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— Agora, no hospital. Ela vai ficar lá pela primeira semana, pra verificarem como ela vai reagir a primeira dose. Depois, vai ficar com a minha mãe no apartamento dela. — Contei, me curvando sobre a porta. Eu tava igualmente exausta.

— Ela tem leucemia, você falou...

— É. — Suspirei. — Uma daquelas que acomete mais crianças... Como é reincidente, as coisas ficam mais difíceis, mas ela é forte e eu tenho condições de dar o melhor tratamento que tem pra ela. Só tem uma coisa que eu não posso oferecer pra Maria...

— E por que ela tá precisando de mim? — Ele me olhou francamente, segurando um colar de contas vermelhas, brancas e verdes intercaladas, que estava por baixo da sua blusa inicialmente. — Me contaram.

— Ela... o médico que acompanha ela me instruiu a procurar o doador que fosse haploidêntico com ela, já que eu não podia. Você, no caso. — Disse, olhando-o com cautela. — Ela precisa de uma nova medula óssea. Da sua medula.

Ele concordou com a cabeça, não me encarando. Seu olhar mudou de foco um milhão de vezes antes de retornar à mim. Mais uma vez, silêncio sepulcral... aquilo me incomodava tanto, tanto... então fui eu quem o rompi.

— Posso te perguntar uma coisa? — Minha voz não saiu mais que um sussurro. — O que mudou sua percepção? Por que quis me escutar? Ouvir falar da Maria agora?

— Muitas coisas e muito tempo pra digerir. — Respondeu, restituindo o tom seco e impessoal à voz. — Eu ouvi falar de você no Paraguai, sobre o que tu faz e sobre a sua família nos últimos dias... e vamo dizer que alguém de além desse mundo resolveu te dar uma ajuda no assunto. — Suas mãos foram para os bolsos. — Não é que eu acredite piamente em tudo o que tu me falou, mas eu vou te dar o benefício da dúvida, porque se eu realmente tiver uma filha e ela tiver precisando de mim, eu não quero virar as coisas.

Eu fiquei mole. Tipo... mole. Foi uma sensação de alívio tão forte que eu perdi o equilíbrio. Passou por mim como uma sopro divino e eu achei que fosse chorar por me sentir livre daquele medo opressor de falhar com a Maria Ísis. Me agarrei às barras da porta e respirei profundamente, fazendo um prece silenciosa em agradecimento. Obrigada, Senhor, por ser tão justo e bondoso com os pecadores.

— Mas eu quero ver a minha filha. Eu só vou entender plenamente a hora que eu ver a menina. Antes disso... — Falou e a sua voz espinhosa me tirou do único momento positivo em muitos dias.

— Eu sei, eu não quero privar vocês dois disso. — Me apressei em dizer. — É só que a situação é mais complicada que parece, você vai precisar ter paciência...

— Eu quero ver minha filha. — Me cortou pra falar com firmeza. Uma luz vermelha se acendeu na minha cabeça e, no fim, eu não sabia se aquilo era bom ou ruim. Talvez um pouco dos dois... — Não adianta vim aqui e querer jogar na minha cara que nós tivemos um filho, pra me enrolar depois.

— Não, eu não tô enrolando. Só que a situação toda é uma merda, tá? Tô pensando na segurança dela também.

— Faz o seguinte, dá o teu jeito ai. Pensa numa solução. Eu venho depois pra tu me dizer o que fazer. — Falou, passando a bandoleira do fuzil pelos ombros.

Ele deu as costas pra mim e caminhou pra dentro da cozinha dele. Eu fiquei ali, vendo ele se afastar e sumir do meu campo de visão. Eu não sabia o que pensar, eu não tava digerindo direito as coisas que tinham acabado de acontecer. Minha respiração ficou ofegante e eu senti o coração disparar no peito, ansiedade... Fechei as janelas de vidro da porta, querendo ficar sozinha. Deitei na minha cama e me enrolei nos lençóis finos. Ali era frio e aqueles paninhos simplesmente não davam conta... mas eu ia resistir. Tentei procurar meu sono na imensidão daquela noite escura e, ainda que demorado, ele terminou por vir de qualquer maneira. 

Coração em GuerraHistórias para pegar e não largar. Descubra agora