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Em 15 minutos ele veio buscar eu e a Maria Ísis pra nós tirar da nossa redomazinha. Eu me sentia muito mais confortável saindo com ele, sabia que nada ia acontecer enquanto ele tivesse por perto. Logo de cara o Túlio já mostrou o coração do tamanho do mundo que ele tinha e ganhou a simpatia da Ísis logo de cara. Depois que ele saiu das vistas dos seguranças da rua, ele começou a brincar com a minha filha de um jeito tão fofinho que eu fiquei com o coração derretendo.

— Pra onde, Nina? — Perguntou, me olhando de conta e balançando os cabelos da Maria.

— Vamos dar uma chegada lá na Barcelos. — Falei. Ele mostrou um carro mais adiante. Fiquei tocada com a sensibilidade dele de não vir de moto, já que eu tava com a minha filha e não ia ser bem seguro andar por ai em duas rodas.

Foi bizarro parar em frente a boca onde minha história no tráfico tinha oficialmente começado. A gente saiu e o TK foi apertar a mão do pessoal dali. Fiquei próximo ao carro com a minha filha, esperando ele voltar.

— Esse foi o primeiro lugar onde a mãe trabalhou, sabia? — Apresentei.

— Os tio tem aquele negócio... — Ela fez o final de arma com os dedos e eu dei uma risadinha. No sítio, ela tinha contato com alguns dos nossos filiados armados, até eu mesmo tinha alguns fuzis que eu achava bonitos trancados no meu guarda-roupas, não era novidade pra ela, apesar de eu nunca deixar que ela se aproximasse demais de armas de fogo.

— Tem, filha... — Concordei com a cabeça, deixando ela olhar ao redor. Parecia que um século todo tinha passado desde que eu tinha sido vapor daquela boca. A sensação de nostalgia veio que nem um meteoro no meu coração. — E...

— Mamãe... e o meu pai? — Era daquilo que ela queria saber de verdade. As vezes me irritava o quanto a Maria Ísis tinha crescido e ficado tão inteligente ao ponto de me calar.

— Foi aqui que eu conheci seu pai. — Apontei pra entrada da casa onde a gente armazenava a a droga. — E ali... — Mudei a direção do meu dedo para a janela de frente pra rua do 2° andar. — Ali era onde ele ficava, olhando a gente trabalhar aqui embaixo.

— Ele ficava na janela?

— É... por ai. — Ri com a lembrança. — Ele era meu chefe.

— A gente era feliz e não sabia. — O Túlio comentou, voltando pro nosso lado.

— E como... A vida era mais simples naquela época. — Falei de volta pra ele, que me olhou com um sorrisinho, batendo a mão na lataria do carro e dando a volta nele pra perto da porta do motorista de novo.

— Sabe o que que é, Túlio?! É que a gente tá ficando velho. — Disse, entrando na brincadeira.

— Só pelo jeito que a gente tá falando, eu já saquei essa porra. Tô cheio de cabelo branco. — Falou sério, com a diversão marcando a voz.

A gente voltou pro carro depois disso e a próxima parada foi a casa da minha mãe, próximo ao largo do boiadeiro, onde eu mostrei pra ela o bequinho onde eu nasci e me criei. Ela ficou de cara de o lugar onde eu vivia quando tinha a idade dela... Óbvio que a Maria Ísis nunca ia sentir fome, como eu senti. Eu nunca ia permitir que ela sofresse a carência de coisas básicas como eu sofri. Estar ali com ela serviu pra eu reforçar aquilo dentro da minha mente e do meu coração.

Eu e o Túlio ainda tiramos uma onda, porque a gente tinha trocado muito tiro junto naquele lugar. O TK só ria da Maria Ísis me interrompendo de 5 em 5 minutos pra tentar relacionar as coisas que eu contava pra ela ao pai. Ela era assim, depois que eu tinha dado abertura pra ela falar sobre aquilo, ela não sabia mais parar.

— Tio, tio, tio. — Ela ficou em pé, enquanto eu e o motorista estávamos relembrando as tretas que a gente já tinha se envolvido ali.

— Senta aí, Maria Ísis. — Puxei ela pela cintura.

— Você conhece meu pai, tio? — Ela insistiu, entrando no meio do nosso assunto.

O Túlio, que tava dirigindo, riu e desviou o olhar da estrada por um segundo pra minha cara.

— Conta logo, Nina. — Disse, realmente se divertindo com as situações que a Maria me colocava.

— É, mamãe, conta. — Ela replicou na mesma hora.

— Tô contando, se você parasse de me perguntar e prestasse a atenção, você ia ver que é exatamente isso o que eu tô fazendo. — Reclamei, puxando ela de uma vez pra fazer ela sentar. Se o TK freiasse bruscamente ali, ela ia parar lá na frente.

A parada seguinte, foi na área do baile, que era ali perto, na rua do Canal. O Túlio foi passando devagarzinho pelas ruas que costumavam ficar lotadas quase todo final de semana, e foi falando pra Maria que ali era o lugar onde a gente fazia festa. Ela não tinha idade pra saber todas as coisas +18 que rolavam ali e era bom que ela pensasse que era só uma festinha. Era bonitinho ver a inocência nos olhinhos dela.

— Foi aqui onde a sua mãe virou namorada do seu pai, né não Nina? — Túlio me olhou capcioso.

— Jurou, né?! — Olhei pra ele com os olhos semicerrados e ele virou pra frente, indo até o final da rua, onde ficava o palco que eles montavam.

Maria me olhou em expectativa, pra que eu explicasse.

— É mais ou menos isso, foi numa festa que eu e o seu pai viramos... namorados. — Falei aquilo quase engasgando. Não tinha sido tão fácil assim. Na realidade, eu tinha deixado ele de pau duro e corrido mais que o papa-léguas pra me vingar do jeito que ele me tratava na boca.

O Túlio só ria. Eles dois pareciam juntos na missão de me deixar numa situação complicada de explicar...

Dali, a gente foi pra casa onde eu morei com a Dalila e o Wallace, depois pra casa onde vivia o Barbás antigamente. Uma era bem pertinho da outra, então chegamos rápido na 2°. Claro que era oficialmente a casa do William, mas depois, quando a gente realmente colou junto, ela praticamente se tornou nossa.

Coração em GuerraHistórias para pegar e não largar. Descubra agora