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[...]


No dia seguinte eu me vi jogada na cama, com minha filha deitada no meu peito, agarrada na minha cintura. Acordar com ela do meu lado fez o meu coração se encher de paz, de um jeito que há muito tempo não acontecia. Passei a mão pelos seus braços, observando como ela dormia tranquilamente e contando mentalmente quantos dias até a próxima dose dos quimioterápicos. Passei suavemente a mão pelo alto da sua cabeça, até o fim dos fios escuros. Alguns deles ficaram na minha mão... não era uma quantidade grande o suficiente pra dizer que estavam caindo, mas um indicativo que seu cabelo estava ficando mais ralo. Já tinham me dito que isso aconteceria...

Eu só me perguntava quando isso ia acabar.

Maria era uma guerreirinha de primeira. Mesmo nos seus piores dias, ela ainda conseguia ser uma criança alegre. Agora, nós estávamos muito perto de conseguir o que seria, muito provavelmente, a cura dela. A luz do fim do túnel, o 'depois' daquele pesadelo: uma medula compatível. Claro, não era a ideal, mas era capaz de resolver os seus problemas de uma vez por todas. Isso fazia tudo valer a pena pra mim, já era recompensa o suficiente.

Minha missão parecia muito próxima de ser comprida. Mesmo assim, eu sabia que não ia ser o fim da minha luta naquele lugar. Dali, eu ia sair de um dos dois jeitos: limpa, pra poder viver o resto da minha vida no meu estado, ou morta.

A segunda opção chegava a me enjoar... Não que eu tivesse medo da morte, eu não tinha. A Rocinha tinha me ensinado algumas lições importantes nessa vida, uma delas foi entender que ser bandido é conviver com a morte, quase como se ela fosse sua companheira. Você vê seus amigos morrerem, seus entes queridos morrerem, seus amores morrerem e um dia vai ser você. No fundo, por mais que eu tentasse me enganar com um monte de roupas bonitas e títulos estranhos, eu não era diferente de nenhum daqueles que pegavam num fuzil. Na verdade, se eu fosse ser fichada por tudo o que eu tinha feito de ilegal na fronteira, eu provavelmente receberia uma pena 3x, 4x maior que o de qualquer soldado ou gerente da Rocinha. Eu tentava não fugir do que eu realmente era.

...mas eu ainda não tinha feito tudo o que eu precisava, ou queria na minha vida, pra me dar de bandeja pra gente que me queria morta. Já teve momentos que eu achei que essa era a saída mais fácil, que não lutar era um opção, mas eu tava errada. A Maria, ali, quentinha e aconchegada contra mim, precisando da minha força, só me provou o quão maluca eu estava em pensar que o remédio era desistir. Ela reavivou minha vontade de brigar pra provar a verdade. E esse sentimento era um furacão.

Eu era uma pessoa que tinha um monte de defeitos. Era cabeça dura, inconsequente, impulsiva, ousada até muito além da conta, abusada... Mas eu nunca tinha sido covarde.

Apertei a Maria Ísis contra mim, ficando em silêncio com meus pensamentos por mais alguns minutos.

Uma enxaqueca resolveu martelar minha cabeça logo de manhã. Depois que a Maria acordou, eu não consegui mais ficar quieta na minha. Barbás não tava em casa quando nós descemos e eu dei graças a Deus por isso. Depois de ontem, eu não sabia mais como olhar na cara dele.

Ok, eu sabia que a gente tinha feito muito mais que beijar antes, mas não tinha nem de perto tido toda aquela carga emocional da última noite. Tomei umas dipironas e fiquei vigiando a Maria Ísis na sala... pro meu azar, naquele dia ela tava com a corda toda. Não importava o que eu desse pra ela fazer, a bichinha simplesmente não parava no lugar por mais que 10 minutos. Papel, caneta, desenho na TV, nada fazia ela parar no lugar. Eu até queria sair pra comprar uns brinquedos pra ela, mas resolvi evitar arrumar mais problema pros seguranças por ora. Ainda tava meio mal pelo desenrolar que tinha tido com o menino da cozinha...

Depois de um tempo tentando fazer a Ísis parar de fazer um auê na sala, eu desisti e sentei em uma poltrona com as duas mãos na cabeça, sentindo umas pontadas no caralho na nuca. Maria corria de um lado pro outro e eu só prestando a atenção pra não deixar ela subir numa mesa de vidro e se machucar no processo. Depois de um tempo, pra acabar com a minha agonia, a Madalena chegou pra convidar ela pra ajudar no almoço e fez um gesto pra mim ficar no lugar onde eu tava. Foi assim que eu consegui dar mais uma cochilada durante a manhã e só acordei a tarde, com a Lena me perguntando o que poderia dar pra Ísis comer no almoço.

Era um dia simples... Tão simples que eu quase me esqueci de onde eu realmente estava. Depois de comer, subi pro terraço com a Maria Ísis e mostrei pra ela a vista maravilhosa da favela que a casa do Barbás tinha. Todas as casinha, aqueles becos e ruas estreitinhas... tudo aqui tinha uma história. A minha história estava entre elas, marcadas pra sempre naquelas paredes de tijolo vermelho e cimento.

— Mãe, porque o rio ali é verde? — Perguntou, apontando pra rua do valão do lado direito.

— Por que não é mais um rio... é esgoto, amor. Valão. — Dei de ombros. — E aquilo ali, tá vendo? — Apontei para o lixão que ficava nas proximidades, amontoados por cima de latas de recolhimento da prefeitura abarrotadas. — É lixo.

Coração em GuerraHistórias para pegar e não largar. Descubra agora