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[NINA]


2 dias tinham se passado desde o rolê da Rocinha e tudo estava 'ok' como de costume. Guilherme tinha resolvido vir mesmo pro Rio e ia acompanhar de perto o tratamento da Maria, ela mesmo parecia super bem. Já tava espivitada como sempre, ela quase não sentia os efeitos da rádio, por isso, a gente sempre preferia optar por aquela área. Minha casa no alto do morro tava quase ficando pronta e eu ia poder me mudar logo, enquanto isso, eu ia mantendo o apartamento de Copacabana, só por caso dali não ter as condições de higiene que eu ia precisar que tivesse quando entrássemos na quimio da Maria. Ontem eu tinha conversado com os médicos que estavam a frente do caso dele, depois da avaliação geral, e eles já tinham determinado quais os remédios que ela iria fazer uso, todos em dose baixa, o que significava que os efeitos colaterais seriam mínimo. Além disso, o tônico e a touca de nitrogênio iam rolar, o que significava que ela ia conseguir manter a maior parte do cabelo. Essa foi a parte fundamental, porque a Maria simplesmente me perturbava por medo de ficar careca. Ela era muito apegada aos fios, adorava os penteados que a gente fazia desde pequena, eu tinha medo dela não aceitar bem se chegasse o momento que a gente tivesse que cortar. Felizmente, agora, isso era um medo distante. Eu já tinha sido alertada que seu cabelo ia ficar um pouco mais ralo e que, talvez, fosse o caso de deixá-los mais curto, mas ainda sim, era provável que ela seria capaz de mantê-los.

Isso era a notícia boa que eu tinha na minha vida. Tinha as ruins também... Larissa puta da cara, me tirou da Rocinha de boa depois do que rolou, mas sem falar comigo. Claro, a culpa era minha. Eu simplesmente não consegui conter a raiva quando descobri, por acaso, o motivo de todos aqueles olhares e o mistério da minha mãe por causa do Andrei. Ele tinha voltado pra Rocinha e ido ser soldado do Barbás... Fácil assim. Dona Cláudia acabou me confirmando o que eu já sabia. Ela desconfiava que ele queria notícia e informação minha do meu irmão, ele nunca realmente dito com todas as palavras, mas a verdade é que ele sondava os pormenores sobre mim, enquanto eu tava no Paraguai.

Eu fiquei muito puta e, porra, eu tava muito na minha razão. Eu já tinha feito de tudo por aquele moleque, agora ele tava grande e queria ir em frente sem mim? Beleza, po, mas pisar em cima de mim, desconsiderando o fato de que as coisas que ele dizia podiam simplesmente me matar? Logo eu que era a irmã dele, porra? Ele se importava tão pouco assim com a minha vida? Isso me decepcionava muito, eu me sentia horrível em saber das coisas que ele fazia pelas minhas costas. Porra, eu até entendia ele, talvez, se tivesse na posição que o Andrei tava, eu ia querer voltar pro lugar onde eu cresci também, mas caralho... Por que comigo?

Eu tinha medo das coisas que ele podia ter falado pro Barbás... Até onde ele tinha ido? Só Deus podia dizer, hoje eu já não sabia mais.

Mesmo assim, eu tentei esquecer aquilo pelo menos um pouco, só pra eu não ficar maluca. Acabei brigando com a minha mãe e o Luan por não terem me contado, mas depois o assunto sumiu. Eu comecei a me blindar e a tomar mais precauções pra não acabar caindo em erro e sendo pega antes da hora. Eu achei que fosse ficar tudo bem... achei mesmo. Quando o terceiro dia amanheceu era assim que as coisas estavam. Bem.

— Acenda a luz na escuridão. — Cantei com a Maria, para o DVD que tava passando na TV.

— Deixa a sua luz brilhar... — Ela completou, rindo e pulando no meu colo.

— Não esconda não, deixa iluminar. — Rodei com ela, que se debateu querendo ir pro chão. Maria tava começando a ficar pesada pra mim, já passava dos 10kg... tava brabo ficar levando no colo. Ela tava crescendo tão rápido. — Jesus é a luz que está em seu coração.

— Mamãe, mamãe. — Maria começou a correr pela sala, voltando pro amontoado de brinquedos na frente da TV. — Vamo dançar, mãe.

Eu sorri, correndo no meu quarto pra pegar o globo colorido, tipo de balada, que eu tinha comprado semana passada pra gente brincar. Era assim, a gente era assim... Maria Ísis era uma artista, adorava cantar, dançar e fazer bagunça, especialista em me deixar maluca, e eu era a maior fã que ela tinha. Aquela era uma fase tão preciosa das nossas vidas, tão valiosa... Era lindo ver ela crescer, era incrível acompanhar cada passinho que ela dava, cada pequena evolução... Ela era uma guerreirinha de primeira, eu lutaria contra o mundo todo por causa dela. Ser mãe mudou minha percepção de mundo, mudou a pessoa quem eu era profundamente. Maria Ísis me ensinou a valorizar a vida e os pequenos prazeres, que moravam em sorrisos sinceros e carinhos singelos. Ela me trouxe a maturidade, me trouxe a felicidade, me mostrou o lado bom da vida como poucas pessoas fizeram antes... ela me trouxe paz e amor pro meu coração.

Abracei minha pequenininha por trás, virando ela nos meus ombros como se fosse uma boneca. Tava na hora dela ir se arrumar, porque o compromisso dela no hospital não podia esperar. Dei um banho nela e a vesti, esperando minha mãe chegar pra levar ela lá. A pessoa que veio junto com ela, por outro lado, me deixou de cabelo em pé. Levantei do sofá na mesma hora, colocando a mão na arma no susto. Eu vi que, com a minha velha, tinha um monte de segurança atrás dela, que não entraram na minha casa por respeito. Do seu lado, Andrei.

— O que tu tá fazendo? — Cruzei os braços no peito, estreitando os olhos pra ele. Por causa do meu tom, Maria Ísis agarrou minhas pernas e veio discretamente pra trás de mim.

— A gente precisa conversar. Muito... Não me manda embora, pelo amor de Deus. — Eu senti o nervoso na voz dele, que tinha uma rouquidão que não era típica dele.

Coração em GuerraHistórias para pegar e não largar. Descubra agora