— Fraco é você. — Gritei pra ele, me sentindo completamente descontrolada emocionalmente. Eu via ele desviando os olhos o tempo todo para o lado e aquilo me incomodou. Ele não tava me levando a sério, mais uma vez, ele não tava me vendo como alguém à altura dele. Arrogante, prepotente, filho de uma puta...
Enquanto nós estávamos concentrados em ameaçar a vida um do outro, compartilhando aquele sentindo intenso de raiva mútua, nós ouvimos um choro. Um choro de criança. Me levantei o mínimo pra conseguir enxergar a silhueta pequenina na porta. Os olhos do Barbás se arregalaram, notando a menininha chorosa e assustada, com o rosto vermelho e com o desespero visível nos olhos. Maria estava parada na porta, nos observando e chorando, gritando, me chamando... Aquilo me desarmou por completo e, pelo olhar dele, tinha o desarmado também.
— Mãe... — Murmurou a minha menina, com a voz aguda pelo choro. A nossa menina...
Um misto de sentimentos me arrebentou por completo, eu perdi a sustentação no braço e caí de costas no tapete da sala. Olhei pro teto por alguns momentos e apertei os olhos, em menos de 3 segundos depois, eu já tava me erguendo nos meus joelhos novamente, pra olhar de novo pra porta. Ela continuava lá, parada de pé com uma expressão chorosa no rosto, coçando os olhos para limpar as lágrimas de vez em quando. Por um momento, a adrenalina não me deixou crer que era ela ali realmente. Eu tive que me levantar e ir na direção da menina, esticando meu braço o tanto antes quanto pude pra tocar o seu corpinho. Passei minha mão pela cabeça dela, acariciando os cabelinhos agora mais fininhos do que eu me lembrava, o rostinho quente do choro e a mãozinha, que agarrava o meu pulso com força, conforme eu me certificava que ela não era um sonho provocado pelo meu desejo de ter ela comigo de novo, em segurança.
— Mamãe... — Ela choramingou pra mim e veio na minha direção, envolvendo meu pescoço com as mãos.
— Ô, minha filha... — Ali eu não consegui nem segurar mais nada, livremente minhas lágrimas escorreram pelo meu rosto, como as dela. No meu peito, o alívio que me varreu, quando eu senti o calor dela contra mim, foi tão forte que eu achei que fosse desmaiar. O peso de mil quilos que estava nas minhas costas, o medo aterrador, sumiu de repente e a saudade, talvez o mais cruel de todos os sentimentos que eu vinha suportando nas últimas semanas, se dissolveu dentro de mim.
Atrás, na porta, apareceu a Larissa. Ela tava meio ensanguentada, mas parecia se manter bem nos dois pés. Wallace, Dalila e Túlio foram os outros a quem eu pude imediatamente reconhecer. Todos estavam ali, bem... tinham trago minha menina em segurança de volta pra mim. Eu tinha uma dívida de vida com eles agora.
Envolvi ela com meus braços e ela deitou a cabeça no meu ombro. Olhei pra Larissa com a maior gratidão do mundo, a gratidão de mãe. Eu sabia que ela ia entender aquele sentimento, afinal, era a maternidade aquilo que nós duas tínhamos mais em comum desde sempre. Era o que tinha nos aproximado em primeiro lugar. Com o braço livre, eu passei pelos ombros dela sem pensar muito naquilo. Era o abraço de quem jamais poderia pagar o que ela tinha feito por mim. Ela estava daquele jeito porque tinha estado lá, não tinha ignorado meu pedido e, mesmo sem querer, tinha salvo a vida do meu amor.
— Minha mãe, meu irmão... — Perguntei sem nem completar a sentença, quando a larguei.
— Tão na casa do Douglas, todo mundo tá bem. — Garantiu ela, com a voz anasalada e a respiração ofegante. Barbás apareceu no meu campo de visão e abraçou ela também, com força. Eu notei que, naquele gesto, ele tava querendo dizer a mesma coisa que eu anteriormente.
— Obrigada. — Verbalizei os nossos pensamentos, apertando mais ainda a minha menina contra o meu corpo. Ela respondeu puxando de levinho os meus cabelos. Me senti mole, me senti exausta, me agarrei à Maria Ísis como se ela fosse minha tábua salva-vidas. Sempre tinha sido assim, no final das contas. Desde eu vi minha família perfeita desmoronar diante dos meus olhos, eu era uma mulher ferida, cheia de demônios do passado... e a Maria era a minha redenção.
Barbás, Dalila, Wallace, Larissa e Túlio trocaram algumas palavras, mas a atenção absoluta do William era em nós duas. Ele olhava de relance para os outros participantes da conversa, mas era óbvio que ele não tava ali de verdade... e caramba, como ele estaria também, né?! Em algum momento o nosso olhar se cruzou e, em silêncio, eu consegui compreender o que ele sentia sem dizer uma só palavra. Mais que curiosidade, muito mais que dúvidas, eu vi algumas certezas nos olhos deles. Vi vontade. Ele queria a Maria, de verdade. Ele teria babado tanto ela, se tivesse tido a oportunidade de pegá-la no colo quando nasceu.
— A gente vai deixar vocês três ai sozinhos. Eu e o Russo temos umas coisas pra resolver, vamo deixar a Dalila em casa... — Larissa entendeu. Ao passo de que foi explicando seus prováveis próximos passos, ela foi empurrando discretamente todos os outros pra fora. — E o Túlio vai ter que catar batata não sei onde, né não?! As coisas dela tão com a sua mãe, Nina, depois só mandar ir buscarem lá no DR, valeu? Brasil! Força e boa sorte aí, família. — Atropelando a gente com as palavras apressadas, ela saiu e fechou a porta atrás dela. Ficamos ali, só nós. Eu, ele e a prova concreta de que um dia nós já tínhamos sido tudo um pro outro... Eu, ele e a prova de que o nosso amor já tinha realmente existido. Às vezes era difícil lembrar do quão longe nós dois tínhamos chegado...
Suspirei, devolvendo o olhar fixo dele. Nós dois ficamos nos olhando por muito, muito tempo. Era uma conexão de dúvidas, medos e incertezas. Como eu faria aquilo? O que faríamos agora? Como seriam as coisas dali em diante? Aquele ponto... aquele exato momento era um ponto de ignição. As coisas jamais seriam as mesmas novamente. Era o ponto que mudava muito, mudava tudo.
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Coração em Guerra
Romanceㅤㅤ"Sou a morte, o diabo, o capeta, a careta que te assombra quando fecha o olho. Sou seu colete à prova de balas, seu ouvido à prova de falas... Eu vou tomar nosso mundo de volta." Djonga ㅤㅤㅤHá 5 anos ela foi acusada de trair o homem a quem ela amav...
