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— Qual seu nome, moça? Tu pode botar na conta deles lá? — Perguntou meio desconfiado.

— Meu nome é Nina, moço. Só falar que foi a Nina que pediu pra colocar que vai ficar de boa. — Disse, sentindo ele meio esquisito. Ele devia ser novo por ali... aquela favela tinha crescido a beça desde que eu tinha metido o pé. Era estranho não me conhecerem, já que eu nasci ali e peguei mototáxi a minha vida toda.

— Vou levar, hein, moça, mas acho que seu nome não tá na lista da galera que pega com a gente que eles pagam lá em cima não. Depois se não assim como tu tá dizendo, eles vão te cobrar. — Disse, já dando partida.

— Uhum, fica tranquilo, o Barbás vai pagar. — Afirmei, pensando se não colocava toda a cerveja e maconha que eu consumisse na conta dele também... ele ia gostar de me bancar essa noite, com certeza. Ele amava bancar puta, pelo visto. 

Muita gente tava descendo pra lá, mais um cado tava vindo lá de baixo pelo que eu tava vendo. Dia de baile motoboy sempre lucrava uma graninha boa, era muita gente pra lá e pra cá. Acho que eu só entendi realmente como o negócio tava lotado quando eu cheguei lá e tive que desembarcar LONGE PRA CARALHO da concentração do baile, porque tava SOCADO de gente. Bem mais do que eu me lembrava... 

— Amigo, antes de tu sair, posso ligar pro meu irmão do teu celular? Eu não vou conseguir achar eles aqui não. — Pedi e ele, meio a contra gosto, tirou o dele da cintura e deu na minha mão. 

— Rapidão ai pra não me atrasar, valeu? 

— De boa. — Disquei muito rapido o número do Wallace e ele atendeu no terceiro toque.  — Cadê vocês, Russo? 

— Porra, cansamo de te esperar na Dalila, olha a hora, Nina. — Respondeu falando tão alto que devia estar quase no viva voz. — Passamo lá no Barbás e não tinha ninguém, viemos descendo pra te procurar. 

— Aí na moral, todo mundo tá querendo me foder hoje, viu? — Reclamei. — E vocês tão onde agora? 

— Tamo aqui na parte de fora da área VIP já. O negócio tá muito de patrão aqui agora, Nina, tu tem que ver, tá bonito demais a laje de agora. — Falou o Russo. — Vem vindo. 

— Caralho, eu vou me foder demais pra chegar aí. Te odeio. — Fervi de raiva. — O pessoal não abre espaço pra mim passar igual abrem pra tu não, Russo, e isso aqui tá lotado... mas deixa que eu me viro. Uma hora eu chego aí, vou me perdendo pelo caminho. 

— Olha lá, hein Nina? Tu não vai me arrumar confusão... 

— Mas eu vou sim. Vocês parecem que pedem por isso também. Até daqui a pouco. — Falei, desligando o celular antes de ouvir o "tchau" dele. — Toma, moço, valeu. 

— Tu é irmã do Russo tu? — Perguntou. — Do Russo gerente-geral?

— Tem outro Russo nessa favela e eu não tô ligada? — Devolvi um pouco da secura com que ele tava me tratando até então. 

Dei minhas costas e deixei ele ir trabalhar sem ir estendendo o papo. Fui me apertando pra passar entre a galera e conforme eu avançava, parecia que a multidão ia ficando mais fechada. Parei na primeira barraquinha e comprei uma garrafa inteira de vodka Sminorff Infusions de melancia e menta, na boca mesmo, nada de copo. Era gostosa demais e ia dar o grau pra eu passar por essa provação, que era atravessar o baile todo a pé naquele formigueiro. 

No começo eu até tava achando ruim, mas depois, conforme eu fui bebendo e passando com o som alto a beça, a música e o álcool foram fazendo os seus primeiros afeitos. O calor da multidão e todas as cantadas que eu fui recebendo no caminho me deixaram muito na vibe. Por que não começar ali mesmo? Fui dando moral pra todo homem que eu via passando de bico ou de pistola por onde eu ia. Alguns eram mais abusadinhos e me puxavam pelo braço. Dancei com alguns, sarrando horrores do jeito que só o funk sabia como embalar. Dei uns beijinhos também, bem no clima gostoso de putaria dos bailes. Antes de qualquer um pudesse avançar algum sinal, eu metia o pé e sumia na multidão. 

Fui avançando aos poucos, ficando no clima com as músicas e sendo puxada de um lado pro outro pelos ousadinhos. Eu tava bonita horrores e ninguém me conhecia, ou seja, ninguém deixava de chegar em mim, era bom demais. Ninguém pra ter medo do meu irmão, ou do Barbás... Paraíso. Parei com umas meninas e fiquei um tempinho maior com elas, dançando umas músicas que eu adorei com elas. 

O couro tava comendo demais por ali, nem acreditei quando cheguei ao largo que era a concentração com minha garrafa quase no final já. A vodka já tava quente e eu não dei a mínima. Cheguei ali já no clima, mas foi aí que eu saquei eu não fazia a menor ideia de onde era e nem como entrar no camarote dos irmãos. Enrolei ali um tempo, terminando de beber meu bagulho e pensando em como eu ia fazer. Quando eu vi um rosto conhecido passando uns metros a diante, eu logo já soube o que fazer.

— Márcio! — Chamei ele, indo atrás e dando uns empurrões pra segurar no braço dele. Eu tinha percebido no dia que tinha chegado que ele, um velho "amigo" meu, tinha virado uns dos seguranças do Barbás que geralmente fazia a guarda do escritório dele na Rua 1. 


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Comprei até um chopp de vinho pra entrar no clima junto com a Nina. Aliás, lembram do Marciano? Só quem lembra do inicinho de Amor na Guerra on. 

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Coração em GuerraOnde histórias criam vida. Descubra agora