— É... — Ele concordou e eu não sei bem com o que. Seu rosto endureceu e ele travou o maxilar, depois os punhos. Ficou tenso, os músculos rígidos. Seu olhar, entretanto, se manteve no meu.
— Como a gente tava na merda naquela época, né?! — Comentei, pressionando um lábio contra o olhos e levando as duas mãos em punhos ao rosto. Achei que meu peito fosse explodir de tão pesado que ele ficou. Solucei, não conseguindo controlar o choro. Eu queria me esconder, entrar dentro daquela cama e me fechar lá dentro.
— Na merda a gente tá agora, Marina. Naquela época, se eu tivesse morrido, eu teria ido feliz. — Falou, perdendo a firmeza no final da frase. Ele desviou os olhos de mim pra parede, bufando e apertando ainda mais a mandíbula. Achei que seus dentes iam quebrar de tanta força que ele fazia. Estava buscando por controle...
Concordei com a cabeça, sabendo que aquela era o primeiro motivo pelo qual a gente tinha escolhido casar. Com uma possível morte eminente, nós repensamos todos os medos que nos tinham impedido de ser marido e mulher até aquele momento. Se fôssemos, iríamos juntos, depois de eternizar aos olhos do Senhor o nosso compromisso. Como esposos, como amigos, irmãos, almas gêmeas, juntos no sentido estrito da palavra. Não só de corpo, também num nível espiritual. Foi de uma hora pra outra, repentino... o casamento mais surpreendente que essa favela já tinha ouvido falar.
"Aí, foi a vez dele pegar a minha mão entre as suas. Com o polegar, ele suavemente acariciou a minha pele.
— Eu, William, aceito você, Marina, como minha legítima esposa, pra amar e respeitar, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, por todos os dias da minha vida, enquanto nós dois vivamos pra amar e até que a morte nos separe. Sobre os olhos de Deus, que é nosso testemunha, e sobre a sua santa vontade, eu te comprometo. — Ele disse num tom baixo, recheado de ternura, em nuances que pra mim era novas dele. A suavidade com a que ele colocou o anel da mãe dele, e que agora era a nossa aliança, no meu dedo me arrancou muitos suspiros emocionados. Caralho!
— Eu nos declaro marido e mulher. — Sussurrei, segurando as nossas mãos juntas. O brilho metálico reluziu entre nós, lembrando o laço sagrado que fazia de nós dois um só dali em diante. — E o noivo pode beijar a noiva. — Ri, envolvendo seus ombros meus meus braços.
Nos beijamos apaixonadamente, profundamente, eternamente."
— Eu sei. — Sussurrei. — Agora eu acho que talvez fosse melhor ter morrido naquela noite. A gente ia ser lembrado por um amor maior que o mundo, e não iríamos ter chegado até aqui desse jeito... Eu teria morrido sua mulher, você o meu marido. Felizes. — Era um pensamento ingrato, eu sabia. Se tivéssemos mesmo morrido, o meu grande tesouro não estaria comigo. Claro que eu me arrependi depois de dizer, mas a verdade é que às vezes eu me pegava me perguntando como teria sido o nosso final se as coisas tivessem sido diferentes pra nós. — Mas eu não posso me arrepender. — Comecei, engolindo em seco, sentindo mais uma lágrima cruzar o meu rosto molhado. — Maria é a melhor parte de mim... talvez de você também, junto com o Pedro.
Ele deu ombros, porque entendeu exatamente o que eu quis dizer com aquilo. Era uma confissão do fundo da minha alma, a mais sincera que eu podia fazer para alguém. Ele me encarava com a expressão tão balançada quanto a minha. Depois de um momento, eu não consegui mais sustentar o seu olhar e deixei meu rosto pender pra baixo, levando uma das mãos aos olhos e sentindo toda a face do rosto arder pra caralho. Meu rosto devia estar ficando vermelho, porque estava quente, do choro. Amanhã eu ia querer me degolar por estar chorando na frente dele.
Barbás se aproximou, colocando a mão direito debaixo do meu queixo e puxando meu rosto pra cima. Eu perdi o fôlego. O seu polegar apertou minha bochecha, afastando a lágrima que insistia em correr com pouca delicadeza, como era do jeito dele.
— Você é linda. — Disse com a voz rouca. Ele chegou tão perto pra dizer que por um momento eu achei realmente que ele estava a me contar o mais sujo dos seus segredos. — Tu é a mesma coisa que era 5 anos atrás e isso em deixa doido. Faz parecer que o tempo não passou, confunde minha cabeça.
— Mas passou. — Falei por cima dele, subindo o olhar para cruzar com as íris escuras dele.
— Passou pra caralho. — Disse, passando o polegar de leve pela minha pele. — Aqui, agora, nessa hora, nesse lugar, eu quero acreditar em você.
— O que te impede? — Minha pergunta foi verdadeira. Eu já tinha dito a ele todos os meus motivos, agora eu queria... eu precisava entender os dele. Eu queria os motivos pelo qual ele, mesmo no benefício da dúvida, que era o auge de sua confiança em mim nos últimos dias, ainda me olhava como o maior judas que já tinha pisado nessa favela. Eu queria entender a desconfiança por trás dos seus olhos.
A verdade eu sabia, mas eu queria ouvir dele.
— O tempo. — Disse simplesmente, passando a ponta do seu dedo pelo meu lábio inferior. — Passei tempo pra caralho com a sua traição na minha cabeça, essa é a minha verdade. Mesmo se você me provar, se pá eu não acredite... — Disse com muita sinceridade e, por mais que me machucasse, eu agradeci por ter a possibilidade de ver o problema inteiro, na sua totalidade. — A real é que eu não tô preparado pra entender a ideia de que você foi inocente. Eu não sei como colocar isso na minha cabeça, nem se eu quisesse.
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Coração em Guerra
Romanceㅤㅤ"Sou a morte, o diabo, o capeta, a careta que te assombra quando fecha o olho. Sou seu colete à prova de balas, seu ouvido à prova de falas... Eu vou tomar nosso mundo de volta." Djonga ㅤㅤㅤHá 5 anos ela foi acusada de trair o homem a quem ela amav...
