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As vezes eu achava que ia surtar e botar a porra toda a perder. Mais de um ano de trabalho nessa favela, pra amarrar tudo e me consolidar, pra botar todas as peças no lugar e fazer as coisas prosperarem de novo... Agora eu tava sob muito estresse com tudo o que tava acontecendo, com vontade de dar um tiro em meia dúzia e aposentar meu fuzil mais cedo. Era foda manter a cabeça no lugar e continuar focado. A real é que eu tava cansado e mesmo assim tinha um mundo de responsabilidade nas costas. Como se os problemas entre os merdas dos gerentes, os fornecedores, os alemão não fossem o suficiente, ainda tinha a Marina e a Maria Ísis, que tavam roubando toda a minha atenção.

Ali, enquanto eu tava assistindo os dois vagabundos receberem golpes de perna de 3 na barriga, minha mente tava há uns quilômetros dali, me perguntando o que aquela mulher tinha a ver com essa situação toda aqui. Minha mente apontava pra ela e a acusava o tempo inteiro. Era foda tentar focar no que eu tinha, quando tudo o que eu conseguia pensar era sobre ela. Logo eu, que sempre tinha sido alguém prático e pé no chão.

Fiquei ali com eles, trabalhando em cima dos dois. Eu insistia nas perguntas e fazia eles sentirem medo e dor a ponto de quererem falar o que sabiam. Aquilo era fácil, zona de conforto, já tinha feito tantas vezes nessa vida que já não me causava nenhuma comoção como antigamente. Já teve épocas em que eu me senti mal, hoje eu não sentia mais nada.

— Eu conto, eu conto. — Um deles, engasgando com o próprio sangue, falou de um jeito quase irreconhecível. Soltei ele, que caiu no chão, cuspindo o líquido vermelho na frente dos meus pés.

— A gente só recebeu ordem do nosso fiel pra vim aqui, chefe. — O amigo deles se adiantou.

— Isso não diz porra nenhuma. Quero o motivo de estar rondando. — Túlio se afastou uns centímetro. — Tá caçando o quê?

— Ele queria saber só como tava o andar da favela aqui, po. — Falou e eu não fiquei satisfeito. Puxei a arma pra frente e passei a ponta do fuzil no rosto do que tava falando, enquanto o outro só cuspia sangue. Empurrei ele pro chão com o pé, pisando em cima do tórax dele, com a arma apontada pra sua garganta.

— Ele quem? — Perguntei.

— Nosso fiel. — O outro, que antes tossia, respondeu no lugar desse. — Orlando Pirraça.

— Pirraça... — Ri, olhando pra ele, que agora com a mão livre, limpava o sangue dos olhos. — Faz uns anos que eu não escuto falar desse aí, achei que tivesse morrido. — Pressionei o pé em cima do que tava no chão e ele gemeu. Eu olhei com divertimento pro TK. — Mas vem cá, esse merda ai não é quem tava a frente das favelas de Rio Comprido não. Ele mandou o que nessa porra ai? Quem que tá lá agora? — Perguntei e eles hesitaram pra responder, cutuquei com o fuzil e pigarreei, estalando os dedos da mão com o soco inglês entre eles. Fiz um sinal pro Túlio, que se aproximou de novo.

— O Barnabé. — O que tava no chão quem respondeu. — Só que quem quer saber é o Pirraça. — Fiz um sinal de insistência, aumentando a pressão no peito do cara. — Ele é gerente do Pereirão.

— Ele não fala muita coisa pra gente não, ô. Ele tá interessado aqui sim, po, mas a gente não sabe qual que é. Ele só quer saber como tá a movimentação. — Falou o outro, já agoniado. Eu quase consegui encostar no desespero da voz dele.

— Movimentação do que? De onde? — Perguntei. Eles não sabiam de porra nenhuma, mas dava pra eu pegar só na intenção.

— De quem sai e entra na favela, da parte da ZS ali, po... principalmente do cara que fornece tua droga ai. — Contou e eu bufei, meu bom humor acabou na mesma hora. Minha mente começou a trabalhar em mil direções.

— O dono das favelas tá sabendo disso? O Barnabé?

— Não sei não, nós só obedece, não faz pergunta não. — Falou um deles, o outro confirmou. Eu sabia como era horizontal a ordem das coisas, quem tava embaixo dificilmente sabia das coisas mesmo. Até porque não a função deles ficar querendo saber os motivos das coisas, mandava quem podia e obedecia quem tinha juízo.

Fiquei em silêncio, pensando sobre aquilo, enquanto dava espaço pros dois respirarem um pouco. Observei o estado dos caras, vendo o que tinha rolado ali nas últimas horas. Fidelidade era só até a página dois mesmo, quando entrava a dor na conta, era fácil fazer os caras entregarem tudo. Os dois tinham o rosto meio desfigurado pelo inchaço do espancamento, apanharam pra caralho, então não era pra menos. Eu odiava trairagem, foda-se o custo que ser fiel custaria, era a obrigação de todo sujeito homem. Coloquei minha arma pra trás, tirei o soco inglês e lentamente andei até o parede oposta e peguei o taco que o DR tava usando antes. Chutei o que tava em pior estado e dei uma porrada na cabeça dele com o que eu tinha nas mãos. Ele caiu e seu corpo ficou duro, tremendo violentamente. Convulsão. Fiquei olhando por uns segundos pro colega dele, que olhava as coisas com o medo e o choque transbordando.

Coração em GuerraHistórias para pegar e não largar. Descubra agora