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"Deixa eu mudar essa nossa história hoje
Vamos ser mais que amor de fim de noite"
— OROCHI


Ele concordou com a cabeça, com um sorrisinho mal disfarçado no canto da boca. Eu não soube imediatamente se aquilo era felicidade ou sarcasmo. Puxei meus joelhos para o peito, abraçando eles e encostando meu queixo para descansar a cabeça. Tava me sentindo muito exposta e aquilo era péssimo. 

— Doeu? Ser sincera, finalmente? — Perguntou

— Óbvio que doeu. — Fiz um "tsc" com a língua, olhando pro outro lado. — Vai achando que é facinho, vai... 

— Mas te matou? — Insistiu, me olhando com diversão estampada na cara. Quase me convenci de que ele não tava contente e sim debochando da minha face. 

— Depende do que você vai fazer com isso agora. — Dei de ombros. — Seja o que for, vai com calma, porque meu orgulho não tá acostumado a ser metralhado não, beleza? 

Ele escorregou uma mão pela minha nuca e eu levantei meu rosto pra olhá-lo. Sua boca se aproximou da minha devagar, seus olhos nos meus e sua mão passando por cima da minha. Will me beijou de um jeito tão lento, que houve vezes que eu achei que estávamos só parados. Cara, aqui era quase como um degustação, era um sensação que não dava pra descrever. Era diferente daqueles beijos vorazes, de domínio, de tesão... 

Era um beijo de carinho, lotado de sentimentos, que pareciam flutuar no ar ao nosso redor. Todas as palavras não ditas, eram contadas num ritmo lento e sensual. Não era só desejo por prazer, meramente carnal. Quase como um encontro espiritual, eu o vi lá parado, no meio do meu caminho, esperando por mim. Porra, como eu tinha sentido falta dele. 

Passei meus braços pelo seus ombros e ele me levantou do lugar onde eu tava, puxando pro seu colo. Coloquei uma perna de cada lado do seu corpo, sentando no seu colo e o encarando com o coração transbordando pela boca. Passei a ponta dos meus dedos pelo seu rosto, entendendo cada pedacinho daquela pele, reconhecendo o meu marido naquele corpo e não o dono do morro que dormia e acordava desejando vingança contra mim. Era ele, o meu William. Sorri por um momentinho somente, deixando que a emoção que eu sentia transparecesse em meu rosto. 

Só por um momentinho mesmo, porque ainda não estava completo. Eu não ia deixar ele fugir assim como ele não tinha me deixado. Nada podia ser deixado subentendido, hoje era a noite de colocar tudo na mesa, às claro. Chega de mal-entendidos nas nossas vidas. 

William foi pra me beijar novamente e, com as mãos no seu peito, eu o parei. 

— Espera aí. — Pedi e ele estreitou seus olhos pra mim, com aquele maldito sorrisinho de canto na boca. — Eu disse como eu me sentia e o que eu queria, da minha parte eu não posso fazer mais nada. É sua hora de decidir o que vamos fazer daqui pra frente. 

— Agora, Marina... — Ele começou, passando os fios de cabelo que grudavam no meu rosto atrás das minhas orelhas. — A gente vai procurar nossa felicidade. 

— Juntos? — Perguntei, querendo ter certeza que era isso o que ele dizia. 

— Juntos. — Confirmou. — Vamo atrás do tempo que a gente perdeu. Viver a vida que a gente quis viver desde o início e que a gente não conseguiu. — Disse com seriedade, enfiando seu rosto no vão entre meu pescoço e meu ombro. Ele cheirou minha pele, passando seus lábios por cima muito suavemente. Me arrepiei com suas palavras e com a sua boca em mim. 

— Então você me... perdoou? — Puxei seu rosto pra cima, pra me olhar. Segurei sua cabeça entre minhas mãos, encarando-o intensamente. 

— Se eu te perdoei? Eu não consegui te culpar pelas coisas que me foderam a cabeça, no final das contas. Adianta de que eu não deixar isso pra lá agora? — Disse, dando de ombros e passando seus braços pela minha cintura. — Eu não queria que tu tivesse me deixado, mas agora não importa mais. É claro que eu te perdoei. 

O alívio tirou a alma do meu corpo e colocou de novo poucos segundos depois. Suspirei, sentindo a moleza me pegar de novo. Encostei minha cabeça no seu ombro, me curvando pra deitar sobre o seu corpo. 

— Você me perdoou? — Foi ele quem perguntou um tempo depois e eu endireitei minha coluna. 

— Eu? Te perdoar pelo quê? — Pisquei os olhos, meio confusa sobre o que ele se referia. 

— Por tudo o que eu fiz você passar até aqui. — Explicou e eu dei de ombros também. Tinha algumas várias ocasiões que ele fez coisas graves contra mim, mas não tinha sido nem de perto o pior que ele podia ter feito. Pelo código do comando, ele podia ter tido minha cabeça a qualquer momento, podia ter descontado toda a sua raiva contra mim logo de cara, e, mesmo assim, eu ainda tava aqui. Sã, salva e nos braços dele. — Eu sei que foi foda pra tu, queria que tu me perdoasse por... tudo, irmão. Tudo o que eu fiz contra você... as vezes que eu te machuquei. 

— Tá tudo bem, acho que eu sempre entendi os seus motivos, ainda que eu morresse de raiva de você em várias ocasiões. — Fiz um carinho no seu rosto, colando minha testa na dele. — A gente pode só recomeçar e esquecer o que passou. 

Ele concordou com a cabeça, se aproximando pra me beijar de novo. Mais uma vez, eu segurei a onda dele, detendo minha boca a poucos centímetros da dele. 

— Você ainda não disse o que eu quero ouvir. — Sussurrei, esperando aquelas palavras. 

— E eu lá vou saber o que tu quer ouvir, mulher?! — Ele se fez de sonso, me segurando e nos virando na água. Senti os jatos quentes da banheira nas minhas costas e ele sobre o meu corpo. Não, ele não ia fugir de mim desse jeito. 

— É claro que tu sabe, até porque eu não posso perder meu tempo sem... — Comecei a imitar a fala dele, mas não consegui prosseguir por muito tempo, porque ele me interrompeu. 

— Tu quer ouvir que eu te amo, não quer? — Perguntou, seus sorriso se tornando sacana. Ele me segurou firme no lugar, dando um beijinho na minha mandíbula. Depois, sua boca subiu pras minhas orelhas. 

— Eu preciso saber. — Disse, sentindo mais um arrepio violento, que fez minha voz sair como um suspiro. 

— Mas não tá claro que você? É claro que eu te amo, porra. Se eu não te amasse, nós não estaríamos aqui agora. — Disse com firmeza, certeza. — Se eu fiz o que eu fiz, se eu zelei pela sua vida durante esse tempo todo, passando por cima da porra toda, é claro que foi por amor. — Ele deu um beijinho na minha boca e mirou seus olhos em mim novamente. — Todas as vezes que eu quis fazer uma besteira, foi esse amor que me parou e que me fez voltar atrás. Todas as vezes que eu me perguntei porque caralhos eu só não acabava com aquilo de uma vez, ou porque eu era tão fraco quando o assunto era você, era porque eu não queria admitir a verdade. Pelo menos agora, eu não preciso mais esconder esse caralho. É um bagulho que tava me sufocando já, pra ser sincero contigo. — Em sua expressão, eu também vi alívio. Will parecia mais tranquilo agora, mais leve. 

O sentimento era mútuo. 

Aquele amor que um dia foi uma prisão pra nós dois, agora era liberdade. 


Coração em GuerraHistórias para pegar e não largar. Descubra agora