129

1.9K 130 3
                                        

Senti o gosto da saudade na minha boca. Fiquei até meio calada quando a gente parou por lá, a Maria até estranhou, o Túlio ficou calado, enquanto eu observava a fachada da casa. Ela tava diferentassa, tipo... a cor das parede estavam num verde chamativo que nunca teria combinado com a personalidade do Barbás da época. Ele gostava de tons neutros, se eu bem me lembrava.

— Nessa casa aqui, Maria, sua mãe morou com seu pai. Né não, Nina? — Túlio me deu um empurrãozinho, quando eu travei.

Maria me olhou em expectativa, depois pra casa.

— O que ele fez com a nossa casa, Túlio? — Perguntou, suspirando profundamente.

— Vendeu. As outras que ele tinha aqui na favela, ele botou pra alugar, essa ele quis vender. — TK deu de ombros e eu entendi.

— Mamãe...

— É isso, filha. Foi aqui que a gente encomendou a cegonha que trouxe você pra gente. — Contei, sabendo que eu estava segura o suficiente pra contar aquela mentirinha pra ela. Ela era jovem demais pra saber de onde vinham os bebês de verdade.

— Sério, mãe?

— É, filha. Eu e o seu pai, a gente namorou e eu me mudei pra casa dele, praticamente. — Contei, fazendo um carinho no cabelo dela. — E depois a gente casou... Túlio, tem como subir pro Paula de novo. Tu sabe onde é a casa que era da família dele?

— Tô indo já. — TK manobrou o carro pra sair da nossa rua e seguir pela principal.

Lá não dava pra chegar de carro, então, em determinado momento a gente desceu e andou um cado. Fiquei preocupada com a possibilidade de estar expondo a Maria à infecções, já que a imunidade dela ficava baixa durante o tratamento, então, eu tratei de ir pelo caminho mais longo e evitar becos muitos estreitos, ou que passassem muito perto de valas e depósitos de lixo.

No final, nós chegamos lá.

— Aqui eu casei com teu pai, filha. — Contei, passando a mão na porta de pintura preta lascada, com a aparência de abandono. Ele realmente não gostava desse lugar.

— Mas e... — Ela achou o lugar esquisito, é claro. Todos os casamentos aos quais nós tínhamos comparecido tinham sido em igrejas, depois em sítios ou salões bonitos... nunca numa casa escondida entre um monte de becos.

— É que foi especial. — Dei uma risadinha, colocando a mão nos bolsos e tateando as duas alianças que eu tinha feito questão de pegar. Sentei na escadinha que tinha na frente da porta e mostrei elas duas, em par, pra Maria Ísis. — Eu sei que não parece grande coisa, mas elas são muito valiosas pra mamãe.

Ísis sorriu pra mim, piscando os olhinhos brilhantes. Eu amava aqueles olhos de jabuticaba.

— Eu e o seu pai casamos aqui e essas... — Balancei elas, ouvindo um tilintar muito sutil. — ...foram as nossas alianças. Cê sabe o que é, né?! Aquele negócio que as pessoas casadas...

— Eu sei, eu sei, mamãe. — Ela bateu o pé no chão.

— Eu... — Perdi as palavras por um momento, olhando os anéis na palma da minha mão, bem ali naquele lugar. Eu consegui sentir toda a tensão e o medo daquele noite, que tinham inspirado o nosso casamento no meio de um ambiente tão hostil. Eu e ele vivíamos por isso: pela adrenalina. O sangue corria quente nas nossas veias e todos os dias era um um 'tudo ou nada'. Seria um pecado dizer que eu sentia saudade daquela época? Até das coisas que era ruins... — Eu só queria que você entendesse o quanto esses anéis e essa casa são cheios de amor. A cegonha mandou você pra gente porque eu e seu pai nos amamos demais... — Passei a ponta dos meus dedos pelo rostinho dela. — Muito mesmo. Você é amor, Maria Ísis. Você, com esse seu cabelinho e esses seus olhinhos pretos, é toda feita de amor. 

Ela sorriu envergonhada e eu senti a felicidade irradiando dela. Maria correu pra se jogar em mim e eu abracei minha pequenininha.

— E eu te amo demais, princesa. Você é o meu coração todinho. — Ri, sentindo o cheirinho dela, que apertou meus pescoço com os bracinhos. Encostado do outro lado, o Túlio fez um joinha com a mão, me olhando em aprovação com um sorrisinho no rosto. Ele era um anjo.

— Eu te amo também, mãe. — Falou com a vozinha estridente pela empolgação.

— Quer guardar isso aqui pra mamãe? — Perguntei, oferecendo as alianças pra ela.

— Quero. — Disse, já esticando a mão pra pegar.

— Pera, pera... Que pressa. — Fechei os dedos ao redor dos objetos. — Primeiro promete que vai guardar com carinho e vai cuidar delas pra mim.

— Prometo, prometo. — Impaciente... Eu ri com ela, abrindo vagarosamente os dedos. Ela pegou os anéis e testou nos próprios dedos, que era pequenos demais até para o que cabia no meu dedo.

— Eu tenho que voltar pro meu posto lá, Nina. — O Túlio se pronunciou um tempo depois.

— Eu sei, desculpa estar te atrasando... — Me levantei, pegando a mão da Maria Ísis pra gente voltar andando pelo caminho até o carro. Eu estava bem mais calada, pensativa, digerindo aos outros as lembranças do meu passado.

— Ele vai ser um bom pai pra ela. — Túlio comentou comigo, andando do meu lado. Talvez tentando me tranquilizar quanto ao que eu precisava fazer... Bom, não era bem isso o que me preocupava. Eu sabia do caráter do Barbás.

— Eu sei que vai. — Concordei, pressionando os lábios uns contra os outros. — Posso te pedir outro favor?

— Ih, depende. — Ele riu.

— Me leva na quadra lá de cima antes de ir? Aquela que fica depois da 1. É caminho pra tu. — Propus. — Quero mostrar a vista de final de tarde pra Ísis.

— Levo. — Disse simplesmente, abrindo a porta de trás do carro pra nós. Coloquei a Maria dentro e entrei em seguida. Ele embarcou do lado do motorista e dirigiu pela Estrada da Gávea vagarosamente, subindo a favela. Ninguém falou nada dentro de automóvel. O gato parecia que tinha comido minha língua e a Maria estava entretida com as alianças, cessando as perguntas insistentes sobre o pai. Ela deitou no meu colo o caminho todo.

Coração em GuerraHistórias para pegar e não largar. Descubra agora