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— William! — Chamei em um bom tom, fazendo ele parar. — Espera.

— Eu já te falei...

— Barbás. — Corrigi antes que ele repetisse aquela merda e eu me sentisse muito infeliz por ter perdido o direito de chamar ele pelo nome de batismo. — Eu... — Gaguejei e pedi um tempo pra ele com a mão, me levantando do chão pra tentar resgatar um mínimo de compostura. — Eu... sou mãe de uma menininha de 4 anos. O nome dela é Maria Ísis e ela... ela parece muito comigo... mas nos traços do rosto, ela me lembra o Pedro.

Ele piscou, cruzando os braços, me olhando no fundo dos olhos. Era um olhar tão, tão intenso que me fez perder o rumo de primeira.

— E... bom, ela nasceu no início de Janeiro e... — Comecei de um jeito meio torto e ele me cortou.

— Do início, Marina. — Seu tom saiu baixo e rouco. — Tu foi embora daqui grávida? Ninguém sabia? Começa daí... — um '... e tenta me convencer' ficou implícito.

— Fui. Não só fui embora grávida dela, como esse foi o motivo por eu ter ido em primeiro lugar. Eu fui embora porque tava grávida. — Quando os fatos a cerca do que tinha acontecido há tantos anos saíram da minha boca, foi com uma estranha firmeza que eu nem sabia que ainda existia em mim naquele momento. Era o poder da verdade.

Vi a descrença estampar o seu rosto, o que ele rapidamente suprimiu na sua máscara de apatia.

— Se eu me lembro bem, eu te perguntei... — Ele tava falando sobre uma conversa que a gente teve no carro um tempo antes de tudo ter acontecido. Ali eu já estava grávida, mas não tinha tido nenhum motivo pra desconfiar até então... mas eu quase sentia a Maria crescendo no meu ventre, o que me fez ter uma inexplicável atração pela ala obstétrica de um hospital. Aí que tá... se tinha sido inexplicável até pra mim, como eu ia explicar pra ele? Todas as evidências apontavam contra mim, como se eu tivesse mentido e ocultado aquilo.

— Eu não sabia na época. Não era nem uma desconfiança que eu levei a frente. — Me justifiquei. — Quando eu descobri eu tava com o Russo e a Dalila, na madrugada anterior à noite que a gente matou o M7 e eu não tinha te visto o dia inteiro. Eu tava planejando contar quando a gente voltasse pra casa vitorioso, tendo esmagado a última barata que tinha ficado no nosso caminho. — Meus dedos apertaram a barra de ferro da estrutura da porta com força, sentindo a raiva das recordações voltarem ao meu coração. — Ia ser um momento nosso, eu tinha idealizado tudo na minha cabeça. Eu tinha deixado comprado um champagne super caro que ia ser a minha saideira, eu ia dizer que tinha tomado ali minha última garrafa de álcool pelo próximo ano e que sentia muito que você não tinha intenção de ter outro filho... que nós íamos ter um mesmo assim. — Tão rapidamente quanto veio, a raiva se foi e deu lugar à um sentimento saudosista, quente e confortável, que se transformou lentamente em tristeza e decepção. — Como você deve ter notado, nada saiu como eu planejava.

Sabia que aquele era o ponto mais sensível, o divisor de águas. Limpei minha garganta e as lágrimas, olhando pra ele com toda a franqueza do meu coração. Sabia que era ali onde tudo começava a ficar embaralhado na cabeça ali, nas minhas intenções. Como eu já imaginava, eu não vi nada nos seus olhos e eu tive certeza de que ele duvidou profundamente de tudo o que eu dizia, mas não rebateu e nem falou nada.

— Tá tudo bem se você não acreditar, mas o fato é que nessa situação, o que eu ia ganhar contra você? Nada. Por que eu ia destruir a nossa família logo quando a gente ia ter um filho? Porra, Barbás. — Subi um tom na minha voz. — Nunca foi fácil pra mim ser mãe solteira. A Maria é esperta, nunca foi fácil explicar pra ela porque os outros coleguinhas tinham pai e ela não. Esse não era o destino que eu queria pra nenhum de nós. A sua ausência machuca ela, por se sentir diferente dos outros; machuca a mim, por ter sempre a sensação de que a porra da minha família foi arrancada de mim antes mesmo de ter começado... e você... eu não sei como isso te machuca, mas eu sei que acontece. Você pode mentir pra mim, mas não pra si mesmo.

— Tu tem razão, eu não vejo motivo, mas algum têm e só você sabe, Marina. — Disse, no mesmo tom de antes. — Então tira essa dúvida pra mim. — Ele se aproximou de mim e se apoiou pelo antebraço na parede adjacente à porta.

— Não tem nenhum, porque eu não fiz parte de plano nenhum. — A verdade é que a proximidade dele me intimidou e a minha voz saiu um sussurro.

— Me fala. — Insistiu.

— Eu não fiz nada, não tem motivo nenhum.

Coração em GuerraHistórias para pegar e não largar. Descubra agora