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Eu, literalmente, engoli tudo o que eu tava sentindo. Peguei a caneta que ele tava segurando na mão e pedi um papel. Ele meteu a mão em uma das gavetas baixas do rack da sala e tirou um A4 pra mim. Chamei ele e comecei a rabiscar as ruas. Tinha uma saída na lateral que dava pra Rua Tonelero, que ela bem perto da Ladeira dos Tabajaras. Mostrei rapidinho a distância dela pra onde realmente ficava a subida da favela. Eu só não sabia por onde, nem como se captavam as imagens daquele prédio. Eu quase não ia lá, só pagava as contas mesmo, não tinha como eu saber aquelas coisas.

Minha mão tava tremendo pra caralho, lentamente, lágrimas solitárias de puro nervoso iam escorrendo pelo meu rosto, mas eu me mantinha firme. Eu e ele discutimos sobre as passagens de lá, onde assim que eu mostrei a passagem lateral, ele pegou o telefone pra falar com o Russo e contar aquilo, depois pra mobilizar gente do Tabajaras.

— Olha, tu não me aparece naquela porra de longa* não, hein? Que aí fodeu mermo. Essa porra vai rodar na televisão pra caralho. — Falou meio apressado pro outro. — Só ajuda quem tá lá de nós a sair, não troca tiro sem necessidade, evita ao máximo que tu puder problema. Até onde eu sei, só tem a Larissa armada lá e tem pelo menos duas pessoas na guarda dela lá. — Explicou. — Uma delas é minha filha, irmão, então garante essa porra pra mim. Pela rua de trás... qual o nome mesmo, Marina?

— Tonelero.

— Rua Tonelero, irmão. — Falou. — Tá, tranquilo, vai me mantendo informado. E desligou de novo.

— Liga pra Larissa, Barbás, eu preciso saber como tá a Maria. — Pedi, sentindo minhas cordas vocais arranharem.

— Não tem como eu ficar ligando pra ela, ela tá sozinha lá, capaz de eu matar ela se eu fizer isso. — Disse, num tom apressado, mas muito mais suave que anteriormente. — Mas ela já tá com eles, agora é sair de lá. — Ele passou a mão no rosto de novo. Se ele tava nervoso... as coisas não tavam direito.

— Meu Deus do céu. A Maria não pode passar por essas coisas, ela... — Repeti debilmente. — O que tentaram fazer com elas? Por que tinha gente no meu apartamento?

— Quem tem que me responder isso é você, não sou eu. — Rebateu. — Não sei se tu tá ligada, Nina, mas eu tô de fora dessa porra. — Senti suas palavras carregadas de amargura. Porra, eu soube só pelo tom dele do que ele tava falando... Era sobre estar de fora da vida da Maria Ísis.

— Eu não sei, cacete. Não sei se você tá ligado, mas eu tô há semanas aqui e também meio por fora dessa porra também. — Rebati de volta pra ele. 

— Então pensa. Faz uma lista de quem pode ser, não sei. Eu tenho que saber quem foi, pelo menos ter uma noção. — Seu usual tom tinha uma nota de pressa e outra de ordem. Ele era desse jeito. — Vai, Nina, escreve.

Na minha mente, só passava algumas seletas possibilidades. Uma delas era um fator complicante pra mim... Eu não queria ter que me enrolar em mentiras, mas como eu ia explicar pra ele as coisas como elas eram na realidade?

— Pode ter sido alguém daqui... — Comecei.

— Não foi ninguém meu. A Larissa e os irmão da Tabajara teriam reconhecido. Próximo.

— É... — Passei a mão nos olhos novamente, limpando a umidade dali e colocando minha cabeça pra trabalhar. Minha opções agora se voltaram pra única provável naquela situação... a única outra parte, além do Barbás, que sabia sobre a Maria Ísis e sobre a minha mãe, e onde encontrar elas. A parte foda é que, se realmente tivessem sido eles, então significava que a minha dor de cabeça só estava começando. — O Fallet-Fogueteiro e o Prazeres do Barnabé. — Falei aquilo com muito pesar, sabendo que o problema que me traria seria colossal.

Eu não se realmente tinha sido o Barnabá, mas se ele não entrava em contato e tudo tava acontecendo com ele de frente, então era ele que tava em número 1 na minha lista de suspeitos. Aquilo era muito estranho, na real. Barnabé sabia bem o quão dependente aquelas favelas eram das minhas rotas de contrabando, como tudo o que chegava pra manter o poder deles vinha das minhas mãos... o que significava que sabia exatamente como eu, especialmente, podia não deixar tijolo sob tijolo daquele lugar se eu quisesse. Por que ele faria um bagulho tão estúpido, então?

— Por quê?! — Perguntou.

— Eles sabem onde minha mãe mora. Meu pai quem pagava o apartamento dela, o Barnabé tratava desse assuntos pessoais pra ele. — Contei, muito chateada por ter eles como os meus 01. Aquela favela era minha pra todos os efeitos, mesmo que eles achassem que podiam simplesmente tomar ela de mim, quando eu tivesse a oportunidade de voltar, seria só questão de tempo até recuperá-las. Rio Comprido tava atrelado à mim e ao Paraguai, eles não tinham como fugir.

Só que, se realmente fossem eles a terem sido baixos daquele jeito, indo se meter com a minha filha, eu ia acabar com a raça deles todos. Nem que no final só sobrasse eu de pé naquelas favelas.

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*longa: arma de cano longo, geralmente nomenclatura genérica para tipos de armamento como fuzis, escopetas, carabinas, alguns tipos de sub e afins. 

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Coração em GuerraHistórias para pegar e não largar. Descubra agora