07, 08

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[...]



Eu dormi muito pouco aquela noite. Quase 6h da manhã, eu desisti de tentar dormir e fui passear pelo lado de fora de casa. Ver o galo cantar, o sol nascer e sentir o ar gelado do inicio da manhã, junto com o orvalho que deixava a grama molhada não tinha preço. Esse silêncio... Essa paz... Isso tudo era muito diferente do lugar de onde eu tinha vindo e que, agora, parecia estar me chamando de volta. O Rio era como um coração, pulsava agitado, rápido e forte. Uma cidade grande de verdade, para bem ou para o mal. Claro que às vezes eu sentia falta da vida que minha terra exalava, o bucólico nem sempre era assim tão agradável, na verdade, podia ser bem tedioso. Mesmo assim, eu tinha certeza que sentiria saudades dessa calmaria quando ela se fosse. Não sabia se eu estava pronta pra abrir mão da tranquilidade que eu tinha na vida ainda... Só que, feliz ou infelizmente, a minha filha vinha primeiro que os meus desejos. Eu tinha que me resguardar pra qualquer um dos quadros que pudessem vir a acontecer. Além disso, o Centro Oncológico do Rio era infinitamente melhor do que o daquele fim de mundo. Lá estava a cura dela, eu sabia. Cabia a mim correr atrás disso.

Além do mais, não era só ela também. Com o Carlos doente, o risco do império dele colapsar eram enormes. Ele já vinha perdendo uma parte significante das suas favelas nos últimos anos, quando soubessem que ele estava com os dias contados, seria o fim. Ele, logo ele, que era um dos nossos principais clientes. Se tudo o que o Mandarim tinha conquistado se fosse, as coisas ficariam complicadas até mesmo pra nós. Nos últimos dias minha mãe andava me ligando, pra tentar me convencer a ir até lá pra me entender com ele uma última vez e assumir o que ele ia deixar, pelo menos pra colocar ordem nas coisas. Eu me recusei muitas e muitas vezes... agora, talvez, fosse a hora de aceitar.

Se o meu passado ainda tava mal resolvido dentro de mim, eu ia ter que dar um jeito de resolver. Ali, olhando uma última vez pra grande pradaria que era o meu sítio, eu bati o martelo. Eu ia voltar para o Rio de Janeiro... O momento havia chegado, não dava mais pra negar ou fugir. Tava na hora de encarar as coisas de frente.

Voltei pra casa e, mais tarde naquele dia, reuni mais empregados e avisei que me mudaria temporariamente para o Rio. Alguns deles eu remanejaria para o sítio do lado, da minha família, que era a sede do nosso negócio. Os outros, especialmente as babás da Maria, eu ofereci para me acompanhar nessa empreitada em troca de, claro, um aumento salarial. Embora uns tenham dado pra trás, Patrícia e a Yená aceitaram vir comigo. Por mim era o suficiente.

Depois, liguei pro Rogier, meu tio, propondo o que ele há um tempo desejava: uma troca de posições. Ele vinha liderar o nosso negócio aqui do Paraguai e eu ia pro Rio, dar um jeito nas coisas por lá. Com tudo acertado com ele, foi vez de ligar pra minha mãe e avisar que eu finalmente faria o que ela queria, que era voltar, mas pedi que mantivesse isso em segredo absoluto de qualquer outra pessoa.

Naquela manhã, eu comecei a arrumar minhas malas. Não tinha tempo pra perder, então, planejei viajar no dia seguinte mesmo, já que, como seria de carro, levaria alguns bons dias até chegar lá. A noite, eu fui me despedir dos meus familiares e funcionários, foi horrível, porque eu odiava dizer tchau pra quem quer que fosse. Com eles, pessoas que me acolheram durante tantos anos, foi pior ainda. Eles choraram, eu chorei, foi péssimo... no final, eu prometi que seria só por um tempo e isso pareceu acalmar o coração deles.

No dia seguinte, logo pelo fim da manhã, eu partiria junto com o carregamento do mês, para o meu estado natal. Só esse pensamento já me tirava de órbita.


[...]



E era uma viagem difícil. Aviões fariam a Maria se sentir mal, além disso, era melhor que eu não ficasse dando pinta pra polícia em aeroporto. Não que eu fosse procurada, ou algo do tipo, mas sabia que a inteligência do governo marcava em cima de quem atuava nas fronteiras. Era melhor deixar isso quieto e ir pelas estradas mesmo, aproveitando pra escoltar o meu carregamento até o seu destino. Era um dia inteiro dentro de uma carro, até a bunda ficar quadrada mesmo, uma merda. 18 horas vendo estradas era de foder a sanidade de qualquer um, por isso, eu nem me atrevi a dirigir. Um dos meus motoristas, que levava a minha droga, foi quem conduziu o carro e assim fomos.

Maria e eu fomos dormindo todo o início do caminho, até mais ou menos meio dia. Quando eu acordei, já estávamos em São Paulo. Mediquei ela com os antibióticos que o Guilherme tinha receitado e ela ficou quietinha, enquanto eu comecei a contar qualquer coisa do lado de fora que me distraísse. Eu tava preocupada. Muito. Primeiro com a Maria, apesar de saber o tratamento que ela poderia receber numa grande capital era muito superior ao que Foz do Iguaçu poderia oferecer pra ela. Depois, era com os meus negócios. Enquanto eu tivesse fora, os meus primos e tios teriam que administrar aquilo sozinhos, até a chegada do meu substituto que entendia o que tava fazendo, o Rogier. Eu tive pouco tempo pra preparar eles pros dias sem mim, mas antes de sair, deixei um caderno com todos os meus números de telefone e instruções MUITO claras do que eles deviam fazer pra manter a coisa toda funcionando.
E bom, não parava por ai. Fazia 5 anos que eu não pisava no Rio, então, tudo o que eu tinha de notícia era pelas ligações da minha mãe e dos meus irmãos de coração, Dalila e Wallace. Mesmo assim, eu tinha noção que não sabia de nada como estavam as coisas por lá... só que aqueles tantos anos deveriam ter mudado tudo o que eu conhecia sobre aquela cidade. Eu tava ansiosa por rever tudo, rever todos, colocar meus pés na areia da praia e ouvir o barulho do mar. Sentia falta de tudo isso, claro, foi o lugar onde eu vivi a maior parte da minha vida.

Ainda sim, eu tinha medo. Eu tinha deixado coisas demais pendente naquela cidade... muitos mal-entendidos que não fiz questão de explicar...

No meio do caminho, eu notei a Maria meio cansadinha, meio ofegante, então, acabei colocando ela no oxigênio. Ela sempre parecia melhor depois de passar um tempinho respirando um ar mais puro, era o que mais funcionava pra ela. Poucos minutos depois, ela já estava mais falante que antes.

— Como é lá, mamãe? — Ela murmurou baixinho pra mim. Passei a mão nos seus cabelos, ajeitando a catéter nasal.


— É... bonito. Tem praia. Você não disse que queria conhecer uma praia? — Perguntei.

— É. — Ela ficava amuadinha sempre que ficava doente. O catéter fazia ela se sentir melhor, enquanto a gente ia tratando do jeito que podia.

— É onde mora o tio Wallace e a tia Dalila. Você não gosta deles? — Sabia que aquilo ia animar ela de alguma forma. Ela concordou, com um sorrisinho no rosto e se enrolou numa bolinha no meu colo, voltando a dormir.

Coração em GuerraHistórias para pegar e não largar. Descubra agora