu te amo. — Disse, sabendo que aquela era a verdade absoluta. — Não precisa confiar em mim, ainda não... mas não duvida do meu amor. 

Fiquei um tempo encarando ele, até me aproximei mais um pouco e estiquei a mão, querendo tocá-lo. Ele parecia tão... fragilizado por trás daquela fachada carrancuda que ele tinha. Tão cansado... Eu queria tanto poder fazer o seu coração descansar. Minha mão ficou no ar, por muitos segundo, sem que eu tivesse coragem de realmente seguir em frente e sentir o seu rosto nos meus dedos. 

— Eu tô indo pra casa. — Sussurrei, deixando meu braço cair e pender na lateral do meu corpo. — Vou ficar te esperando se uma hora você cansar de ficar sozinho... tá? 

Ele não me respondeu, seus olhos firmemente fechados e os punhos tensionados. Conflito. 

Me virei pra ir embora e William se moveu pra agarrar meu pulso, sem sair do lugar. Ele delicadamente virou minha mão e trouxe ela até a boca, beijando a palma. Depois, me deixou e se moveu para a sua cadeira. Aquele contato, tão pequeno, não foi o suficiente pra tranquilizar a inquietação que crescia dentro de mim. Suspirei, saindo daquela sala a passos largos. Do nada ela pareceu encolher, ficar meio claustrofóbica.

Passei pelos seguranças do Barbás e fiz um sinal de agradecimento pra ele. Desci a rua, sentindo um negócio me consumir por dentro. Segurei as lágrimas, eu precisava ser forte como uma rocha, com certeza firme como uma... pela Ísis... e pelo Barbás. 

Coração em GuerraHistórias para pegar e não largar. Descubra agora