Olhei ao redor, vendo que tava vazio e o chão imundo. Não tinha móvel algum, só uma lâmpada amarela com fio aparente, pendendo do teto. Eu não sabia como acender ela, então, só aceitei o breu e sentei num cantinho, me encolhendo num canto qualquer, perto da única janela minúscula, que deixava entrar um mínimo de luz. Deitei minha cabeça no concreto nu, tentando descansar minha cabeça e tirar aquela ansiedade mortal do meu coração. Não saber o que ia acontecer comigo me deixava tão nervosa que chegava a doer. As emoções eram tantas que se misturavam dentro de mim e levavam lágrimas pros meus olhos. Ali, sozinha, eu finalmente consegui chorar tudo o que eu queria desde que o início.
Eu não gostava daquele lugar, era horrível. Nunca tinha gostado, nem quando eu tava do lado seguro da coisa, só assistindo a homens serem interrogados do jeito que só o movimento sabia fazer. Eu sabia como era... Agora que a situação era diferente, só parecia ainda pior. A luz do sol entrava muito pouco, então era gelado, o concreto era pontiagudo e o chão parecia que não via uma vassoura há meses. Espirrei com a poeira em suspensão no ar, passando a mão no nariz. Tava começando a irritar as minhas vias aéreas. Eu podia reclamar? Não, porque podia ser bem pior... aliás, ainda podia ficar bem pior. Me encolhi e me abracei num cantinho, escondendo o meu rosto entre as pernas, juntas na frente do meu peito, numa tentativa de driblar o frio e a poeira.
Apaguei cochilando naquela posição que era lá exatamente desconfortável. Pra recuperar minhas forças, minha mente se focava só nas coisas boas que eu tinha passado ali. Na minha infância, subindo e descendo por aqueles becos, brincando de polícia e ladrão... Do meu primeiro namoradinho da escola, Márcio, depois da vaca que roubou ele de mim... e que depois eu roubei de volta. Eu, ainda com meus quatro irmãos, Douglas, Andrei, Luan e Jean, jogando um banco imobiliário, que tínhamos ganhado num projeto social em um natal, na sala de casa. Todos nós... De cinco, hoje só éramos restavam três. Douglas eu tinha perdido pra uma doença na adolescência e o Jeanzinho eu perdi pra maldade do homem... Eles dois foram anjos na minha vida, eu morria de saudade deles. Deus me recompensou com mais dois irmãos, que foram a minha família além do sangue: Wallace e Dalila. Eles dois me adotaram como o 3° membro da vida deles e, desde que eu me entendia por gente, eles estavam na minha história. Nós 3 tínhamos uma ligação especial... não dava pra explicar.
Veio minha prisão e volta pra cá... Foi quando eu conheci o Barbás, pra continuar falando em ligações que não se consegue explicar. A gente não se deu bem assim de cara, eu sempre fui muito abusada pro gosto dele. O dono da época me botou pra trabalhar na boca que ele gerenciava e ponto final, ele não pôde nem contestar. De tanto arranca rabo, uma hora quis me vingar dele seduzindo ele e deixando na mão... é, deu certo, mas a longo prazo não saiu como eu imaginei. Eu acabei me envolvendo demais naquele jogo. Eu e ele... No começo era tão simples, nós dois sempre tivemos uma química sexual meio explosiva. A gente gostava de foder, tipo, o tempo todo... O engraçado é que nenhum de nós percebeu quando a coisa passou de uma trepada pro famoso 'fazer amor'. Na verdade, eu só notei isso na noite em que a gente casou num barraco escondido no subida da pedra, por não saber se íamos continuar vivos tempo o suficiente pra, talvez, fazer aquilo no futuro.
Lembrei dos nossos votos, com anéis de bijuteria que nem nossos eram, mas que serviram pra simbolizar a nossa perpétua aliança. Olhei pro meu dedo anelar, observando os diamantes brilhantes encravados no ouro amarelo que ele tinha mandado comprar um tempo depois, quando passamos a viver como homem e mulher mesmo. Tudo tinha mudado por ali, eu sabia, mas a minha mente insistia em me dar a impressão de que ainda era o 'dia seguinte'. Não 5 anos depois, 1 dia depois... Como teria sido se o Parma não fosse o merda que era, se o meu pai não tivesse tirado a nossa oportunidade de lutar? Como ia ter sido se nós tivéssemos voltado pra casa e eu tivesse estourado uma champagne e dito "eu sei que você não queria bem ter mais um filho agora, mas eu tô grávida!"? Ele ia ficar em choque e com cara de otário por uns 10 minutos, depois, eu sabia que ele ia ter gostado... Barbás teria sido um ótimo pai pra Maria Ísis.
Certeza que ele ia ter ficado segurando a minha mão no parto e, logo no primeiro problema, ele ia gritar com todo mundo e fazer tudo do jeito dele. Óbvio que eu ia ter terminado num hospital, fazendo uma cesária. Com a doença da Maria, ele com certeza saberia lidar muito melhor que eu... Pragmático do jeito que era, Barbás só ia mandar eu parar de chorar e correr atrás de uma solução com ele. Eu ia chorar mais ele e ele ia ter que me consolar de todo jeito, mas na manhã seguinte, a gente ia até no inferno atrás de saber o que fazer... ele teria doado a maldita medula e eu não ia precisar estar lá...
Entre uma cochilada e outra, eu acordei com meu estômago roncando e a garganta seca. Eu tava com fome e não sabia quanto tempo tinha passado desde que eu tinha chegado ali. Não me mexi do lugar onde eu tava, apesar de uma dor de cabeça chata ter começado a me incomodar bastante. As horas foram passando e eu esperei... esperei... qualquer sinal de que alguém viria. Eles sabiam que eu precisava beber água e comer, né? Ou o objetivo era só me matar seca? Eu não sabia, mas a ansiedade só aumentava a cada ciclo que se passava. Bom, pelo menos tinha o cacete de um banheiro, imundo pra variar, mas um banheiro funcional. Eu vi a frestinha de luz de antes sumiu e entendi que tinha caído a noite. O dia inteiro tinha passado... eu já tinha até começado a aceitar que eles só queriam me deixar ali trancada até quando eu não aguentasse mais, quando ouvi o barulho do trinco. Levantei a cabeça sem sair da minha posição.
— Boa noite, dona. — Um maluco que eu nunca tinha visto na minha vida desceu as escadas com um sorriso de deboche no rosto e mexeu na lâmpada do teto, fazendo ela acender. — Tá do seu gosto as habitação ai? — Riu.
Não respondi a provocação. Aliás, eu não responderia a nenhuma... Eles podiam fazer graça o quanto eles queriam, eu era mais forte que isso. Eu não ia perder a linha e dar motivo pra fazerem maldade comigo. Se fizessem, fariam porque eram uns filhos da puta.
— Gato comeu a língua é? — Continuou, parando na parede da escada. — Mas relaxa que daqui a pouco tu fala, eu sei. O patrão tá vindo ai já já pra vocês conversarem. — Eu odiei o escárnio com qual ele tava me tratando, mas abstraí aquilo da mente. Era crucial me manter focada.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Coração em Guerra
Romanceㅤㅤ"Sou a morte, o diabo, o capeta, a careta que te assombra quando fecha o olho. Sou seu colete à prova de balas, seu ouvido à prova de falas... Eu vou tomar nosso mundo de volta." Djonga ㅤㅤㅤHá 5 anos ela foi acusada de trair o homem a quem ela amav...
