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Ele passou por mim em algum momento e eu sem mexer um músculo sequer ali dentro daquele beco escuro. Até a respiração eu tava prendendo, soltando e puxando o ar de maneira extremamente controlada pra fazer o menor barulho possível. Caralho, eu era muito azarada. O universo não gostava de mim mesmo, por que logo comigo, cacete? As coisas nunca aconteciam a maneira como o planejava, por isso eu gostava tanto do improviso.

Abaixei e o observei se afastar, me perguntando se ele ia ficar de boa. Era normal o Barbás fazer uns negócios desse agora que ele tava a frente da favela? Ele costumava ser meio paranoico com essas coisas até quando era só um gerente qualquer... Eu não entendia aquele comportamento e, sinceramente, depois de ver a liderança dessa favela trocar mais que calcinha de mulher, eu me preocupava com ele. Cadê o cacete dos seguranças dele? Cadê o Túlio?

Mais a frente ele parou perto de um poste e sentou no chão de um jeito muito desengonçado. Porra, ele parecia tava mal de verdade e ali sozinho... Era perigoso pra ele. Eu sabia disso. Por outro lado, na posição que ele tava, era perfeito pra eu simplesmente atravessar e seguir meu caminho sem ninguém me perturbar mais. E aí?

Se eu fosse ajudar ele, eu podia tomar no meu cu de vez... Barbás não podia nem sonhar que eu tinha dado um jeito de driblar a segurança dele. Ele ia acabar comigo se soubesse, eu ia estar fodida de vez e não ia ter trambique que ia me tirar da merda dessa vez. Mesmo assim... saí do meu esconderijo com a pretensão de seguir meu caminho, mas parei. Eu não conseguia olhar pra ele daquela maneira ali e só deixar pra lá. Não dava. Meu coração ficava apertado no peito só de imaginar que aquele estado dele podia ter nem que fosse 1% de culpa minha... como eu podia só virar as costas? Independente do que tivesse acontecido, eu ainda devia muito a ele. E, em algum momento, eu tinha errado com o William também... Porra, eu sentia quase como se eu devesse aquela mãozinha ali.

Procurei ao redor e achei uma pedra, peguei ela nas mãos e coloquei pra trás, nas costas. Se ele tivesse sóbrio o suficiente pra me prejudicar, eu ia acertar aquilo nele e correr mais do que minhas pernas podiam aguentar. Depois eu ligava pro Túlio e contava onde tinha deixado ele. Se ele tivesse mamado demais pra lembrar de mim, ou ao menos pra acreditar que eu era só uma alucinação, tudo ia ficar bem no final. Só pela visão que eu tinha, imaginei que era a segunda opção. Assim, com a minha pedra a minha confiança, eu caminhei lentamente na direção dele, que não me notou até eu estar muito perto. Definitivamente perigoso pra ele.

— William. — Chamei, sentindo a tensão fazer minha cabeça latejar.

Ele virou a cabeça pra mim, mas os olhos estavam sem foco nenhum, então, passearam por um tempo pela minha silhueta até parar no meu rosto, onde a luz do reconhecimento ficou muito visível na sua expressão. Ele franziu a testa e ficou me observando longamente sem dizer uma palavra sequer...

— Eu sou só um sonho. — Falei, abaixando na frente dele e apoiando minha mão na sua perna. — Tô aqui pra te levar pra casa. Bora?

— So...nho? — Ele fechou os olhos com força, depois os abriu e me olhou de novo, piscando várias vezes. — Quem...?

— Pode dizer que eu sou seu anjo da guarda, vai... — Levantei, oferecendo minha mão pra ajudar ele a se levantar. — Vem, vamo pra casa.

Ele aceitou a mão que eu estendi e, com a minha ajuda, ele levantou cambaleando do chão. Como ele não criou causo, joguei a pedra fora nessa hora e passei um dos meus braços pelo seu tronco, meio me abraçando a ele de lado pra apoiar parte do peso do corpo ele. Vai que o homem caía no chão, ele ia se machucar e ainda ia ser um inferno fazer levantar de novo. Voltamos a andar, eu segurei ele forte, passando um dos braços dele pelos meus ombros e sincronizando o nosso ritmo.

— Onde tu mora? — Perguntei. — É por aqui?

Ele apontou pra frente, mas em posições oscilantes. Não dava pra saber bem onde...

— Foca, vai... Respira e responde de novo. Pra onde fica sua casa? — Perguntei de novo, apertando mais ainda a lateral do abdômen dele. — Vamo, Will, onde?

A gente já tava chegando na parte alta de rua, onde bifurcava. Ali, ele apontou mais uma vez, mas na diagonal para a direita. Eu meio que entendi o recado. Seguimos pra lá, o caminho foi me cansando a rodo, porque ele era pesado e tava sem firmeza nenhuma nos pés. Foi com muita graça e muita misericórdia de Deus que, entre as casas melhorzinhas que tinha ali, obviamente uma se destacava das demais. Era quase um prédio com acabamento bonito, um terraço legal, todo trabalhado no porcelanato e tudo... perguntei se era a casa dele, que me confirmou e lá fomos nós.

Paramos no portão e eu ajudei ele a tatear os bolsos, procurando a chave. Acabei achando um monte de coisas... A pistola, o celular, o rádio, a chave tava por último e era um molho gigante ainda, que eu tive que ir testando uma por uma naquele portão do inferno.

Coração em GuerraHistórias para pegar e não largar. Descubra agora