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Will me deu a primeira blusa que ele viu na frente do seu guarda-roupas. Eu vesti e caiu como um vestidinho em mim... era o suficiente pra eu descer até meu quarto e ir me trocar. A Ísis acabou querendo ficar com o Barbás, o que acabou me despertando uma pontada de raiva. Meu orgulho de mãe ficou feridíssimo quando eu a chamei pela mão e ela disse que ia descer com o pai dela. COMO ASSIM A MARIA ÍSIS TINHA PREFERIDO A COMPANHIA DO PAI À MINHA?

Mas beleza... Tranquilo. Pelo menos eles tavam se dando bem, eles mereciam se curtir um pouquinho, depois de todo o tempo que perderam da vida um do outro. Era só bobeira minha, ciúmes porque eu tinha tido a atenção integral dela por cinco longos anos e agora tinha que dividir isso com o Will. No fim, eu sabia que ia me acostumar com ele na vida dela... e na minha também. Meu coração, apesar de receoso, tava pronto pra receber ele de volta, de braços abertos e com direito a festa de comemoração.

A gente acordou no susto e não teve tempo de conversar sobre ontem. Além disso, ainda tinha um detalhezinho que eu tinha deixado passar pra um momento mais oportuno: a questão das minhas favelas. É... eu e ele ainda tínhamos muito o que falar, muito o que definir e decidir juntos. No fundo, eu ainda tinha medo de que tudo o que fora dito nas primeiras horas daquele dia tivessem sido só um surto por causa da saudade e da nostalgia. 

Da minha parte era verdade, eu amava ele mesmo. Esperava que da dele também fosse. 

Joguei uma água no corpo rapidão e coloquei um vestido soltinho amarelo, bem florido, sem pensar muito em me arrumar. Queria saber o que tinha trago o Guilherme até ali, minha curiosidade tava me arrebentando por dentro... tava em pânico que pudesse ser algo ruim sobre a saúde da Ísis. 

Eu já tinha passado por aquilo tantas vezes... Ele me ligava, ia até mim com uma pilha de papéis e me dizia, com palavras bonitas e suaves, pra não me assustar, que minha filha tava morrendo. Era péssimo, todas as vezes que ele vinha trazer alguma notícia sobre sua saúde, sobre o câncer, sobre alguma infecção, algum problema que podia levar ela de mim. Por mais preparada que eu tivesse, ainda sim era muito duro ter que encarar aquilo tudo e ainda permanecer forte pra apoiar ela. 

Desci as escadas correndo e no meio do último lance de escadas, encontrei o Barbás descendo com a Maria no colo. Ela parecia muito feliz de ser carregada por ele, porque eu sempre dizia que não ia mais ficar pegando ela, que já tava muito pesada pra isso. O que eu podia fazer se minha coluna não aguentava mais ela, né? Mesmo assim, aos meus olhos, ela seria sempre a minha bebêzinha. 

— E aí, Larissa e doutorzinho. Vieram tomar café da manhã nessa porra? — Na mão dele, eu vi uma pistola, que ele desavergonhadamente carregava, colocando um pente no seu corpo. O barulho metálico do pente no corpo da arma ecoou como uma ameaça velada aos presentes. Por que ele tinha que ser assim tão hostil? 

— Já é 5 da tarde, Barbás. — Larissa avisou, batendo um pé no chão. — Tu que dormiu mais que a cama aí, mas também, né? Que noite agitada. — Ela provocou com um risinho. — Dona Nina, tá até coradinha. Temos um final feliz por aqui?

Sorri pra ela, sentindo meu rosto ficar quente. Parei do lado do Barbás e coloquei uma mão por cima da dele, segurando a pistola. 

— Guarda aí, vai. — Pedi baixinho, falando no ouvido dele. Sabia que se eu gritasse e surtasse com ele na frente da Larissa e do Guilherme, ele ia ficar muito mais hostil ainda. — Tem pra que isso não, ainda mais na frente da Ísis. 

Ele me olhou carrancudo e engoliu em seco. Óbvio que ele tava fazendo uma tempestade num copo d'água, o Guilherme não era nem de perto ameaça pra ele... Meio a contragosto, vi ele colocar a pistola na cintura e tampar com o blusa, ajeitando a Ísis no colo pra ela não ficar perto da arma. 

— Fala aí o que que tá rolando. — Will começou a falar. 

— Alguma notícia da Maria, Gui? Ela disse que você queria falar comigo. — Apertei minhas mãos uma contra a outra, estalando os dedos. Eu tava nervosa e ele me olhou com compaixão. Só eu e ele sabíamos o quanto era sofrido aqueles momentos, o quanto eu ficava apreensiva e ele sentindo a impotência de não poder fazer nada além de dar murro em ponta de faca atrás da cura de uma doença cruel. — Aliás, você... tá tudo bem contigo? 

— Tá tudo bem, Ninão. Só tô meio roxo aqui no abdômen, mas tá tudo certo. Tô bem vivo. — Ele tinha um ar cômico até naquele momento. Gui, passou a mão pelo próprio corpo e fez um sinal de "ok". Seus olhos não miraram o Barbás em momento nenhum e eu entendi bem o motivo. — Sobre a Maria, eu trouxe notícias sim. O pessoal do hospital tava tentando falar comigo ontem o dia todo, saíram os últimos exames dela

Gui balançou um envelope pardo na minha frente e se aproximou alguns passos pra me entregar. Eu o segurei nas mãos, sentindo elas tremerem um pouco e meus olhos tremelicarem de nervoso. Medo... tanto medo. 

— O que que eu vou encontrar aqui, Gui? — Desisti de abrir no meio do caminho, sabendo que eu não ia entender porra nenhuma do que tava escrito naqueles negócios. Uma lágrima teimosa escapou dos meus olhos e eu limpei rapidão com as costas da mão. — Eu tenho que tirar ela daqui pra gente conversar? — Perguntei, sabendo que se fosse algo ruim, ele ia pedir pra ser algo mais particular. Guilherme sempre teve todo o cuidado de passar pra Ísis só as coisas boa sobre o tratamento dela. As ruins era eu, a adulta, quem tinha que lidar. 

— Aí tem os hemogramas, totais e de sangues periféricos, além de umas citometrias e a última biopsia de medula dela. — Explicou longamente e eu fiz um sinal com a mão pra ele cortar os termos técnicos e ir direto ao ponto. — Você ainda vai precisar passar naquele nosso colega oncologista pra confirmar isso, mas pela minha análise, ela já tá apta pra começar o processo do transplante. 

Coração em GuerraHistórias para pegar e não largar. Descubra agora