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— Vê agora... — Pedi. — Deixa eu dar elas pra Maria amanhã, quando eu for contar de você pra ela. Deixa vai, você vai jogar fora mesmo. — Eu li em seus olhos o 'por quê?' e resolvi me explicar. — Eu quero que ela se sinta especial. Ela fica triste porque não tem um casal de pais que nem os colegas e me enche de perguntas, quero que ela saiba que foi fruto de um amor enorme. Nada melhor do que as nossas primeiras alianças de casamento pra exemplificar isso. Elas tem uma carga gigante de amor, você sabe...

— Saquei. — Disse em um sussurro e soltou minha mão, voltando a se encostar no braço do sofá. Ele me olhava de um jeito que eu tinha me desacostumado a ver. Era um olhar suave, tranquilo.

— Lembra quando a gente casou no meio do nada com elas? Foi bizarro, a gente tava tão apaixonados... — Sorri com a lembrança. Talvez fosse o álcool que tava acabando com as poucas inibições que eu tinha, apesar de eu não sentir os seus efeitos mais aparentes. Ele me olhou esquisito.

— E com medo de morrer. — Relembrou comigo.

— Mas apaixonados. Por isso casamos, ué... — Dei de ombros e ele concordou com a cabeça. — A gente era tão simples na época. As coisas eram tão ruins que qualquer coisinha nos fazia feliz.

— Verdade. — Concordou comigo, quando eu esperava o silêncio da parte dele. — Se pá eu perdi a capacidade de enxergar a felicidade nas coisas simples... se pá nas complexas também.

— É... — Suspirei, recolhendo minhas pernas pra perto do meu corpo e deitando a cabeça no meu braço, que estava por cima do encosto do sofá. Ele ficou ali fumando o treco dele e eu olhando pra ele de um jeito pouco discreto. O sono vinha e ia embora como em ondas. Eu devia subir e tentar dormir naquela hora, mas eu sentia que se eu fosse agora eu não ia estar aproveitando o tempo que tinha com um William que se parecia o meu William. Amanhã ele ia acordar como a gata borralheira de novo, e não mais como a Cinderela de hoje. O encanto ia acabar antes do sol raiar e, talvez, eu nunca mais fosse o ter tão acessível daquela maneira.

Ele terminou o charuto e se levantou, descartando a ponta no seu cinzeiro ao meu lado. Ele parou bem próximo de mim, a ponto de eu sentir o cheiro dele nas minhas narinas.

— Vem, bora procurar 'sas porras de aliança. — Chamou. Eu ergui os olhos pra encarar ele.

Ele chamou e saiu na frente. Eu fiquei meio chocada que ele tinha concordado mesmo, já que quando eu pedi, eu não tava exatamente esperando que ele fosse aceitar. Talvez fosse meu dia de sorte? Me levantei num pique só, quando ele já tava há uns metros a frente, dando uma corridinha pra seguir ele de perto. Subi as escadas até o 3° andar em silêncio, olhando ao redor do ponto mais alto da casa com curiosidade. Eu só tinha ido até lá uma vez, e me lembrava muito pouco de como se parecia. Ele entrou no quarto, acendeu a luz e foi reto na cama.

Eu fiquei observando seus movimentos da porta, meio incerta sobre sair entrando de um jeito invasivo no quarto dele. Assim que eu olhei para aqueles móveis minha mente me bombardeou de memórias do dia em que eu tive o meu primeiro encontro 'sincero' com ele... O dia que ele encheu a cara pra caralho e disse que sentia minha falta. A gente tinha se pegado de um jeito tão errado naquela bendita noite, que misericórdia... Meu rosto até esquentou de vergonha. Sabia que ele lembrava muito mal, ou quase nada, do que tinha acontecido entre nós ali. Era melhor que continuasse assim, viu?!

Barbás abriu a cama, que tinha um baú embaixo. Famosa cama box. Lá tinha um milhão de caixas, lotadas de coisas, sem qualquer organização. Me aproximei em passos curtos e lentos, olhando pras costas dele.

— Que isso? Tá nesse meio ai...? — Perguntei, meio chocada pelo tanto de coisa.

— São as coisas da casa lá onde a gente morava. — Eu vi ele ficar desconfortável. Li, só pela cara feia dele, que não queria fazer aquilo, não queria remexer no passado pra procurar um negócio que há tempos tinha ficado pra trás. Só que era por uma causa nobre, então, ele faria. Por um momento, eu quis perguntar do que ele tinha medo...

— Putz, e podia ter organizado, né?! Que doidera. — Disse, tendo certeza que o álcool tava me deixando audaz demais. Me ajoelhei na frente da cama aberta, mexendo por cima nas caixas. — Nem sabia que a gente tinha tudo isso de coisa. Doido demais.

— Que organizar, porra... tu acha que eu mexo nisso aí? Tá aí dentro até hoje só porque ninguém quis meter a mão pra ver o que tinha de valor e jogar o resto fora. — Respondeu meio ranzinza. Puxei a primeira delas pra fora e joguei tudo no chão.

— Procurar agulha num palheiro, viu?! — Resmunguei, passando a mão por cima de tudo. Essa parecia ser só de roupas antigas. Encontrei algumas minhas, várias dele também. — Tem roupa sua aqui. Tu não pegou nem elas?

— Não. — Foi uma resposta seca e nem perguntei se ele queria que eu separasse pra ele ver se ainda servia depois. Eu dei de ombros e fui tacando tudo de volta pra dentro da caixa. Não era roupas o que eu procurava.

Coração em GuerraHistórias para pegar e não largar. Descubra agora