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[...]


[NINA]



Eu não sabia bem o que tinha rolado, mas eu fiquei chocada de ver um homem morrer nos meus pés possivelmente por minha causa. Me deu vontade de vomitar, de gritar e socar a cara do Barbás por ser tão paranóico. Aquele merda... No final, me quebrou legal ter a noção de que o Túlio tinha se machucado. Caralho... Porra, o TK. Eu senti meu coração apertar pensando no que podia ter acontecido pras coisas acabarem do jeito que acabaram. Olhei pro sangue no chão, decidindo se ia acatar o pedido do William. Ele tinha sido responsável por aquela bosta, o certo era ele mesmo limpar, mas ia acabar sobrando pra Madalena, que simplesmente não cabia naquela situação. Eu conseguia ver ela desmaiando e gritando ao ver as manchas vermelhas. Depois, eu tinha conseguido um gesto esquisito do Barbás em direção à mim. Ele não ordenou, mas mandou um 'por favor'. Aquele tipo de tratamento direcionado a minha pessoa era tão estranho da parte dele... Eu já quase esperava as grosserias e as acusações.

Pedi a ajuda de um dos seguranças que tava vigiando a porta da frente pra me ajudar a limpar aquilo, ele não me repreendeu, então, imaginei que o William tinha deixado liberado a minha saída das dependências. Ele me ajudou a desenrolar a mangueira e a escolher e montar a bica dela. Fui regulando a potência do jato pra ir tirando diluindo o sangue. De tempos em tempos, eu dava a mangueira pros seguranças, enquanto eu vinha com um rodo pra puxar a água sanguinolenta. Enquanto isso, eu fui aproveitando pra arrancar umas informações do cara.

— Amigo, tu sabe como é um tribunal de vocês assim? — Perguntei como quem não quer nada, puxando o líquido com o rodo, enquanto ele vinha atrás com o jato de água.

— Quer saber pra que?

— Se pá eu vá passar por um e não sei nada sobre. Me fala ai, vai. — Pedi, indo até a mangueira, regular ela de novo, diminuindo a pressão da água.

— Po, vão juntar um grupo de irmão que tem contato lá com a 1 e tu vai contar tua história. Tu pode levar gente que comprove o que tu tem a dizer, pra servir de testemunha. Ai vão te fazer um pergunta e depois a cúpula vai juntar e te dar a sentença. — Explicou do modo mais simplista possível.

— Se acharem que eu sou inocente...

— Aí tu tá livre. — Complementou. — E se te acharem culpada... — Ele deu de ombros. — Qual a acusação sobre tu?

— Judaria. — Dei de ombros também. — Mas a questão é que eu não sou culpada.

— Então tu prova que não é. — Falou. — Se não tu paga com a vida, a lei aqui é assim.

— É. — Suspirei, empurrando a água com mais força pra rua. Aquilo não era ruim, eu não queria enxergar aquilo da maneira pessimista. Era a melhor oportunidade que eu tinha de sair limpa daquilo, se mesmo assim eu não conseguisse me libertar daquelas acusações, minha vida nunca ia ter paz mesmo... Então aí, eu ia pro plano B, que envolvia eu aceitar minha sentença e deixar tudo ajeitado pra minha filha. Eu sabia que eu era uma mulher jurada de morte, então, não podia dizer que estaria surpresa se aquilo realmente acontecesse. Quando eu botei os pés no Rio, eu já sabia que talvez aquele seria o meu destino final. Só que aceitar a morte tão passivamente não era simples... Eu ainda tava tendo dificuldade com essa possibilidade ai. 

Madalena voltou da rua me vendo do lado de fora e toda aquela água de cor suspeita descendo para a calçada. Ela arregalou os olhos na mesma hora e eu soube que tinha sido uma boa ideia não deixar aquela tarefa pra ela.

— Tá de boa, não foi nada demais, pode ficar tranquila. Tamo só terminando de limpar aqui.

Ela me lotou de perguntas nos momento seguintes e eu respondi com o que eu sabia, que não era muito, enquanto eu ia terminando de limpar a bagunça. A verdade é que, sim, eu tinha a impressão de que eu já tinha visto o homem que foi morto na minha vida alguma vez nessa vida, afinal, eu tinha estado em todas as favelas que estavam, supostamente, na mão do Barnabé há umas semanas e ele certamente devia se lembrar de mim. Porra, eu tava muito feliz por ele não ter me dedurado no final das contas, eu ia estar muito fodida se ele dissesse que me conhecia. Era capaz de eu morrer ali mesmo, sem julgamento nem porra nenhuma.

Terminei meu serviço com esse pensamento na cabeça, me deixando vagar pro Barbás e pra minha filha na metade do caminho.

Coração em GuerraHistórias para pegar e não largar. Descubra agora