53

2.1K 172 4
                                        

Saí do banheiro louco atrás de um dipirona e um remédio qualquer pra enjôo. Tomei com água e parei um momento pra fazer uma oração ao meu pai Ogum, antes de ir me vestir e começar meu dia. Eu tava na merda mesmo, queria ficar na cama o dia todo, mas eu não podia me dar ao luxo disso. Sabe-se lá o que eu tinha feito com a visão que os outros tinham de mim por causa dessa cena ridícula de ontem, agora era correr atrás do meu prejuízo. Mais que isso, eu tinha que garantir que minha carga ia chegar no dia seguinte sem problemas e isso era urgente.

Liguei pro Túlio e mandei arrumar as coisas que eu tava indo encontrar ele no escritório. Faça chuva ou faça sol, no meu horário de sempre, eu ia estar correndo atrás da minha missão. Nem comi nada, peguei uma bala ali só pra dar um gás de açúcar no sangue e saí de casa. A luz do Sol fez meus olhos arderem de novo e eu tive que lutar contra a vontade de voltar pra minha cama de novo. Nunca mais, irmão. Nunca mais mesmo, não era nem pra ter acontecido, pra começar. Peguei minha moto e subi pro escritório, dando bom dia pros irmão e subindo pra minha sala, onde o Túlio já me esperava.

— O que que eu fiz ontem na frente dos outros, irmão? — Quis saber logo de primeira.

— Na frente dos outros nada, pô. — Contou e o alívio me varreu. — Tu quis meter o pé do nada, a gente foi atrás de tu, tu falou que queria ficar sozinho, insistiu nisso e ninguém pôde fazer nada.

— Menos mal.

— Tu tava doidão ali já, né? — Perguntou e eu só concordei com a cabeça. — Tu não é disso...

— Não sei o que rolou. — Falei namoral mesmo, massageando a lateral da minha testa. A dor de cabeça começava a passar, mas eu ainda tava meio cabulado com o que tinha me levado a beber daquele jeito. Peguei uma garrafa de água, fiquei enchendo e tomando aquela porra o tempo todo, porque a sensação que eu tinha é que eu tava seco por dentro.

Túlio não falou nada, apesar de querer, eu sabia. Não tava com saco pra conversar sobre a minha vida ali agora, então, foi melhor ele ter ficado calado mesmo. Evitava uma discussão entre a gente.

— Cuidado... — Ele começou e eu estendi a mão.

— Eu já sei, irmão. Já sei o que eu fiz de errado e o que podia ter acontecido comigo. — Cortei ele, eu não precisava de mais sermão do que os que eu mesmo tinha me passado. Eu tava bêbado, sozinho e vulnerável na porra de um baile, onde a segurança das ruas era mais focada nas entradas e não distribuída pelo meio da favela também, como nos dias normais. Não precisava nem falar que alguém podia ter me matado e ia ser a coisa mais fácil do mundo naquele estado. Eu tinha sido burro. Muito burro!

— Como tu chegou em casa?

— Sei lá... — Dei de ombros. — Eu não lembro direito. Eu fui andando, eu acho.

— O amigo que te seguiu até o lado de fora do baile, falou que tu tava meio na merda. Também, né, tu deixou o teu tênis lá, deixou a moto... Tu chegou em casa e só caiu na sala, com tudo aberto? — Ele brincou.

— Até que não, parceiro. Acordei bem namoral até. Cheguei, tomei banho, botei meu roupão e tudo... — Contei, esfregando os olhos.

— E não lembra de nada disso?

— Deu branco na minha mente, irmão. Sei disso porque foi assim que eu acordei. — Contei. — Tava tudo arrumado até, não ficou muita coisa jogada não... — E aquilo soava estranho até pra mim, que pra dizendo aquelas coisas.

— Né possível, Barbás. — Ele riu. — Alguém te ajudou, tu não ia fazer isso tudo com o cu cheio de cana.

— Não tinha ninguém. — Falei sério e ele continuou se divertindo.

— Deve ter sido a Jessi, po. — Insistiu. — Ela ficou preocupadona contigo, quando percebeu que tu tinha metido o pé.

— Pode ser... — Ponderei aquilo. Na minha mente, porém, eu só pensei na Marina. Eu tinha uma sensação sobre ela, uma sensação forte... Qual era a porra do meu problema? — Mas deixa essa porra pra lá, vai? A gente tem coisa pra fazer, vai. Tenho que ir lá na Marina ver o bagulho com ela, é o 3° dia já.

— Agora? — Olhou no próprio relógio de pulso. — Tá cedo, po.

— Quero resolver saporra logo, porque isso tá me matando pra caralho. Odeio ficar com as mãos na costas assim, fico agoniado. — E aquilo era real. Nada me deixava mais fora de mim do que perder o controle de uma situação que devia estar na minha mão. — Bora lá, vai.

Levantei e peguei meu fuzil, mexendo nas travas e arrumando a bandoleira. Túlio e esperou pra gente reunir os seguranças que iam com a gente e meter o pé pro Paula. Descemos rápido até, em menos de 10 minutos a gente parou em frente à uma das casas que eu tinha pra alugar lá, mas que tava a muito tempo fechada por precisar de reforma. Naquela casa onde eu tinha colocado ela.

— Tudo certo ai, irmão? — Perguntei pra um dos meninos que ficava na porta, apertando a mão dele. — A plantão foi normal a noite? Ela não deu trabalho não? — Perguntei, meio desconfiado da minha própria mente. Queria saber sobre como tinha sido a noite ali.

— Nada. A dona só entrou pra dormir e ficou namoral lá dentro. — Garantiu.

— Tô ligado. — Concordei com a cabeça, apertando a mão do outro, antes de realmente entrar.

Era cedo, tinha acabado de dar 8h da manhã, então, era provável que eu tivesse que acordar ela. E, bom, eu realmente não me importava em fazer isso.

Coração em GuerraHistórias para pegar e não largar. Descubra agora