Chegamos na casa do Will e ele guardou a moto na garagem. Entramos pela porta de trás e o silêncio absoluto logo na sala me deu uma sensação estranha. Barbás trocou umas palavras com os seguranças que tavam ali e tinham acabado de trocar de turno às 6h. Fui subindo as escadas com passos lentos, sentindo meu corpo pensado e minha garganta seca. Rumei pro quarto que eu dividia com a minha filha e toquei o colchão onde ela não tinha dormido aquela noite... Senti saudades do calor dela, de abraçar seu corpinho e de dizer que a mamãe ia estar com ela, pra protegê-la, até o final dos meus dias.
Fui pro banheiro, querendo tomar um banhão e tirar toda a sujeira de mim. Eu devia estar imunda depois daquela noite longa pra caralho. Desamarrei meu vestido e joguei em um canto do banheiro. Quando levei as mãos ao metal frio do meu colar, Barbás segurou elas no lugar.
— Deixa esse aí. — Falou atrás de mim. Me virei pra olhar pra ele. — Tô ligando a hidro lá de cima, vem.
Dei um sorrisinho de canto pra ele, não conseguindo negar aquela proposta que ele tinha me feito. Segui ele pelada pelo corredor até as escadas e, depois, até o seu quarto. Bom... eu tinha estado ali em poucas oportunidades. Uma quando eu tinha trago ele bêbado pra casa, depois quando procuramos nossas coisas dentro da cama dele, tiveram mais algumas poucas vezes que foram entrada muito velozes ali, sempre com um propósito rápido. Agora eu tava ali num contexto diferente e era estranho...
Estranhamente delicioso.
Fui direto pro banheiro, indo pro chuveiro primeiro, enquanto ele ligava a banheira dele, que ficava no outro canto. A água morninha caiu no meu corpo como uma luva e eu deixei ela lavar todo o resquício das doideiras que eu tinha vivido nas últimas horas. Tudo o que eu queria agora era ficar bem limpinha e relaxar a beça. Eu tava cansada, que a verdade seja dita.
Saí pingando do chuveiro e fui toda pomposa ver a banheira enchendo, com os jatos de água movimentando tudo e as luzes mudando lentamente de cor. Foda... eu tinha uma parecida em casa e eu passava horas bebendo um vinho e alucinando numa música que eu botava na caixa de som. Eu já tinha dito que amava banheiras?
— Abre ali que na gaveta um uns sais e uns negócio pra fazer espuma. Escolhe um ai. — Mandou de dentro do box.
Fui até onde ele tinha indicado, remexendo até achar um de rosas vermelhas e espumante. Fiquei curiosa. Bom, eu nunca tinha experimentado desse antes e parecia bem... romântico? Peguei ele e mais uma espuma pra banho neutra. Joguei um pouco de sal no fundo, até começar a sentir o cheirinho de rosa com um quê a mais subindo. Depois a espuma de banho, que com o agito da água, já começou a subir as bolhinhas.
Me adiantei em entrar naquela água super cheirosa e sentar num canto, com as costas em uma das saídas de água. Maravilhoso...
Barbás veio logo em seguida, pegando um espumante pra ele no frigobar do quarto e uma garrafa de água pra mim. Melhor assim, porque eu já tava começando a sofrer de ressaca. Ele se sentou de frente pra mim, encheu seu copo e ficou olhando pra mim... e eu pra ele.
Não foi um silêncio desconfortável o que se seguiu, pelo contrário. Em muito tempo, foi a situação mais leve que tivemos entre nós. Só eu e ele, sem restrições, sem coisas em abertos. Eu e ele tínhamos tomado decisões importantes e, agora, a sensação que ficava era que a pedra no nosso sapato tinha só sumido. A sensação de alívio, por não ter mais a dor na sola dos pés, era ótima. Ainda sim, as coisas não estavam 100% esclarecidas entre nós.
— Você decidiu acreditar nas coisas que eu te disse? — Perguntei, querendo sanar de uma vez a dúvida que tava rondando a minha mente.
Ele não respondeu de imediato. Barbás se virou, puxou um cigarro e levou à boca, acendendo a ponta com um isqueiro.
— Deixa eu te perguntar um bagulho antes. — Disse enquanto soltava fumaça da primeira tragada pela sua boca. — A resposta dessa pergunta ai muda alguma coisa? Eu acreditar em tu ou não mudou alguma coisa?
— Não sei sobre o julgamento, você confiar em mim ou não talvez não tenha influenciado em nada na sua decisão de ter feito aquela manobra lá pra me salvar. — Murmurei, sabendo que era exatamente isso o que ele quis dizer com as perguntas capciosas que tinha feito. — Mas pra mim, no sentido pessoal mesmo, muda muita coisa. Claro que me importa.
Ele tragou de novo, parecendo pensativo de repente. Seus olhos foram para o alto, para o lado e depois voltaram pra mim.
— Tu me convenceu até certo ponto, pra te falar a verdade, eu acho que tu tá falando em verdade na maior parte do que tu diz. — Falou devagar. — Mas tem muito espaço em branco nas coisas que tu diz, Nina. 5 anos é tempo pra caralho pra tu resumir tudo em 10 minutos de papo. Tu sempre fala da Ísis cheia de detalhes, mas o que tu fazia lá da vida é 3 frases e já era. Tua vida pessoal também. Tu acha que eu não reparo nessas porras?
— Observador pra caralho. — Eu ri, pegando o copo da mão dele pra dar um gole no espumante junto com minha aguinha. — Tinha esquecido que isso era o que tu fazia de melhor quando a gente tava junto, pegar o pessoal no pulo.
— É o que eu faço de melhor ainda. — Murmurou, colocando mais bebida no copo.
— É... — Dei de ombros. — Tem coisa que não dava simplesmente pra te contar contigo querendo me comer viva. — Dei de ombros, lembrando do meu primeiro dia na Rocinha depois que voltei ao Rio. Tinha sido uma merda... só eu sabia a dor que eu tinha sentido dentro daquela sala escura e suja. — Então eu dei uma contornada.
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Coração em Guerra
Romanceㅤㅤ"Sou a morte, o diabo, o capeta, a careta que te assombra quando fecha o olho. Sou seu colete à prova de balas, seu ouvido à prova de falas... Eu vou tomar nosso mundo de volta." Djonga ㅤㅤㅤHá 5 anos ela foi acusada de trair o homem a quem ela amav...
