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Aquela que eu tinha entre os meus dedos era a aliança masculina do par que eu sabia existir, comecei a caçar a feminina afoitamente. Com a mão livre, eu joguei as coisas que estavam espalhadas no chão de uma canto pra outro, sem qualquer cuidado, pra achar, alguns segundos depois, o anelzinho fino, com uma pedrinha lascada de vidro no topo superior. O meu anel, a minha eterna aliança. Se fossem gente, os diamantes que brilhavam no meu dedo anelar da mão esquerda morreriam de inveja daquela bijuteria barata.

Coloquei as duas lado a lado, observando como o tempo tinha feito elas esmorecerem. Também, pudera, foram esquecidas por tanto tempo... Mas apesar dos apesares, elas ainda estavam ali. Manchadas, frágeis, sem todo o esplendor que um dia já tiveram, mas perduraram até aquele presente momento. Fortes. Ninguém dava nada por elas, mas estavam ali, tinham resistido à destruição que o tempo causava. Não ilesas, cheias de cicatrizes e falhas, mas ainda sim, estavam inteiras... Juntas, em um par, coisa que nem mesmo os brilhantes conseguiram fazer.

Assim era o meu sentimento, como aqueles pequeninos objetos.

Aquelas malditas emoções e aquela paixão arrebatadora era como as alianças do nosso casamento. Naquele momento eu entendi o que se passava dentro de mim de verdade, elas me ajudaram a afastar a nuvem nebulosa que tinha se apoderado da minha mente e do meu coração. O amor que eu sentia por ele tinha sido esquecido numa caixa velha, onde o tempo o lapidou tanto quanto pôde. Agora, eu tinha jogado a caixa no chão e ele tinha rolado para os meus pés, onde eu, com toda a surpresa do mundo, descobri que ele ainda existia e vivia dentro de mim. Que nem o tempo tinha sido capaz de torná-lo pó... E agora, eu o tinha nas mãos, todo fragmentado, machucado, ferido, mas vivo. Forte.

A constatação me deixou arrasada. Antes de joelhos, eu caí sentada com os anéis da palma das minhas mãos. Meu coração acelerou no peito e eu me xinguei internamente de mil nomes. Eu não era o tipo de pessoa que entrava em negação e me recusava a aceitar as verdades sobre mim. Eu não gostava de me enganar... mas aquilo, cacete, era muito difícil de engolir em seco. Senti alguma coisa martelar fundo dentro de mim e cheguei a ficar enjoada. Senti algumas lágrimas se acumularem e vazarem pelas minhas pálpebras, deixando a área ao redor dos meus olhos molhada. Passei a mão livre neles com força, querendo me livrar das provas do meu crime. Não que eu tivesse escapado do olhar de falcão do William...

— Então achou. — Concluiu com a voz mais cansada que a minha. Ouvi o baque surdo que fez a caixa do colar ao se fechar.

— Você... — Comecei, com a voz ameaçando falhar. Soou tão baixa que até mesmo eu tive dificuldade de entender o que eu tinha dito. — ...lembra?

— Se eu lembro? — Perguntou. Eu me levantei com muita dificuldade, finalmente olhando nos seus olhos. A testa franzida e as sobrancelhas erguidas deixavam transparecer uma melancolia parecida com a minha. Seus olhos castanhos ainda eram os mesmo, as alianças ainda eram as mesmas, mas eu não sabia se ele ainda era o mesmo daquela noite por dentro...


"Peguei a mão esquerda dele entre a minha, mantendo ela entre as minhas duas. Percebi que eu tremia um pouco, talvez pela emoção e antecipação do momento, o que fazia os meus dedos e lábios ficarem um pouco trêmulos.

— Eu, Marina, aceito você, William, como meu legítimo esposo, pra amar e respeitar, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, por todos os dias da minha vida, enquanto nós dois vivamos pra amar. E até que a morte nos separe. Sobre os olhos de Deus, que é nosso testemunha e confidente, e sobre a sua santa vontade, eu te comprometo. — Disse num tom de voz firme, por mais que eu vacilasse algumas vezes por causa do choro, que me embargava a voz. Peguei o anel que ele tinha separado pra si e deslizei muito vagarosamente pelo seu dedo anelar esquerdo. Eu tava tremendo tanto que demorei pra acertar o buraco e ele riu de mim. Cachorro!"



O dia que eu coloquei aquele anel no dedo dele veio ardente dentro da minha mente e do meu peito. Fez todas as lágrimas que eu segurava escorrerem pelo meu rosto livremente, sem que eu pudesse impedir ou disfarçar. Olhando em seus olhos, eu vi tudo, eu lembrei de tudo, eu revi todos aqueles momentos.

— Lembro. — Sua voz foi rouca e igualmente baixa à minha, como se estivéssemos contando um segredo. — Mas eu quis esquecer.

— Eu também... quis esquecer. — Confessei. Me enterrar no Paraguai também foi um tentativa de apagamento daqueles momentos na minha vida. Como eu tinha conseguido falhar tão miseravelmente? Ali eu vi como eu tinha me enganado a respeito de mim. Caralho, porra, como eu tinha a ousadia de achar que era dona dos meus sentimentos? — Mas... — Desviei o olhar pras alianças, sem saber como prosseguir.

Coração em GuerraHistórias para pegar e não largar. Descubra agora