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[...]


[LARISSA]

O dia começou cedo pra mim. 8 horas eu já tava de pé, porque eu tinha coisa pra fazer e, dessa vez, não tinha nada a ver com a favela. Joguei meu guarda-roupas inteiro no chão pra achar uma roupa mais camuflável na Zona Sul, que não estampasse na minha testa que eu era favelada, ou uma zé droguinha qualquer. A última coisa que eu queria era chamar a atenção quando saía da Rocinha. Essa gente do asfalto da Zona Sul tinha um jeito diferente de mostrar que tinham dinheiro de nós daqui. Na favela, a gente tinha uma identidade própria.

Botei uma calça de moletom e uma blusa branca larga por cima, que eu prendi na barra da calça. Tava bom, vai... Eu parecia aquelas madames desgraçadas, de nariz, que iam correr na orla da praia. Ou era o que eu queria parecer. Eu não tava nem aí também. Se ninguém me olhasse como se eu tivesse fora do meio, pra mim tava 10. Escolhi roupas largas pra poder esconder minha pistola e não dar na cara que eu tava armada por aí. Coloquei um boné na cabeça e show.

Saí de casa e peguei uma carona com um amigo até o Paula Brito. Fiquei na esquina vigiando a casa do Russo, esperando uma certa madamezinha sair dali de dentro. Sabia que era por esse horário que ela ia ver a garota da Marina, eu precisava saber onde era e onde eu podia encontrar o médico dela. Já me precavi pro caso da fresquinha querer dar uma de doida e não me contar onde ia, ou desistir por saber que eu tava na cola dela, sem saber que a própria Nina tinha me pedido aquilo. Assim, eu fiquei com o moto táxi que era meu brother ali atrás de um poste, esperando.

— Olha ela ali. Vai seguindo devagarzinho sem dar pinta, hein?! — Pedi, dando um tapinha no ombro dele. Na espreita, a gente foi indo atrás da garota, que ia descendo a rua apressada até o ponto de moto mais próximo, onde ela pagou uma corrida até a entrada da favela. De lá, a gente ficou esperando ela pegar um Uber. Demorou tanto que até deu tempo de eu ir comprar um coca na padaria. A enrolação era tanto que me deu vontade de pegar um carro, socar ela dentro e obrigar a me mostrar onde tava a menina. Também... a culpa era toda minha por não ter mandando a Nina me dar o endereço direito e ter limitado minha atuação à seguir a irmã dela.

Quando eu tava prestes a fazer isso mesmo, no limite da minha curta paciência, o carro de aplicativo chegou pra pegar ela e nós fomos seguindo. Seguimos a autoestrada, a Delfim, até chegar a Copacabana, onde entrando pra dentro de umas ruas internas de lá, ela parou e desceu. Desembarquei do outro lado da rua, mandando o amigo colocar a viagem na conta da Rua 1. Na surdina, eu fiquei de olho nela, que parou na porta do prédio um tempo, esperando alguma coisa... ou alguém.

Uns minutos depois, um homem chegou. Ela sorriu e abriu os braços pra abraçar ele quando o viu. Foi um negócio rápido, educado, mas eu vi o assanhamento nos olhos dela. Hmm... Ela era baixa, devia ter menos de 1,60 com certeza, só pra comparação com ele, que tinha a altura comum a qualquer homem. Ele tinha os cabelos num loiro meio escuros, parecia um playboyzinho com um sorriso colgate. Se balançasse uma árvore dali de Copacabana ou Ipanema caía uns 3 iguais a ele. Ótimo, se eu me entrosasse com eles, ia passar batida. Eles dois ficaram conversando ali fora um tempo e, quando eu vi que fizeram menção de subir, eu atravessei a rua e resolvi abordar o casalzinho de revista.

— Ou, ou, ou. Pera aí. — Chamei a atenção deles. Dalila arregalou os olhos, me olhando como se eu fosse uma assombração.

— O que que você tá fazendo aqui? — Perguntou, me olhando em choque. — Como...?

— Oi, tudo bom, eu sou a Larissa. — Estendi a mão pro homem. Fui simpática e ele retribuiu sendo mais simpático ainda. Ah, ele era até agradável... e bonito, né? Pudera, eu não era cega.

— Eu me chamo Guilherme. — Ele respondeu, apertando minha mão.

— E você é...? Namorado dela? — Perguntei, apontando pra Dalila.

— Larissa, o que você tá fazendo aqui, cacete? Você... me seguiu? O Barbás mandou você? — A Dalila foi me bombardeando de perguntas, as quais eu ignorei por ora. Primeiro eu queria saber quem era o cara, antes de dar minha costas voluntariamente pra ele. Vai que era polícia, né? Mesmo que ele parecesse frutinha demais pra um policial...

— Ah... não, não. — Ele negou com a mão, rindo meio sem graça. — Nós somos só amigos.

— Aqui é a apartamento da mãe da Nina, né?! — Confirmei minha dedução óbvia.

— É, é sim. Eu sou o...

— Não fala mais nada pra ela, Guilherme. — A Dalila gritou pra ele, se movendo pra entrar no meu campo de visão com os braços cruzados. — Se ela me seguiu, coisa boa não pode ser. O Barbás...

— Não tem nada a ver com o Barbás, meu bem. — Cortei ela pra explicar de uma vez. — A Nina mandou eu vir contigo aqui ver a Maria e conversar com o médico dela. Eu escolhi seguir você pra me poupar dor de cabeça, não fica criando teoria, tá?

O olhar raivoso da Dalila seguiu de mim para o homem que, agora, estava atrás dela, depois pra mim de novo...

Coração em GuerraHistórias para pegar e não largar. Descubra agora