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— Porque eu preciso, porra. Eu preciso conversar com você, te explicar o que tá acontecendo porque... — Comecei falando, sentindo o estresse deixas as minhas bochechas quentes.

— Por quê? — Pressionou em um tom tão alto como um grito, que reverberou pelos meus ouvidos. Coloquei os dois braços na frente do meu corpo, mantendo ele distante de mim o máximo possível.

— Porque se não a nossa filha pode morrer. — Gritei pra ele no mesmo tom. Ele parou, eu também. Suas mãos estavam nos meus pulsos de novo, mas não apertaram mais e eu não me debati pra me soltar. Só paralisamos... e eu aproveitei a oportunidade pra explicar. — Porque ela precisa de um negócio que só você, por ter metade do DNA dela, pode dar.

— Você tem metade do DNA dela também. — Disse em um tom de acusação, muito mais suave porém. Ele não gritava mais, o que já era um bom sinal...

— Mas eu tenho púrpura. — Confessei, forçando discretamente pra liberar meus braços. — Controlada, há muitos anos sem sintomas, mas tenho. O que significa que a Maria precisa de você.

Ele fechou os olhos de novo e passou a mão no rosto. Silêncio da parte dele, a mandíbula trancada e o olhar indicava que ele tava claramente chateado, eu não sabia com o que, mas tava. Fiquei longe, enquanto ele socou a parede com um dos punhos, se escorando nela com o outro. Não consegui mais observar ele, tentar decifrar os seus sentimentos pra conseguir me precaver o mínimo, mas sabia que ele tentava se segurar ao seu autocontrole como se fosse uma boia salva-vidas.

— Não dá pra entender, irmão... — Eu não sabia se ele tinha falado pra mim ou pra si mesmo.

— O que não dá pra entender? Nós temos uma filha e ela tá doente... Nossa...

— Nossa filha, nossa filha, nossa filha... — Ele me repetiu, virando de novo na minha direção bruscamente. — Que nossa filha, caralho? — Eu não sabia bem o que se passava na mente dele, mas, mano... ele tava tendo dificuldade de processar aquela informação. Precisava dar algum tempo pra ele.

Não respondi, vendo como ele se movimentava pelo ambiente... como um predador, enclausurado, ameaçado, machucado... Aquilo me restringiu um pouco nas coisas que eu queria dizer. Eu tinha que tentar levar aquilo numa boa, na melhor possível, na verdade. Sabia que eu tinha ferido ele, assim como ele tinha me ferido também... a diferença é que eu tinha tido tempo de pensar e repensar a respeito, encontrar a paz no que aconteceu, ele claramente não. Levei as mãos ao rosto, limpando a umidade dos olhos, antes de cruzar os dedos na frente da minha boca, como num gesto de oração.

Alguma coisa ali captou o seu olhar... no momento seguinte, quando eu o reparei de novo, Barbás me olhava incrédulo e... parecendo meio horrorizado também.

William veio pra perto de mim e agarrou minha mão como uma cobra dá um bote. Certeza que tinha sido atraído pelo brilho metálico do meu anel... a aliança, me dei conta tarde demais. Puxei a mão de volta, enquanto ele lutou comigo pra ver o que eu gostaria muito de esconder. Empurrei ele pra longe de mim, que semicerrou seus olhos, tentando segurar meu pulso de novo, enquanto eu colocava meu corpo entre ele e o meu dedo anelar. De todo jeito eu tentei afastar ele, mas eu sabia que ele tinha visto e agora, queria confirmar aquela informação.

Deu um impulso na lateral da sua barriga pra me liberar do cerco que ele fazia em mim e correr pro outro lado da sala... só serviu pra deixar ele mais irritado. Quando voltou, a brincadeira já tinha acabado pra ele. Barbás, me segurou pelo braço e eu nem tive tempo usar as técnicas que eu sabia pra me soltar, porque ele me bandou e me derrubou no chão no segundo seguinte. Gritei com o susto, usando a mão que interessava à ele pra me defender de qualquer golpe que pudesse vir contra o meu rosto, foi só... instintivo. Eu nem percebi que estava dando exatamente o William queria. No final, os diamante cintilantes ficaram claros pra nós dois e, pela milésima vez, eu vi alguma coisa se alterar na expressão dele.

— O meu anel? Tá de sacanagem? — Perguntou rouco, me olhando de um jeito meio errático. — Você não vale nada.

— Não é seu anel, se fosse, estaria contigo. É meu anel. — Reforcei o 'meu'. Dei um impulso pra cima, irritada por estar jogada naquele chão sujo. Ele não saiu de cima de mim.

— É esse o teu jogo? — Sua voz ficou baixa, muito baixa. — Tu quer me deixar maluco? Quer mexer com a minha cabeça? Desiste, tu não vai conseguir me confundir.

— Vai me acusar de que? De ter vasculhado num caixa empoeirada pra pegar isso aqui e colocar no dedo, só pra ver a sua reação? — Devolvi a ironia. — Eu nunca tirei da porra do meu dedo.

— Ah, que bonito, sua cachorra... — Ironizou, rindo com deboche. — Me dá essa porra aqui. Vou jogar essa porra fora igual eu fiz com o meu. — Ele pressionou o joelho contra a minha barriga pra não me deixar sair no chão, enquanto com a mão agarrou o meu pulso, tentando forçar a aliança pra fora do meu dedo.

— Cachorro é você, porra. Solta a porra do meu anel. É meu. — Reagi tempestivamente, voltando a me debater pra me soltar. Balancei as pernas com força e puxei o meu corpo pro lado. — Me solta, caralho.

Eu tava fazendo um escândalo? Sim e esperava que meu irmão não tivesse lá fora ouvindo aquilo... eu nem queria saber o que tava passando pela mente dele. Barbás colocou a mão livre no meu pescoço, prendendo uma das mãos que eu tinha com o joelho. Cuspi nele com raiva e aquilo fez ele empacar no lugar. A mão do meu pescoço limpou o seu rosto e eu vi ele arqueando o braço pra me bater. Me encolhi de novo, fechando os olhos. O golpe nunca veio, porém.

— Não... Tu não vai entrar na minha mente. Não vou perder a linha contigo, tu não merece nem isso. — Disse, estranhamente sereno. Ele aproximou o rosto do meu. — Vamo fazer assim, tu quer brincar, eu brinco contigo. Por causa dessa graça, vou cortar o tratamento vip da madame. Amanhã no hora do café da manhã, tu pensa bem direitinho nisso que aconteceu aqui. Enquanto isso, eu vou decidir a porra do teu futuro, como tu tentou decidir o meu.

Coração em GuerraHistórias para pegar e não largar. Descubra agora