15, 16, 17

2.7K 145 6
                                        

— De mãe pra mãe. — Ela concordou com a cabeça. — Eu vou sondar o terreno pra ver por onde tu pode começar. Enquanto isso, vai me passando notícia da sua filha.

— Ela tá bem, relaxa. Eu sempre faço check-up nela, então, eu peguei bem no início de novo. Com o tratamento, ela vai voltar a ficar saudável em pouco tempo. — Contei, terminando o meu café. Ela pegou um guardanapo e pediu uma caneta ao garçom que passava, anotando o seu número rapidamente no papel.

— Bom saber. — Ela me empurrou o guardanapo e ia se levantando. Eu segurei o braço dela. — Posso fazer mais um pedido?

— Para de abusar da minha boa vontade. — Reclamou.

— Eu queria ver o Barbás... — Suspirei. Ela me olhou como se eu fosse maluca. — Por favor, a minha mente tá me sabotando. Eu não consigo parar de pensar nele, eu preciso muito muito saber como ele tá. Eu preciso ver ele pra ficar em paz.

— Você é louca, papo reto. — Ela negou com a cabeça de novo.

— Eu tenho coragem pra isso. Me bota na Rocinha, eu só quero ver ele de longe e depois eu vou embora, com meu coração leve e minha mente aliviada. Sem problema, sem caô. Eu só quero ver ele. — Pedi.

— Não sei se você entendeu ou só ignorou tudo o que eu disse, mas não dá. Tu não ouviu que o Barbás tá caçando você em todo canto? Como que tu quer ir lá? — Ela perguntou, indignada comigo.

— Eu vou disfarçada, entro e saio sem ninguém me notar, simples. Aquela favela tá sempre movimentada pra caralho, entre uma porrada de gente ninguém vai me perceber, porra. Tu sabe que é assim. — Insisti. — Me leva pra ver ele. Só uma vez, eu fico te devendo uma. Tu vai ter minha lealdade pra sempre se me ajudar nessa.

Ela negou com a cabeça de novo e suspirou, eu vi o cansaço nos seus olhos. Sabia que ela ia acabar cedendo.

— Eu vou acabar fazendo alguma merda se eu não...

— Tá, tá, Nina. — Ela mandou eu ficar quieta e eu me calei, sabendo que eu tinha conseguido o que queria. — Vamo fazer assim? Eu te levo pra ver ele e você deixa o Pedro conhecer a Maria. Pode ser.

— Pra ontem. Eu sempre quis que os dois se conhecessem mesmo... — Dei de ombros, sorrindo com a possibilidade.

— Tá, então vem comigo. E vem quieta, hein?! — Mandou, levantando e voltando pro carro. Eu segui ela de perto.

Ela vasculhou o banco de trás e a mala do carro dela. Me jogou um casaco enorme, de homem. Eu olhei aquilo com um ponto de interrogação na cara. Coloquei aquela coisa do no meu corpo e ficou parecendo um vestido preto. Pus o capuz na minha cabeça e entrei no carro. Ela deu partida e foi voltando na direção do Joá.

— Prende teu cabelo ai, vai. Abre o porta malas e põe um boné. — Mandou e eu obedeci sem reclamar. Fiz um coque no meu cabelo e coloquei o boné por baixo do capuz. Não tava lá tão calor, então, não ia ficar tão estranho, tirando o fato do estilo ridículo da roupa em mim.

Depois que passamos do elevado, eu voltei a sentir meu coração martelando no peito. Tão forte que se eu ficasse em silêncio, eu conseguia escutar ele nos meus ouvidos. Eu estava nervosa... Estava com medo do que eu poderia ver... A ansiedade de olhar ele de novo chegava a me sufocar, eu tava sofrendo de antecipação como uma criança. Quando a Rocinha despontou no meu campo de visão, eu cheguei a prender a respiração. As lágrimas começaram a se acumular nos meus olhos e eu já funguei, fazendo a Larissa revirar os olhos.

— Sem choro, minha filha. Finge que tu é homem ou uma sapatão qualquer de estilo alternativo ai. Se ficar dando pinta, tu vai se foder e me levar pro buraco junto contigo. — Falou de maneira bem dura comigo, virando na esquina que dava na Estrada da Gávea, entrada da favela. Rever aquele lugar tão querido pra mim e não poder chorar foi péssimo, meus olhos ficaram vermelhos e minha garganta seca, de tanta força que eu fazia pra não deixar escapar nada. Meu coração ainda identificava a Rocinha como a minha casa... notei aquilo naquela hora. Eu descansei, me senti retornando ao lar como uma boa filha depois de tanto tempo. Esse era um sentimento meio perigoso na minha situação atual, eu sabia. — Coé, moleque. Cadê o patrão? — Parou o carro do lado de um dos primeiros radinhos da favela.

— Ele tava tomando café na padaria dali, po. — Apontou pra frente. — A do Marcão.

— Tô ligada. Valeu ai, menor. — Ela agradeceu e tomou o carro. Eu dei uma risadinha de nervoso, quando ouvi a maneira como ela se referiu ao Barbás. Meu Deus, que realidade paralela era essa?

— Patrão, hein?! Ui, ui. — Ri.

— Não se anima não. — Ela deu um sorrisinho. — Não faz contato visual com ninguém, cabeça baixa, Nina.

— Tô ligada, porra. 100% na atividade. — Respondi. Ao ia olhando tudo ao redor, notando como tava diferente. Era a mesma favela, mas tudo parecia estar em um novo lugar... que sensação estranha! Lojas novas, pessoas novas, cores diferentes nos muros...

— Aham. — Ela passou com o carro numa velocidade mais baixa na frente da padaria. — Ele tá ali sim, já até vi. Não olha ainda não. — Falou, voltando a acelerar. Muitos metros a frente, ela parou o carro.

Convenientemente, foi em frente a uma armarinho, onde ela entrou e foi direto num expositor, pegando um óculos escuros grande.

— Tia, anota ai no caderno pra mim. Cobra lá na Rua 1 depois, fala que é da Larica, valeu? — Falou, voltando e colocando aquele treco feio no meu rosto. — Agora sim, tá igualzinho a um moleque depressivo e viciado em videogame.

— Vai se foder. — Rebati, saindo do carro toda escaldada.

Coração em GuerraHistórias para pegar e não largar. Descubra agora