A gente se entreolhou, sabendo que era uma situação ruim pra todos nós.
— Não quero que vocês se intrometam nisso além do necessário. De verdade. — Falei baixo, sabendo que ia ser inútil. — Principalmente você, Wallace.
— Eu sei comer pelas beiradas. — Ele falou, cruzando os braços pra mim.
— Vocês são as pessoas que podem provar que a Maria Ísis existe. Vocês ainda tem nossas fotos todas? As que eu mandei pra vocês? — Perguntei e a Dalila concordou com a cabeça, batendo os dedos no telefone. — Agora não tem mais porquê deixar isso em off, quando chegar a hora, deixem ele saber, mas não tomem partido pro meu lado, pelo amor de Deus.
— Ele tá de conversar comigo há uns dias já. Achei que fosse sobre... — Contou, estalando os dedos das mãos. — É sobre você? Será?
— Não sei, mas pode ser. Vai preparada. — Concordei com a cabeça.
Suspirei, sentando na cama e olhando pra eles meio cansada. Eles eram os meus únicos aliados ali naquele momento, que iam estar do meu lado independente do que viesse a acontecer. Eu morria de medo de me arrepender de ter envolvido eles naquela história, mas eu precisava muito deles. Evitei falar sobre o tempo que eu passei no porão e como era um cu ficar o dia todo isolada dentro de uma casa minúscula. Tudo sobre a fome, o frio, a solidão e a sujeira que eu tinha passado nos últimos dias eu deixei de lado, era bom que eles pensassem que eu tava 100% bem e levando numa boa. A verdade é que a cada dia que passava, o meu tempo ia se esgotando mais e mais e meu desespero crescia na mesma medida.
— Gente... — Chamei a atenção deles pra mim. — Daqui a pouco eu tenho de voltar. Eu queria tentar ver a Maria... Eu sei que ela deve estar dormindo, mas se pá minha mãe faça uma chamada de vídeo só pra eu ver ela um pouquinho.
O olhar da Dalila se iluminou de repente, ela correu pra pegar o celular dela e me pegou pela mão, voltando pro primeiro andar. Rapidinho a Lila conectou a imagem do whatsapp na televisão e me deu o aparelho pra eu ligar pra minha coroa.
— Mãe? — Ela atendeu no primeiro toque e eu ouvi ela suspirar pesadamente do outro lado da linha. Alívio. — Eu tô bem, mas não posso falar muito. Como tá a Maria?
— Ela tá bem, minha filha. — Ela falou uns segundos depois. — Aquele doutor que é teu amigo lá chegou aqui anteontem, o Rogier passou o número e agora ele tá indo com a gente lá no hospital com a Maria. Começa a quimio amanhã... Acho que vamo manter ela internada no começo, por causa da casa que não tá pronta. O plano cobre.
Caralho, eu queria muito estar lá. Eu sabia como os primeiros dias do tratamento eram horríveis. Ela ficava bem amoada, chorava toda hora, dormia bastante... depois normalizava e ela só ficava enjoada pra comer, mas os primeiros dias... Partia o meu coração em um milhão de pedaços estar longe dela naquele momento, ninguém ia saber lidar com ela melhor do que eu. Era difícil colocar na minha cabeça que eu não podia simplesmente
— Faz isso sim, mãe. É melhor que ela já faz logo a touca criogênica e fica num ambiente mais saudável... Eu vou ficar melhor sabendo que ela vai ficar segura num hospital. — Disse, passando a mão na nuca. — Como tão as coisas ai nas favelas?
— Por aqui tá tudo bem. Não tem tido muito problema não, o Barnabé dá conta. — Explicou. Bom... menos uma coisa a qual me preocupar. — Eu queria voltar pra minha casa em Copa, Nina, mas depois a gente fala sobre isso.
— Tá, tá... — Suspirei. — Depois a gente vê isso, tá? Quando eu resolver tudo, tu pode voltar pra lá. Agora, mãe... A Maria tá dormindo?
— Deitei ela na cama quase agora.
— Deixa eu ver ela? Tu se importa de acordar ela só pra eu ver ela um momentinho? — Pedi.
Ela não falou nada, mas eu ouvi ela abrindo a porta de um quarto segundo depois. "Maria, mamãe quer falar com você." Ela falou numa voz doce, abrindo a câmera que focalizou inicialmente na coucha da cama dela.
— Mamãe? — Ouvi a vozinha sonolenta dela e aquilo fez o meu coração se apertar no peito. — Mamãe? — Repetiu, levando o telefone na orelha. Minha mãe acendeu a luz e ajeitou a posição do celular para que ela aparecesse na câmera. Assim, a imagem dela surgiu bem grande na TV da sala depois de uns segundos... Na mesma hora eu cai sentada no sofá, com o celular na mão e os olhos cheios de lágrimas. Linda! Ela tava linda com um pijaminha rosa, os cabelos bagunçados e uma carinha inigualável de sono. Mesmo assim, eu vi o brilho nos seus olhos quando ouviu falar que era eu do outro lado da linha.
— Oi, meu amor... — Disse, sentindo a voz sumir no final. Embargada pelas lágrimas que iam e vinham pelos meus olhos, rolando pelo meu rosto livremente.
— Mamãaae... — Ela ficou toda feliz e eu ouvi o Russo e a Dalila suspirarem junto comigo. Nos seus rostos, um sorriso genuíno de felicidade. — Tô com saudade, mamãe. Quando cê volta?
— Eu tô com saudade também, filha... — Achei que fosse explodir em tanto amor vendo ela ali, toda empolgada em falar comigo. — A mamãe ainda vai ficar uns dias aqui, mas já já ela volta pra você, tá bom? Promete que vai se comportar até lá?
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Coração em Guerra
Romanceㅤㅤ"Sou a morte, o diabo, o capeta, a careta que te assombra quando fecha o olho. Sou seu colete à prova de balas, seu ouvido à prova de falas... Eu vou tomar nosso mundo de volta." Djonga ㅤㅤㅤHá 5 anos ela foi acusada de trair o homem a quem ela amav...
