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Fui o caminho todo calada, olhando pros barracos que se elevavam conforme nós subíamos pela rua principal. A favela dormia, mas em cada esquina, em cada ponto estratégico, havia alguém com olhos muito atentos. Pelo ar, dava pra sentir uma tensão muda que vinha do medo do segundo seguinte. Nessa vida, a gente logo aprendia que as coisas mudavam em um piscar de olhos... em um momento tu tava de pé, segurando sua arma, e depois tu tava no chão. Tu podia nem ver a bala que ia te fazer passar dessa pra próximo e era isso o que tirava o sono até dos mais valentes.

— É aqui, tia. — Falou o jovem moto-táxi que tinha me levado até o local dito pelo Rogier. 

— Valeu, colega. — Desembarquei da moto, dando uma olhada pra casa simples onde meu tio tava. — Pode cobrar essa corrida na conta da boca, valeu? Depois eu acerto contigo. 

Vi que ele ficou meio mexido, mas não contestou. Bufei, notando como minha moral ali no Rio Comprido tava indo de mal a pior... mas também, eu não podia esperar nada diferente. Eu tinha ficado ali, o que? 1 mês no comando? Eu não tinha nem chegado perto de merecer o respeito dele. Ia ser um longo, longo trabalho que eu teria pela frente com as minhas favelas. 

— Nina! — Ouvi a voz do meu tio e o tilintar da arma de seus muitos seguranças, enquanto eles desciam as escadas para me receberem na rua. 

— Velho Ro... — Quase me joguei nos braços do Rogier. Depois de tudo, ele seguia sendo o meu braço invisível. — Tio. 

— Tô feliz de te ver bem. — Ele levou suas duas mãos ao meu rosto por um momento. — E viva. Porra, teve uma hora que eu duvidei que tu ia sair dessa, Marina. Essa vida é foda, tu não pode andar um centímetro por lado que... 

— Eu sei. — Suspirei, apertando as mãos dele com as minhas. — Joguei com a sorte... 

— Com o amor do teu ex-marido, tu diz. É isso o que tu chama de sorte? — Rebateu com aquele olhar perspicaz que ele sempre tinha. Entramos pela beco escuro que levava até as escadas, que subiam para uma casa no 2° andar. Ele estava se escondendo, eu percebi. Com certeza tinha gente querendo matar a ele... e a mim, na surdina. Era bom se misturar a multidão, viver como todos os outros, passar despercebido. 

— Sorte que ele ainda me amava. Eu e ele passamos tempo demais mastigando enganos. É um milagre nosso amor ter sobrevivido a tudo isso. — Confessei pro Rogier que me negou com a cabeça em reprovação. Ele era um velho cansado e descrente,  eu não podia culpar ele por achar aquilo uma loucura. Até eu achava, as vezes. 

— Amor, amor, Nina... — Chegamos na casa dele, que se adiantou pra acender a luz e sentar no sofá, puxando um cigarro. Bom, ele tinha voltado a fumar. — Tu não veio falar de amor. Há essa hora da madrugada? Não. 

— Eu tenho pouco tempo aqui, quero voltar antes do amanhecer por aqueles motivos lá que eu já te falei. — Evitei citar o nome do Barbás. Pra todos os efeitos, ali ele ainda era um inimigo. — Vim buscar informação. Quantas armas a gente tem disponível hoje aqui? Tu já levantou isso?

— Levantei. — Ele apontou para um dos homens dele e fez um sinal. Ele voltou com um caderninho, que ele estendeu pra mim. — Isso aí tá aproximado, não dá pra ter 100% atualizado porque todo dia a gente ganha e perde arma lá na linha de frente... mas é mais ou menos isso ai. A gente tem uns 70 bico no todo, 80 com os novos, mais com os que tá pra chegar, dá pra chegar a bem mais de 100, já contando com umas perdas no caminho. 

— Dá pra bater uns 110. — Comentei, fazendo uns cálculos mentalmente. — Falta é homem bom de tiro pra segurar. E estratégia. Não desmerecendo os meninos daqui, tem gente boa pra caralho aqui, mas o bagulho é: os que já tão acostumados a pegar em arma longa não são tantos nas favelas que tão firmes com a gente. É rajada dar um bagulho de vinte mil conto na mão de menino novo, Ro. — Passei a mão nos olhos. — Não tem tempo pra treinar ninguém e eu não quero usar os moleques daqui a favela de ponta de lança. 

— Tu quer fazer o que então, Índia? — Perguntou. — Ter arma e não ter gente adianta de que? Só o fuzil não faz mágica sozinho.

— Eu quero empurrar o Pirraça pra fora desse complexo. Quero empurrar ele até os homens dele saírem do Prazeres lá do outro lado. A gente tem que fazer ele correr pra Mineira, pro São Carlos. Tem que consolidar a base aqui. Sem base forte a gente tá na corda bamba. — Falei, estalando os dedos da mão. — A gente tem arma, eu posso arrumar mais alguns amigos que são bons... vão ter que ser poucos, porque por ora tem que ser na encolha, mas que vão fazer diferença. — Olhei pra ele, sabendo que ele entenderia o que eu queria dizer. Eu tinha meus amigos da Rocinha, que, por mais estranho que fossem à galera daqui, ainda eram um reforço bem pedido em tempos de guerra. — Falta um plano. 

— Lá vem você... — Ele riu. No fundo da sua carranca, eu vi seus olhos brilharem. Era isso o que ele admirava em mim, a ousadia, a coragem... as ideais. 

— Preciso de inteligência. Como eu te disse, eu vim buscar informação. Quero tudo o que tu souber sobre o Pirraça, eu tenho que pensar em alguma coisa. 

Coração em GuerraOnde histórias criam vida. Descubra agora