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Desci sozinho, sem o fuzil nem nada, só com a pistola na cintura. Ela tava distraída com o tijolo da parede, enquanto bebia alguma coisa num copo que tinha vindo junto com a comida dela. Assim que eu desci, ela virou pra mim com um olhar inocente.

— Veio me ver de novo, po? — Perguntou, sem se mover do lugar.

— Que que tu fazia no Paraguai? — Rebati a pergunta pra ela.

— Trabalhava...? — Respondeu meio confusa, talvez sem saber o que eu queria com aquilo. Semicerrei os olhos, insistindo na pergunta. — Tipo, só tem duas coisas que eu sei fazer direito. Uma é ser uma ótima mãe, a outra é vender droga. E eu sei ser incrível também.

— E o que que tu tem a ver com o Homero? — Perguntei, andando até parar perto dela, que ergueu o olhar pra mim.

— Homero?! — Ela piscou como ela fazia sempre que era surpreendida. — Da Ponte? Ele me deve uns favores aí...

— Então era de você que ele tava falando. — Conclui só pelo olhar dela. Abaixei e segurou o braço dela, puxando ela pra cima.

— Ele falou de mim? Espero que só coisas boas. — Ela disse e eu vi uma sombra de um sorriso na boca dela. O olhar dela brilhou em desafio pra mim e o meu sangue ferveu. Se eu surtasse com ela ali como tinha acontecido antes, eu ia perder o controle da situação. Não ia acontecer de novo... Eu precisava do caralho da minha droga.

— Eu não tô brincando contigo. — Falei em um tom de alerta. — O que que tu fez com o meu carregamento?

— Nada, nada, calma ai. — Ela segurou meu braço com a mão livre, mas o olhar no seu rosto ela de diversão. Aquilo tava minando o resto de paciência que eu tinha. Eu ia ter que tirar serenidade do cu, irmão... — Eu só queria ter uma garantia, po. Eu não quero te prejudicar não, nem sabia que isso ia rolar agora. A ideia era pra ser daqui há 3 dias e não em 3 dias... de qualquer jeito, fica de boa, vamo resolver, tá?

— Vamo resolver? — Aproximei o rosto de dela, sacudindo ela pelos dois braços dessa vez. — Tu ficou maluca? Enfiou a noção do perigo no cu, porra? Caralho... — Balancei ela de novo.

— Calma aí, calma aí... — Ela continuou repetindo. Eu soltei ela de uma vez, porque se eu continuasse olhando pra cara dela, eu ia fazer merda.

— Eu tinha que ter matado você assim que você chegou, sua filha de uma puta. — Falei alto, dando uma porrada na parede. Puta que pariu... Caralho, eu só queria que eu não tivesse dado tanto mole pra essa puta. Quando mais eu apertava em cima, mais frouxo parecia... não era o suficiente.

— Pensa pelo lado positivo, po... — Ela esfregou a mão nos braços, me olhando sério agora. — Se você tivesse me matado, tu não ia ver nem a cor da tua droga por um tempo e ia estar fodido. Tá, eu sei que não ia dar pra segurar as saídas do Homero pra sempre, mas uma ou duas semanas com certeza... E po, em duas semanas dá pro dinheiro acabar, né?! Ficar sem pagar ninguém... eu sei como é isso. Eu e você sabemos. Se o dinheiro acabar, o amor acaba também.

— Não, eu não tô te ameaçando. Eu não quero que nada de mal te aconteça, nem aconteça com a Rocinha. A sua droga vai chegar, eu garanto, de verdade... Eu só quero que você me escute, só isso. Eu conheço você... tu pode até falar que não, mas eu sei como você é. Eu tinha certeza que tu não ia nem me ouvir. Tudo o que eu quero é que tu sente francamente comigo pra gente conversar. — Falou, gesticulando com as mãos. Aquilo não era ameaça, era chantagem. Ela arrumou um jeito de me chantagear pra fazer com que eu falasse com ela... filha da puta. Era um passo esperto, eu tinha que admitir que ela tinha me pegado com as mãos nas costa. Eu tinha que ter imaginado que ninguém se dá ao inimigo sem ter uma boa carta na manga. Porra... eu tinha ensinado ela bem demais como sobreviver nesse mundo. Quem diria?

— E depois o quê? Tu vai embora pra tua casinha como se nada tivesse acontecido? — Cruzei os braços, caminhando lentamente na direção dela. — Tu sabe que não é assim que a banda toca.

— Eu tô de boa com a punição que eu tiver que sofrer depois que eu tiver colocado todos os pingos nos is. — Disse, encostando o próprio corpo na parede. Ela sustentava o meu olhar. — Nunca tive medo da morte, não da minha morte. Eu só não aceito morrer sem ter tido a chance de provar que eu não tava envolvida com nada. Eu quero ser ouvida de verdade, só isso. Quero que tu leve em consideração as coisas que eu te disse e procure ver. A verdade sempre aparece no final. Se depois disso tu ainda achar que, de acordo com a lei dos irmão, eu ainda mereço perder minha vida pra pagar o mal que eu fiz, então tranquilo. Me mata e toca sua vida adiante.

— Eu já ouvi você, porra... — Murmurei em um tom baixo, não sabendo bem onde ela queria chegar. — Minha mente não vai mudar, tu não vai me confundir com as tuas meias verdades.

— Não, tu me ouviu, mas não me escutou de verdade. — Rebateu, batendo o pé no chão que nem criança. — Caralho, para de ser cabeça dura, pelo amor de Deus. Eu não tô pedindo muito, porra. Me deixa provar que a gente teve uma filha e que eu não tive nada a ver. Tu não perde nada me dando tempo pra te mostrar a verdade, na verdade só ganha. Eu não tô dizendo que vou fugir do meu destino, se tiver que ser assim... Eu tenho direito de me defender, né? Em qualquer tribunal é assim, o juiz tem que deixar o acusado ter uma defesa.

Não, eu não queria ouvir ela. Ela era minha fraqueza, eu não queria dar a oportunidade dela usar as coisas que ela tinha contra mim... me fazia mal querer revirar naquela merda. Eu tinha cicatrizes bem claras da traição dela, nunca aceitei bem o que ela fez com nós dois... porra a gente era feliz e ainda ia ser muito mais, se não fosse por ela. Marina era igualzinho um veneno que corria por baixo da minha pele, me deixando doido e me fazendo fazer merda. Minha frieza pra lidar com as coisas era o que me fazia ter sucesso na vida errada, eu era centrado e nunca dava um passo em falso, não tinha como todos os inimigos que ficavam me espreitando me derrubarem sem eu ver se onde eles tavam vindo... Por isso ela era perigosa. Se ela destruía meu autocontrole, eu ficava vulnerável.

— Vamo fazer um acordo? — Ela perguntou um tempo depois, quebrando o silêncio. — Por favor, vamo resolver isso numa boa, Barbás. Se a gente for até as últimas consequências um com o outro, eu vou acabar morta e você provavelmente também. E eu não quero deixar minha filha órfã... essa nunca foi minha intenção pra começar. 

Coração em GuerraHistórias para pegar e não largar. Descubra agora