— Mais tarde... A gente vai fazer um negócio nós três juntos, vai ser legal. — Propus, ficando de pé. Até pensei em pegar a Maria, mas ela já tava ficando grande demais pra isso. Já tava foda aguentar mais de 10 minutos com ela de pé, viu?! Tava crescendo tão rápido... — A gente tem que conversar mesmo. — Peguei na mão da Maria, que tava observando o Barbás com curiosidade pelo canto dos olhos. De repente, ela me soltou e se aproximou dele. Acho que nem o William esperava isso, tanto que ficou imóvel diante da ação dela.
Maria estendeu a mão e pegou o colar de contas que ele levava junto com peito, por dentro da blusa e que aparecia próximo ao seu pescoço, sua guia. Eu já tinha prestado a atenção nela outras vezes... na minha cabeça ainda martelava a pergunta. Como alguém como o Barbás tinha se tornado religioso? Logo ele, o mais pessimista e cético dos homens.
Talvez atraída pelo colorido das contas vermelhas, azuis e brancas, num gesto ousado até pra mim, ela segurou com a mão o colar, o olhando com curiosidade. Me perguntei se ele acharia ruim... Mas aconteceu justamente o oposto. Ele sorriu, de um jeito que há tanto tempo eu não via ele sorrir, e beijou as costas da mão dela, que ainda lhe segurava a guia entre os dedinhos.
Observei a cena com um calor absurdo no coração. Cara, eu morri de vontade de chorar ali... Minha mente viajou pra todos os universos paralelos onde nós dois tínhamos ficado juntos, onde o William mimava a Maria até estragar ela e eu socava ele a noite por tornar ela impossível. Que falta ele fazia... Pra mim e, especialmente, pra ela. Suspirei pesadamente, sentindo o baque. Até me encostei no sofá, engolindo em seco. A vida era um cu mesmo.
Ela se assustou com o gesto dele e puxou sua mão, se afastando. É, quando a esmola é muita o santo desconfia. Maria Ísis era extremamente sociável, mas eu sempre deixava claro que se ela aceitasse coisas de estranhos ou falasse com homens que ela não conhecia na rua, eu dava uma coça bem dada nela. Mãe de menina é isso, tem que ensinar a ter prudência desde cedo. Barbás, se afastou também, se levantando, enquanto ela veio agarrar minha perna. Eu vi a decepção cintilar nos seus olhos.
Olhei pra ele, seguindo o seu suspirar cansado. Ia ser uma situação exaustiva pra nós dois. O tempo... ele era como a oportunidade, não dava pra pegar de volta uma vez passado. Uma vez perdido, estava perdido pra sempre. Nós tínhamos que nos conformar com isso. Por sorte, a vida dava outra chance pra nós três ali.
— Não é com você, eu que não deixo ela falar com homem que eu não conheça. Você sabe como é... — Contei, pegando ela pela mão. — Pode mandar buscarem as coisas dela no meu irmão? — Perguntei. — Não vão me entender se eu pedir.
— Vou mandar. — Concordou com a cabeça, se virando para ir. Ele desceu a visão de mim para Maria Ísis outra vez, que o devolveu a curiosidade da mesma forma, pelo canto dos olhos. Eles, realmente se pareciam. Dessa vez, Barbás lhe ofereceu um sorriso muito mais discreto.
— De quem é essa arma? — Perguntou ele, chutando ela pro outro lado da sala quando notou que a Ísis tava olhando muito pra ela.
— Olha... É do menino da garagem, mas eu literalmente enganei o coitado. Não é um culpa dele. — Dei de ombros. — Eu tava desesperada e, agora, eu acho que deixei a Madalena e ele meio desesperados também lá na cozinha. Eu devia devolver...
— Não. É erro dele de ter sido desarmado por você. — Disse, a voz assumindo um tom muito mais duro. Ele mesmo caminhou até o corredor onde tinha ido parar a pistola, coincidentemente à caminho da cozinha, e balançou ela pro seu dono ver. — Quem não consegue manter a arma, não tem que ter uma.
— A culpa não é dele, cara. Eu que tenho um talento pra passar a perna nas outros. — Dei de ombros, sabendo que aquela era uma verdade irrefutável.
— E você... — Ele parou perto de mim, desviando novamente os seus olhos para Maria por um segundo apenas, voltando atenção pra mim. — Que bom que ela tá aqui, depois a gente bate um papo.— E, então, nos deu as costas, para sair pela porta da sala.
Eu não sabia quais áreas da casa eu podia trafegar, aliás, não sabia nem se eu podia ainda fazer alguma coisa ali, pela besteira que eu tinha feito anteriormente. Tá que eu tava desesperada e era uma emergência, mas caramba, coitado do menino... Ele nunca mais ia confiar em mim de novo. Na verdade, eu achava que ele tava em um problemão. Sabe, as vezes eu me arrependia de agir sempre no calor do momento, mas não dava pra afirmar que eu não faria de novo. Se eu soubesse que minha filha tava em perigo, eu provavelmente ia fazer tudo de novo e até pior. É instinto de mãe.
De qualquer maneira... eu me sentia na obrigação de ajudar ele de alguma maneira. Peguei a minha menina no colo, sentindo como se eu tivesse carregando três sacos de cimento nas costas. Fiz questão de me desculpar com os dois e explicar a situação, felizmente a Madalena se encantou pela Maria e ignorou a minha atitude, enquanto eu conversei um pouco melhor com o segurança e prometi pela minha alma que ia limpar a barra dele. O coitado tava a ponto de chorar, eu imaginava o terror psicológico que o Barbás tinha botado dele. Bom... não era nada mais que minha obrigação, né?!
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Coração em Guerra
Romanceㅤㅤ"Sou a morte, o diabo, o capeta, a careta que te assombra quando fecha o olho. Sou seu colete à prova de balas, seu ouvido à prova de falas... Eu vou tomar nosso mundo de volta." Djonga ㅤㅤㅤHá 5 anos ela foi acusada de trair o homem a quem ela amav...
