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Cheguei em casa exausta, mas antes de qualquer coisa passei no quarto da Ísis pra ver se tava tudo bem. Minha mãe seguia dormindo com um braço sobre o corpinho da minha filha. Tudo na mais perfeita paz... Depois que meu coração materno descansou, era a hora do meu corpo. Entrei no quarto do Barbás, notando-o debruçado na sua varanda, fumando como sempre. Fui direto pro banheiro, liguei o chuveiro e deixei aquela água quentinha descer, acalmando cada músculo do meu corpo. Minha mente quase desligou de tão relaxada que eu fiquei com aquele vapor todo me envolvendo. Encostei contra o azulejo branco, fechando os olhos. 

Alguns minutinhos se passaram, até que ouvi a porta de correr do box ranger ao ser aberta e rapidamente fechada novamente. Antes que eu pudesse abrir as pálpebras, Barbás entrou com tudo embaixo do chuveiro, quase me atropelando no caminho. Ele enrolou os braços com redor do meu corpo, me puxando pra junto dele embaixo d'água. Sem dizer nada, enterrou seu rosto no vão entre meu pescoço e o meu ombro, curvando seu corpo. 

Suspirei pesado, pelo susto e pela surpresa, mas não demorei a passar meus braços pelos seus ombros e o apertar contra mim, com uma mão em sua nuca. Ele ficou parado e eu também também, com nossas respirações compassadas, encontrando conforto nos braços uns dos outros. O tempo passou sem pressa, arrastando-se por vários minutos que pareciam nunca ter fim. Fiquei muito puta comigo mesma por precisar interromper aquele momento, quando minhas pernas cansadas começaram a falhar.

Empurrei um pouco os ombros dele, que se afastou pra me olhar. Me apoiei na parede atrás do chuveiro, ao lado dele. 

— Eu tô exausta. — Confessei, passando a mão no rosto. — Meu corpo, minha cabeça, meu coração. Eu tô muito cansada. 

Ele desligou o chuveiro e se virou pra mim, ainda sem dizer nada.

— Eu quis fugir. — Contei pra ele como eu me sentia, o que estava no meu coração, ainda que eu não tenha contado o que meu corpo fisicamente foi fazer. — Quis escapar de tudo isso por umas horas, eu... não consegui lidar bem com o fato de você ter se afastado, apesar de eu não te culpar por isso. Precisava de um tempo longe de tudo isso pra relembrar quem eu sou e da força que eu tenho. 

... pra lembrar que eu ainda era a Índia. Traficante. Contrabandista. 

Ele seguiu em silêncio, mas pegou minha mão e me guiou pra fora do box. Se enxugou com muita rapidez e, depois, fez o mesmo comigo em um ritmo muito, muito lento. Ele passou a toalha pelo meu corpo quase como uma adoração muda ao meu corpo, ainda que não tivesse nenhuma maldade, nenhuma sexualidade naquele gesto. Seus olhos ocasionalmente passavam pelos meus de maneira fugaz.

— Eu te amo. — Ele disse em algum momento. Meu coração disparou no peito e eu pulei no pescoço dele, o abraçando mais uma vez. Cheirei a sua pele cheirosa, escura pelos desenhos da sua tatuagem... Beijei o seu ombro, seu clavícula, parei próximo ao seu ouvido. 

— Eu também. — Sussurrei e me afastei alguns centímetros pra encarar os seus olhos. — O tempo não volta, mas eu... eu quero passar o resto da minha vida com você. — Confessei-lhe, erguendo um dedo e passando sobre a mancha escura embaixo dos seus olhos. — Tu não dormiu essa madrugada?

— Eu tô tão acabado assim, caralho? — Perguntou em um tom baixo, passando a mão pela lateral do meu rosto. 

— Tá. — Ri, lentamente caminhando para fora do banheiro, em direção à cama quentinha e cheia de lençóis que tava esperando a gente. Fechei as cortinas do quarto, deixando um escurinho agradável e liguei os abajures pra dar um ponto de luz. 

Barbás já tinha se jogado na cama e ligado a TV, deitando daquele jeito esparramado com as mãos atrás da cabeça de sempre. Sentei do lado dele e fiquei olhando pra sua cara. 

— Eu quero te perguntar um bagulho. — Falei, quando ele ignorou meu olhar. 

— Eu também quero te perguntar um monte de bagulho, mas eu tô te dando uma oportunidade de ir dormir e descansar. — Respondeu do seu jeito carrancudo de sempre. — Aproveita aí, vai...

Eu tentei. Juro que eu tentei. Até deitei do lado dele e o abracei pela lateral do corpo... mas minha mente tava trincando. Eu só conseguia pensar em como eu ia abraçar o mundo todo com os meus braços pequenos. Porra, era muita responsabilidade. 

Nos próximos dias eu tinha que salvar a porra das minhas favelas e garantir a segurança do Barbás e da minha filha. E eu não sabia nem por onde começar... 

Sobre Rio Comprido, eu só conseguia pensar em uma pessoa com um plano inteligente e pé no chão que poderia resolver a situação do complexo de lá a tempo de eu conseguir focar no problema da minha família. Uma pessoa reconhecida no nosso meio por ser um puta de um estrategista... 

— Will, assim... hipoteticamente, o que você faria se tu tivesse um lugar, assim, que tu tivesse brigando pra conquistar, sabe? E que tu tá em desvantagem numérica e que a pessoa que tá lá conhece o lugar bem melhor que você... — Ele estreitou os olhos e virou o rosto pra mim. — Tá acompanhando meu raciocínio? Vem comigo, vem comigo... Apesar da desvantagens, você consegue descobrir onde tá a pessoa dentro do território que você quer conquistar, é o único trunfo que você tem. Como usar isso a seu favor, se você tá em desvantagem numérica? 

É, eu tava pedindo a ajuda dele da maneira mais deslavada possível. Tecnicamente eu não precisava que ele me apoiasse nisso, por muitos anos eu me virei sozinha... mas sinceramente? Eu não queria ter que passar por isso sem ele como meu aliado. Nós dois tínhamos qualidades diferentes no que diziam respeito aos nossos "negócios". Ele era cabeça, eu coração.

Eu queria que ele desse a ideia que eu executaria... e essa era a decisão mais racional que eu poderia pensar naquele momento. É claro que isso ia levantar todas as suspeitas do mundo na mente dele. Abrir a verdade pra ele seria a consequência.

Coração em GuerraHistórias para pegar e não largar. Descubra agora